EXPLICAÇÃO DA ORAÇÃO DE SANTO EFRÉM, O SÍRIO – PARTE 1

São Lucas (Voino-Yasenestky) (1877–1961), Arcebispo de Simferopol e da Crimeia, foi um grande santo de nossos tempos. Cirurgião e estudioso de medicina por profissão, tornou-se bispo durante as ferozes perseguições contra a Igreja, sabendo que seu caminho o levaria à prisão e ao exílio. Suas numerosas obras são preservadas para nós e nos inspiram na vida espiritual.

Ao ler a presente explicação desta oração, repetida muitas vezes em cada celebração durante a Grande Quaresma, que possamos descobrir um novo significado e inspiração para nossa luta quaresmal.

* * *

“Senhor e Mestre da minha vida, afasta de mim o espírito de preguiça, de desânimo, de domínio e loquacidade.

Concede a mim, Teu servo, o espírito de temperança, de humildade, paciência e amor.

Sim, Senhor e Rei, concede ver os meus próprios pecados e não julgar meu irmão, pois Tu és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.”

A oração de Santo Efrém, o Sírio, ocupa um lugar especial nos Serviços da Santa Igreja. É repetida muitas vezes durante eles da Grande Quaresma.

Esta oração penetra o coração como nenhuma outra, age misteriosamente sobre ele, e sente-se nela um poder divino especial e excepcional. Por quê? Porque foi proferida de um coração perfeitamente purificado e santo, e de uma mente iluminada pela graça divina e que se tornou participante da mente de Cristo. É curta, mas contém, no entanto, uma enorme riqueza de pensamentos e sentimentos. Extraordinariamente importante é o próprio fato de Santo Efrém pedir a Deus que o livre de tudo o que é profano e repugnante a Ele, e que lhe conceda grandes virtudes. Por que ele pede isso?

Existem pessoas — e havia especialmente muitas durante os tempos pagãos — que confiam inteiramente em si mesmas e pensam que tudo é alcançável através do poder da mente e dos sentimentos. Elas não compreendem que muitas coisas, na verdade as mais importantes, preciosas e estimadas, não são acessíveis à nossa mente e aos nossos sentimentos. Quem compreende isso entende o que disse o apóstolo Paulo: “Pois o que eu faço, não o aprovo; porque o que quero, isso não faço; mas o que detesto, isso faço” (Romanos 7:15).

Assim falou o maior e principal apóstolo, reconhecendo sua impotência para trilhar o caminho da bondade, compreendendo profundamente que sua carne, que o arrasta para baixo e impede a ascensão de seu coração a Deus, exerce enorme poder sobre ele. Ele definhava e sofria porque não fazia o bem que sua alma desejava, mas o mal que não queria.

Profundamente consciente disso, Santo Efrém, o Sírio, orou a Deus para que o livrasse da maldade, para que lhe desse forças para fazer o bem. A força para praticar boas obras, assim como a força para se libertar dos vícios, é algo que recebemos somente de Deus. A alma de todo cristão tem uma vaga noção disso, e é por isso que a oração de Santo Efrém, o Sírio, a toca tão profundamente.

Cada homem tem seu próprio espírito — em sua alma estão os vestígios deixados pelos vícios em que peca, assim como pelo bem que pratica. É muito mais fácil libertar-se de vícios individuais do que do espírito desses vícios. Este último só é possível gradualmente, com a ajuda de Deus.

E assim, Santo Efrém, o Sírio, pede a Deus não apenas que lhe dê o espírito das virtudes e o livre do espírito de suas faltas, mas também que sua alma se torne perfumada com Cristo.

1. Ociosidade ou Preguiça — a mãe do pecado

“Senhor e Mestre da minha vida, afasta de mim o espírito de preguiça”! Por que Santo Efrém, o Sírio, inicia sua oração com um pedido sobre a ociosidade, como se não houvesse pecados piores?

Ao observarmos a ociosidade do ponto de vista comum do dia a dia, vemos que ela é desprezível e merece toda a condenação.

A ociosidade é um vício muito perigoso, pois é a mãe de muitos outros vícios. Os ociosos não concentram seus pensamentos na profunda seriedade da vida, na enorme responsabilidade que lhes cabe não apenas perante as pessoas, mas também perante o próprio Deus.

O ocioso é um membro nocivo da sociedade e do Estado. Por causa de sua preguiça, os ociosos são incapazes de trabalhar e caem na pobreza. Por serem necessitados, exigem não apenas o necessário para a vida, mas também prazeres que ultrapassam os limites do necessário — luxos e assim por diante. E para obter dinheiro, inventam vários outros meios pecaminosos e tornam-se capazes de toda a maldade: negócios obscuros, mentiras, enganos e subornos.

Mas ainda mais destrutiva é a ociosidade na vida espiritual. Sabemos que qualquer habilidade que não seja praticada acaba se perdendo. Se um músico que alcançou a perfeição em sua execução abandona a música por muitos anos, perderá essa perfeição. Sem exercício, cada órgão do nosso corpo entra em estado flácido e não consegue funcionar. Uma pessoa que vive deitada perde a capacidade de andar. Quem não trabalha com as mãos deixa os músculos dos braços flácidos. A força do corpo diminui quando fisicamente inativo. O mesmo pode ser dito das capacidades da alma. Se uma pessoa não reza, perde a capacidade de rezar. Quem não cuida do seu espírito e do seu coração se torna dissoluto no sentido espiritual.

A alma sem exercício torna-se como um campo que não é cultivado há vários anos, tomado por ervas daninhas altas e inúteis, espinhos e cardos, e muito difícil de fertilizar. A ociosidade da alma, a falta de prática em boas obras, leva à destruição da alma, ao crescimento excessivo das ervas daninhas do pecado.

Mesmo assim, por mais difícil que seja, este não é o pior problema. Um problema muito maior é que perdemos dias de atividade espiritual — os breves dias desta vida, que nos foram dados por Deus para que pudéssemos alcançar um objetivo grandioso e santo — para nos prepararmos para o Juízo Final. Devemos nos tornar dignos aos olhos de Deus para que Ele não nos coloque à Sua esquerda, dizendo: “Afastem-se de Mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mateus 25:41).

A vida nos foi dada para que nos apressemos a realizar a grande obra de purificar nossos corações, seguindo nosso Senhor Jesus Cristo. E esse seguimento é, afinal, trabalho intenso, muitas vezes difícil, e não ociosidade. É suportar o sofrimento por nosso Senhor Jesus Cristo, enquanto a ociosidade foge do sofrimento.

Sabes que todos os santos, que aparentemente não precisavam de trabalhos e dedicavam todo o tempo de suas vidas às obras espirituais, dividiam o dia em três partes: uma para a oração, outra para a leitura da Palavra de Deus e outra para o trabalho. Eram todos estranhos à ociosidade, considerando-a um grande e destrutivo mal.

Escolheram vários trabalhos: tecer cestos e esteiras, cuidar da horta, cortar lenha e construir celas, igrejas e mosteiros inteiros. Vendiam seus trabalhos manuais na cidade próxima e alimentavam a si mesmos e aos pobres. O santo apóstolo Paulo pregava o dia todo e, à noite, fazia tendas. Ele trabalhava diligentemente à luz da lua ou de lâmpadas, considerando o trabalho uma obrigação para si. Seu principal objetivo era avançar o máximo que suas forças permitissem em direção ao alvo — o Reino de Deus. Ele profere estas palavras notáveis: “Irmãos, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que estão adiante” (Filipenses 3:13-14). Este é um exemplo de vida contrária à vida das pessoas ociosas.

Não se encontra um único vestígio de ociosidade na vida do apóstolo Paulo, na vida dos eremitas que jejuavam, na vida monástica, na vida dos grandes santos. Todos eles a rejeitavam, considerando-a um grande e destrutivo mal. Lembre-se de que a vida é curta e que devemos nos apressar, como o apóstolo Paulo, para trabalhar para o Senhor.

2. Terrível é o espírito do desânimo

“Senhor e Mestre da minha vida, afasta de mim o espírito de desânimo!” O que é o espírito de desânimo? É o que chamam de queda de espírito. As pessoas que não entendem o Cristianismo olham para os monges vestidos de preto, com a cabeça baixa, mexendo em seus cordões de oração, e pensam que toda religião é deprimente. Mas não é nada disso. Isso contradiria o espírito que permeia todo o Cristianismo; pois, diga-me, pode uma pessoa deprimida possuir a força e a energia espiritual necessárias para trilhar o caminho estreito, lutando incansavelmente contra a pecaminosidade da vida e ascendendo de força em força?

Claro que não! Nossa religião não é a religião da depressão, mas da alegria, da energia, da força de vontade e do caráter, cujo fruto não é a depressão, mas algo absolutamente oposto — aquilo de que falou o santo apóstolo Paulo: “Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra essas coisas não há lei” (Gálatas 5:22-23). ​​Este é o verdadeiro espírito e essência da nossa religião — não a depressão, mas a justiça e a alegria pacífica no Espírito Santo. Alguém que possui essa alegria poderia estar deprimido? Claro que não!

As pessoas frequentemente se enganam ao avaliar a aparência de alguém. O verdadeiro cristão não tem uma aparência que revele sua alegria de viver. Ele está sempre em paz, muitas vezes aparentemente imerso em pensamentos profundos, revelando sua contemplação. Seus pensamentos estão concentrados no eterno, no Reino de Deus, voltados para o Senhor Jesus Cristo — e, portanto, ele é sempre sério.

Pode acontecer que um cristão [asceta] se sinta desanimado de tempos em tempos. Isso acontece com aqueles que, tendo percorrido um longo caminho na senda de Cristo, o caminho da renúncia às tentações do mundo, às vezes retornam ao seu caminho anterior; parece-lhes que erraram ao abandonar aquele caminho, o caminho que a maioria das pessoas segue. Então, eles caem em desânimo.

O diabo os tenta, legiões de demônios interrompem seu movimento e os impedem em seu caminho de Cristo, apresentando-lhes imagens de felicidade familiar e amizades abençoadas, e os puxam de volta deste grande caminho para aquele caminho anterior. E não raro os demônios alcançam seu objetivo: o asceta cai em espírito e perde o zelo pelo Senhor Jesus Cristo. O desânimo é um grande perigo que se interpõe no caminho do cristão para Cristo. É uma tentação diabólica.

Todos os santos foram submetidos a esses ataques dos espíritos das trevas e, na grande maioria dos casos, por meio da oração, do jejum e das vigílias, os cristãos venceram o espírito de desânimo provocado pelo diabo.

Mas também havia aqueles em cujas almas o espírito de desânimo simplesmente crescia, e eles se afastavam do caminho de Cristo. E quando o abandonavam, sentiam-se abandonados por Deus, o vazio e o peso da vida tornavam-se insuportáveis ​​e muitas vezes tiravam a própria vida. É por isso que todos os santos consideravam o desânimo um grande perigo e infortúnio, e direcionavam todas as suas forças para combater o espírito de desânimo.

Às vezes, quando uma pessoa alcança uma vida elevada, pode desenvolver uma alta opinião de si mesma — e então a graça de Deus a abandona por um tempo. Então ela cai num estado de espírito pesado e insuportável — seu coração se esvazia imediatamente. Em vez de calor e alegria, há um profundo desânimo. O Senhor faz isso para lembrar ao asceta que ele trilha o caminho de Cristo não por sua própria força, mas pela graça de Deus. Esta é uma das fontes de desânimo.

Que outras fontes de desânimo existem? A ociosidade é uma das mães do desânimo. Pessoas ociosas que não trabalham, mas gozam de boa situação material, que estão saciadas com os prazeres desta vida e mergulhadas no luxo, perdem o gosto pela vida. Tornam-se apáticas, tudo se torna desinteressante e entediante, nada lhes traz alegria, e seus corações se enchem de desânimo — o terrível e perigoso inimigo da nossa salvação.

Outra fonte de desânimo é o pessimismo. Os pessimistas tendem a ver tudo sob uma luz turva, a se concentrar no lado sombrio e pecaminoso. Se uma pessoa percebe apenas o lado ruim e negativo da vida, o desânimo que toma conta da mente cresce a ponto de ela não enxergar nada de bom e acabar cometendo suicídio. Essa é a força do espírito do desânimo.

A fonte mais comum de desânimo é a amargura e os eventos dolorosos que as pessoas vivenciam. Um ente querido morre, um marido ou um filho, e a mãe entra em profunda depressão. Essa mãe não vê nada de bom no mundo. Ela pensa apenas no falecido, vagueia em pensamentos ao redor de seu túmulo, imagina-o deitado no caixão, e sua depressão se aprofunda cada vez mais.

Como alguém pode se libertar disso? Não se deve lembrar do passado e continuar derramando lágrimas. O falecido está muito, muito longe. Sua alma está diante de Deus e dos anjos, regozijando-se com sua liberdade. É preciso fazer todo o esforço para ser levado em pensamento ao lugar onde o ente querido agora se encontra. Se nos concentrarmos não no obscuro e corruptível, mas no eterno, o espírito de desânimo se dissipará.

Às vezes, doenças graves podem levar alguém ao desânimo. Muitas pessoas não suportam as doenças com paciência. Mas houve santos que estiveram doentes e acamados por toda a vida, e ainda assim louvaram a Deus por isso. Devemos nos lembrar dessas pessoas e saber como aceitar as doenças enviadas por Deus. Não devemos recusar a ajuda de um médico, pois o sábio filho de Sirac disse: “Honrem o médico com a honra que lhe é devida, pelos serviços que dele receberem; pois o Senhor o criou” (Eclesiastes 38:1). Um médico é servo de Deus, que pode aliviar o sofrimento e, assim, afastar o espírito de desânimo.

Essas são as fontes e causas do desânimo. O principal meio para combatê-las, testado por muitos santos ao longo dos anos, é a oração. Não há nada mais eficaz do que a oração, o constante pedido de ajuda a Deus.

Quando você começa a conversar com Deus, Ele o consola e afasta o espírito de desânimo. E se você abrir seu coração diante de um pastor da Igreja na Confissão e, em seguida, receber o Corpo e o Sangue de Cristo, sentirá alívio e alegria, e o espírito de desânimo será expulso de você em desgraça.

Não se concentre nas trevas, no pecado e no peso; elevando-se em espírito, permaneça em seu coração com Deus, nas câmaras celestiais, onde os espíritos malignos não têm acesso.

E o que dizer das pessoas que praticamente não conhecem a Cristo, que buscam o caminho mundano, que buscam alegria e consolo no mundo? Exteriormente, muitas vezes parecem satisfeitas, alegres e felizes, como se não tivessem nenhum desânimo. Não pense que isso seja verdade. No fundo de suas almas, suas consciências não cessam de repreendê-las, e ninguém consegue acalmar completamente a própria consciência. Este é o sofrimento constante daqueles que perseguem a prosperidade mundana. O apóstolo Paulo diz: “Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz a morte” (2 Coríntios 7:10).

Se você não se converter da tristeza pelo mundo para a tristeza por Deus, você perecerá! Lembre-se da seriedade do desânimo. Lembre-se de que o coração de um cristão deve estar repleto da alegria de buscar a luz; deve ser alheio à tristeza que preenche o coração dos pecadores.

Que o Senhor Deus tenha misericórdia de você e que Santo Efrém o auxilie em suas orações!


São Lucas da Crimeia
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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