EXPLICAÇÃO DA ORAÇÃO DE SANTO EFRÉM, O SÍRIO – PARTE 2

3. A Paixão da Ambição (Sede de Poder)

“Ó Senhor e Mestre da minha vida! Afasta de mim o espírito de domínio” O que é o espírito de domínio/ambição (a sede de poder)? É o desejo de ser sempre o primeiro, de ter autoridade sobre os outros. Foi esse espírito que destruiu o arcanjo, o chefe de todos os anjos, transformando-o em Satanás e expulsando-o do céu; destruiu Corá, Datã e Abirão, que invejaram a glória de Moisés quando este conduziu o povo de Israel pelo deserto até a terra de Canaã. A ambição motivou todos os hereges, que quiseram impor seus próprios ensinamentos no lugar dos ensinamentos da Igreja e se tornarem os líderes da Igreja. Também houve escritores com pensamentos depravados, que corromperam gerações inteiras.

O Senhor Jesus Cristo condenou o amor ao poder — a paixão dos escribas e fariseus de serem os primeiros, o desejo de se sentarem à cabeceira da mesa nos banquetes, de receberem saudações apropriadas para os governantes do povo. O Senhor disse aos Seus discípulos e, por meio deles, a nós: “Se alguém quiser ser o primeiro, será o último de todos e o servo de todos” (Mc 9,35). O amor ao poder é contrário ao espírito do Evangelho, contrário ao espírito da humildade. Contudo, essa paixão domina a todos, e não há ninguém que não esteja contaminado por ela — até mesmo as crianças.

Todos almejam uma posição elevada, anseiam por promoções, desejam honra. Muitos pais criam seus filhos para serem ambiciosos, para terem a paixão de serem os primeiros, e os corrompem dessa maneira.

Será tão difícil entender que os cargos de liderança são para poucos? Nem todos podem ser os primeiros. Essencialmente, esse é o destino de pessoas especiais, escolhidas por Deus. Um número extraordinariamente grande de pessoas se esforça para ocupar posições elevadas na sociedade e não hesita em usar quaisquer meios para atingir esse objetivo; elas usarão conexões, buscarão favores ou se tornarão subservientes apenas para alcançar seu objetivo.

Muitas vezes, o Senhor os castiga; sua paixão desmedida termina em fracasso. Tornam-se amargos, recusam-se a realizar qualquer trabalho comunitário, refugiam-se na vida familiar e se isolam nela. Mas o amor ao poder os atormenta até mesmo ali, e eles atormentam seus familiares. Não há paz em suas almas.

É por isso que Santo Efrém, o Sírio, em sua grande oração, pede a Deus que o salve do espírito corruptor da ambição, tão contraditório à humildade.

A todos nós foi mostrado o caminho da honra, uma honra acima de todas as honras, com a qual nenhuma conquista terrena se compara. É o caminho para o Reino de Deus, onde podemos nos tornar amigos, filhos de Deus. Alcançaremos esse objetivo somente nos esforçando para cumprir todos os mandamentos de Cristo.

Devemos lembrar que o Senhor pode nos conduzir ao caminho largo quando não o buscamos, quando não almejamos a glória terrena. Muitas vezes, Ele nos concede essa glória independentemente de nossos próprios esforços e vontade. A verdadeira glória foge daqueles que a perseguem e a desejam ardentemente, e encontra aqueles que dela fogem.

Sem pensar em autoridade sobre outras pessoas, precisamos nos aprofundar em como podemos desenvolver as habilidades e talentos que Deus nos deu, para promover o desenvolvimento de nossas capacidades silenciosamente, desconhecido do mundo. E pode acontecer, como já aconteceu muitas vezes, que o Senhor eleve essa pessoa a um ápice de glória inalcançável. Lembre-se de que o Senhor sabe como indicar as pessoas, para distinguir as obras humanas feitas de acordo com os mandamentos de Cristo. Se alguém deseja ser o primeiro, esse será o último de todos e o servo de todos.

Oremos com Santo Efrém, o Sírio, para sermos libertos do grave vício do amor ao poder!

4. A Habilidade de Controlar os Lábios

“Ó Senhor e Mestre da minha vida! Afasta de mim o espírito de vã-loquacidade!” Santo Efrém ora por isso, o santo profeta David diz em seu salmo: “Põe, Senhor, uma guarda diante da minha boca, e uma porta de proteção ao redor dos meus lábios” (Sl 140:3), e o próprio Senhor Jesus Cristo disse: “De toda palavra vã que os homens disserem hão de prestar contas no dia do juízo” (Mt 12:36). Quão sério e difícil é prestar contas de cada palavra! E poderia haver algo mais fácil de considerar do que as palavras?

Nossa capacidade de proferir palavras, em grande medida, nos torna semelhantes ao próprio Deus. Deus criou o mundo com uma palavra, e a palavra de Deus tem um poder imenso e poderoso. A palavra humana também é poderosa. Com uma palavra, o profeta Elias ressuscitou os mortos, fechou os céus, trouxe chuva à terra e a fez parar.

Qual é o poder contido em uma palavra? Uma palavra vive; vive cem, mil anos. As palavras proferidas pelos grandes profetas de Deus, que viveram muitos séculos antes do nascimento de Cristo, pelos santos apóstolos e pelos ascetas divinos, ainda estão vivas hoje. Os ensinamentos da Igreja de Deus vivem há milênios. E se uma palavra vive mil anos, isso significa que ela é muito importante. Uma palavra que sai de nossos lábios sempre produz um efeito extraordinariamente profundo, não apenas sobre aqueles ao nosso redor, mas até mesmo sobre pessoas distantes.

As palavras sábias e cheias de graça dos santos promovem a justiça no mundo, criam a bondade eterna, enquanto as palavras más e pecaminosas trazem desonra, ódio e enorme dano a toda a humanidade. As palavras têm vida, são transportadas como ondas de rádio para o espaço e penetram nos corações e mentes das pessoas.

Uma palavra é uma força imensa que une ou divide as pessoas. Se as pessoas fossem privadas de palavras, seriam como animais, e a vida humana estaria arruinada. Quão grandioso e profundo é o significado da palavra humana!

Já encontramos inúmeras pessoas em nossas vidas, especialmente mulheres, que tagarelam desenfreadamente e sem parar, e suas línguas não conhecem o cansaço. Tudo o que dizem é vazio e inútil para ninguém.

Santo Efrém, o Sírio, orou a Deus para que o livrasse da conversa fiada. Ele temia cair, para que sua língua não o destruísse, e esses tagarelas miseráveis ​​não têm medo algum. As pessoas muitas vezes os toleram — melhor deixá-los tagarelar. Pensam que estão sendo ouvidos com prazer, mas no fundo, todos estão cansados ​​deles. Se a língua tagarela e fala ociosamente, os pensamentos vagueiam sem rumo, sem se concentrar em nada profundo, verdadeiro ou importante. A alma anseia, a pessoa se torna desagradável aos outros e causa sérios danos a si mesma. Esse é o significado da vã-loquacidade. As pessoas sábias que vivem uma vida espiritual nunca falam ociosamente. Elas tendem sempre ao silêncio e à concentração.

Como podemos nos livrar do vício da vã-loquacidade, o que podemos fazer com nossa língua descontrolada? Precisamos fazer como fez Santo Efrém, o Sírio: orar a Deus pedindo libertação desse vício, e o Senhor Jesus Cristo nos concederá o que pedimos. Precisamos evitar a comunicação com os que falam demasiadamente e buscar a companhia de pessoas sábias, que só abrem os lábios para dizer algo benéfico. Precisamos estar extremamente atentos a nós mesmos, adquirir o hábito de observar o que nossa língua diz, com o que ela se ocupa, e nos acostumar a controlá-la — não permitindo que ela se movimente indiscriminadamente.

Quanto mais uma pessoa se concentra no mais importante, no interior, no verdadeiro, mais tempo ela tem para ler o Evangelho, as Sagradas Escrituras, as obras dos santos padres e, sobretudo, para compreender sua sabedoria e aversão à vã-loquacidade.

É uma grande conquista dominar a língua! O santo apóstolo Tiago escreveu em sua epístola: “Se alguém não tropeça em palavras, esse é perfeito, capaz de refrear também todo o seu corpo” (Tg 3:2). Isso significa que subjugar a língua é o objetivo supremo da vida espiritual — refrear tudo o que é mau e para o qual a carne é atraída. Comece refreando a língua, e se você alcançar esse objetivo, alcançará a perfeição e refreará todo o seu corpo. E uma vez que você tenha refreado todo o seu corpo, você será puro e justo diante de Deus.

Que o Senhor lhes conceda essa pureza e justiça, e que a oração de Santo Efrém, o Sírio, sempre os faça lembrar disso.

5. Fruto Proibido

“Ó Senhor e Mestre da minha vida! Concede-me o espírito de temperança!” Este grande asceta e habitante do deserto, Santo Efrém, o Sírio, orou para que o Senhor lhe desse o espírito de temperança. Seria realmente necessário que ele fizesse essa oração? Ele considerava que precisava orar por isso, e todos os santos oravam por isso. Por quê? Eles sabiam que o Senhor exige deles, como de todos os cristãos, castidade total e incondicional, não só da carne, mas também do espírito.

Não ousamos, nem devemos ousar, violar a castidade nem mesmo em nossos pensamentos, pois o próprio Senhor disse que qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, já cometeu adultério com ela no seu coração (Mateus 5:28). E ninguém escapa aos pensamentos impuros; até mesmo os santos lutaram arduamente por muitos anos contra esses pensamentos.

São Martiniano, um jovem, lutou desesperadamente contra essa paixão. Quando uma mulher dissoluta conseguiu entrar em sua cela e tentá-lo, ele se pôs sobre brasas para vencer a paixão carnal dentro de si.

Assim, os santos lutaram; lutaram obstinadamente, por décadas, e os principais meios para essa luta foram o jejum, a humildade e a oração; pois todos os santos padres dizem que não há defesa maior contra os desejos carnais do que a humildade. Se uma pessoa adquire humildade, ela se liberta desses desejos, enquanto aqueles que são orgulhosos e alheios à humildade são totalmente vencidos por essa paixão vil.

Quantos cristãos existem entre nós que não consideram esse pecado grave? “Afinal, sou piedoso”, dizem eles, “esforço-me ao máximo para cumprir os mandamentos de Cristo e praticar obras de misericórdia. O Senhor não me perdoará esta pequena fraqueza?” Aqueles que falam assim estão profundamente enganados, pois o que chamam de “pequena fraqueza”, o apóstolo Paulo chama de algo completamente diferente. Ele é tão rigoroso a esse respeito que, em sua Epístola aos Efésios, diz: “Mas a imoralidade sexual, e toda impureza ou avareza, nem sequer sejam mencionadas entre vocês, como convém a santos” (Ef 5,3). Não devemos nem pensar ou falar sobre isso, como convém a santos.

Ele diz que nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas… entrarão no Reino de Deus (cf. 1 Cor 6,9,10). O apóstolo não está apontando que um pecado contra o sétimo mandamento não é apenas uma fraqueza que Deus perdoará?

E onde estarão os adúlteros e fornicadores? Certamente, em um lugar de trevas e tormentos eternos. Não pensem que essa paixão seja natural. A natureza humana é estruturada para que as pessoas gerem filhos, e não para que se contaminem. Pois, como diz o apóstolo Paulo, todo pecado… é fora do corpo (1 Coríntios 6:18): orgulho, ambição, amor à honra, inveja ou ira, porque essas são paixões da alma; mas a fornicação e o adultério estão no próprio corpo e contaminam não só a alma, mas também o corpo.

Ele não disse que o nosso corpo é um templo do Espírito Santo (cf. 1 Coríntios 6:19)? E se é um templo, então deve ser puro. Destruir o templo do Espírito Santo, fazer dos nossos corpos membros de uma prostituta, como exclama o apóstolo, de maneira nenhuma! (cf. 1 Coríntios 6:15).

Quantas pessoas há entre aqueles que transformam suas paixões carnais em gratificação contínua, o que os torna iguais aos animais, que se distinguem por uma lascívia particular. É vergonhoso para um cristão ser como um pavão.

Pois, diz o apóstolo Paulo em sua Epístola, esta é a vontade de Deus: a vossa santificação, que vos abstenhais da imoralidade sexual; que cada um de vós saiba controlar o seu próprio corpo em santificação e honra, não na paixão da concupiscência, como os gentios que não conhecem a Deus (1 Tessalonicenses 4:3-5). Porque Deus não nos chamou para a impureza, mas para a santidade (1 Tessalonicenses 4:7).

Ele disse: “Os que pertencem a Cristo Jesus crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” (Gálatas 5:24). Se quiserem, lembrem-se disto: vocês devem crucificar e mortificar a sua carne juntamente com as paixões e concupiscências. É necessária uma luta diária e intensa contra toda a carne.

Aqueles que caíram em pecado contra o sétimo mandamento precisam sair do abismo dessa queda, clamando por ajuda Àquele que deu o mandamento da castidade (cf. Êxodo 20:14; Mateus 5:27-28); orar fervorosamente e lembrar constantemente o que o próprio apóstolo diz: “E não vos embriagueis com vinho, em que há dissolução” (Efésios 5:18). No vinho há fornicação, pois nada desperta tanto a nossa luxúria quanto a embriaguez — depois de embriagado, o indivíduo torna-se um brinquedo nas mãos do demônio da fornicação.

Quem come muito, está sempre ocioso, não quer trabalhar, ocupa-se apenas com entretenimentos, dança, idas ao teatro e ao cinema, e dorme como uma mulher sem controle até às onze da manhã, certamente se tornará um fornicador, pois está fazendo tudo para que a luxúria carnal o leve pelo seu próprio caminho.

Mas se uma pessoa está constantemente ocupada com trabalho físico ou intelectual, não tem tempo para se distrair do seu trabalho. Tendo terminado o trabalho, à noite ansiará apenas por descanso; não terá interesse em luxúria ou devassidão. Portanto, os meios para se libertar do domínio do demônio da fornicação são a humildade, o jejum, o trabalho intenso e a oração constante.

Quantas pessoas infelizes existem, especialmente entre os jovens, que leem com grande prazer romances e histórias apaixonadas ou assistem a filmes com cenas obscenas de devassidão. Que veneno e que acendedor de luxúria é esse!

Deveríamos agir de outra forma — não deveríamos inflamar a luxúria com descrições e cenas pornográficas, mas sim nos esforçar para controlá-la. Assim que percebermos que imagens lascivas surgiram em nossos pensamentos, devemos tentar agarrar a serpente pelo pescoço e esmagar sua cabeça, pois se não o fizermos imediatamente, ela se infiltrará imperceptivelmente em nossos corações e os converterá à paixão da fornicação. Devemos lembrar o que disse o Profeta David no Salmo 136: “Bem-aventurado aquele que pega as criancinhas e as despedaça contra a rocha” (cf. Sl 136,9). As criancinhas são nossas paixões e desejos, e precisamos lutar contra elas imediatamente, antes que se fortaleçam, antes que dominem nossos corações.

Somente quando você se corrigir e receber o perdão desse pecado no Sacramento da Confissão, poderá ter acesso ao Santo Cálice.

Esta é uma questão séria. Agora você pode entender por que Santo Efrém, o Sírio, ora a Deus para que o Senhor lhe dê o espírito de temperança. Que todos nós que somos culpados desse pecado oremos também a Deus pela salvação e clamemos como Santo Efrém: “Socorro, socorro nesta luta. Somos fracos, e Tu és forte!”


São Lucas da Crimeia
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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