Cristo nasceu! Estamos quase lá. Esta manhã, nas Matinas, cantamos: Cristo nasceu, glorificai-O, venham ao Seu encontro, venham ao Seu encontro. Então, enquanto começamos a correr para a linha de chegada deste Jejum da Natividade, entrando na gloriosa Festa, é tão importante parar, não correr, mas acalmar a mente, parar todo o pensamento, parar toda a agitação da nossa mente e contemplar aquele único elemento misterioso da nossa celebração da Natividade: que devemos encontrar Cristo. Devemos encontrá-lo.
Nosso Deus não é uma ideia. Nosso Deus não é um conceito. Nosso Deus não é uma construção que criamos e à qual temos que nos submeter. Nosso Deus é cognoscível. Nosso Deus está presente. Nosso Deus é encontrável. Devemos ter um encontro com Ele. Queremos ser como os pastores que foram iluminados e, nessa iluminação, foram procurá-Lo, ou os reis magos que viajaram por um ou dois anos seguindo um sinal místico que não entendiam, para que pudessem encontrá-Lo pessoalmente. E esse encontro, precisamos lembrar, não é forjado.
Não é artificial. É tão inacreditavelmente humano que é até difícil acreditar que o Cristianismo se desenvolveu a partir do que fez e teve o impacto que teve no mundo, e que define a realidade humana da maneira como o faz. É a verdade absoluta de Deus revelada ao homem, mas não fora do contexto real do que significa ser um ser humano caído.
No Serviço das Horas Reais, sempre me encanto com os Tropários que cantamos todas as vezes antes do Prokimenon para introduzir a leitura do Antigo Testamento e a leitura do Evangelho. Temos essa história de José lutando, José lutando com a realidade do que está acontecendo, lutando com o fato de Maria estar grávida. Na leitura da Epístola desta manhã, ouvimos sobre todas essas pessoas que mantiveram a fé, que acreditaram que a promessa que Deus fez a Abraão se cumpriria século após século, que a promessa de que da descendência de David viria o Cristo, o Cristo, o Salvador, o Ungido, que nos salvará.
Que jornada incrível. Observamos a luta de José durante o canto das Horas Reais. Recordamos todos os anos que José lutou. Se esta fosse uma religião inventada, se estivéssemos tentando criar uma religião, este é sempre um ponto fascinante para mim, se estivéssemos tentando convencer o mundo de que esta é a verdadeira religião, nunca diríamos coisas como José lutou.
Imaginamos José irradiando uma luz incriada, conversando com o anjo com ousadia e dizendo ao mundo: “Meu Filho é o Messias! Recebi a missão de cuidar d´Ele e de Sua Mãe; venham conhecê-Lo”. Mas não é isso que acontece.
Temos José aproximando-se da Theotokos e dizendo: “O que aconteceu con´Tigo, Maria? Estou perturbado. O que posso Te dizer? A dúvida turva minha mente. Afasta-Te de mim. O que Te aconteceu, ó Maria? Em vez de honra, me trazes vergonha. Em vez de alegria, me enches de tristeza. Os homens que me elogiaram agora me culparão. Não posso suportar a condenação de todos os lados. Eu Te recebi, uma virgem pura aos olhos do Senhor. O que é isto que agora vejo?”
O quanto mais humanos podemos ser? O quanto mais podemos reconhecer a luta humana, a participação humana necessária para encontrar Cristo? Somos realmente especiais como um povo com algum tipo especial de luta? Não é a dúvida que aflige nossa fé? Não é a decepção que encontramos nas pessoas ao nosso redor que nos faz tropeçar espiritualmente? Não são as nossas próprias circunstâncias, as circunstâncias da nossa própria vida que continuam nos arrastando para baixo? Lamento dizer-lhe se você espera idealismo, mas, como pessoas que lutam e caem, na Fé Ortodoxa você está em ótima companhia.
E José sente o mesmo. Contemplem todos os Antepassados cuja memória celebramos hoje, que viveram e morreram mantendo a sua fé, seguindo a crença de que a promessa de Deus ao povo de Abraão e aos filhos de David seria cumprida por Deus, vivendo e morrendo, sofrendo, como ouvimos nesta leitura da epístola, sofrendo, torturando, rejeitando todo tipo de privação por todos ao seu redor, vivendo e morrendo, sem saber ao certo se essa promessa seria cumprida. A própria Theotokos, encontramos nos hinos de Natal de Santo Efrém, o Sírio, outro reconhecimento sem vergonha da confusão humana que pode acometer o homem quando ele se depara com Deus, quando encontra Deus, como somos chamados a encontrá-Lo.
Santo Efrém coloca essas palavras na boca de Maria sem qualquer pudor, mas de uma maneira que A declara ainda mais santa, ainda mais vencedora desta grande contenda da fé. Ele faz Maria olhar para o Recém-Nascido, o Salvador nascido, deitado em uma manjedoura, e faz Maria dizer enquanto olha para a Criança: “Devo Eu Te chamar de Filho? Ou talvez fosse melhor Te chamar de irmão. Marido, devo Te chamar? Senhor, devo Te chamar? Ó Filho que deu à luz Sua Própria Mãe pela segunda vez! Pois Eu sou Sua irmã da casa de David, o pai de nós dois. Sou Sua Mãe por causa da Sua concepção, e também sou Sua esposa por causa da Sua santificação, Sua serva, Sua filha, pelo sangue e pela água com que Me compraste e Me batizaste. Como posso Te chamar de estranho para nós? Pois Tu és dos nossos”.
E na leitura do Evangelho de São Mateus de hoje, escrito para os hebreus, dirigindo-se ao seu próprio povo, convencendo-os de que o Cristo nasceu, o Cristo veio e, mesmo através de Sua morte, Sua crucificação, Ele ressuscitou dos mortos. Ele nos revela o caminho do paraíso, o caminho do serviço a Deus para o parentesco com Deus. E Ele aponta nesta genealogia, nesta longa genealogia, várias coisas que são muito importantes. Por que ouvimos todos esses nomes? Bem, nos tempos de Cristo e dos Apóstolos, a linhagem de um homem era muito importante, e a linhagem do Cristo tinha que estar completamente intacta, de Abraão a David.
Então, a genealogia é apresentada ao povo para que eles possam ver a documentação de que este homem tem a linhagem para ser o Messias. E, no entanto, ali encontramos nosso próprio drama humano de tentar ter fé, seguir a Deus, guardar Seus mandamentos, viver nossas vidas e talvez até mesmo enfrentar a morte sem saber se o que acreditamos é verdade ou se a promessa que Ele fez será cumprida. E Mateus inclui, de uma maneira inconcebível na época, mulheres na genealogia, algo que teria sido visto como altamente incomum.
Ele inclui pecadores de uma grande variedade. Ele menciona Judá e Tamar, Tamar que seduziu seu sogro. Nós a homenageamos no serviço de casamento. Falamos de Salomão e Raabe, Raabe que era uma prostituta e uma gentia, nem mesmo hebreia, que escolheu se tornar filha de Israel, que se juntou ao povo escolhido vinda de uma nação estrangeira. Mencionamos David e Bate-Seba. Louvamos Salomão, que é amado por Deus, mas é fruto de assassinato e adultério. Pare e contemple isso: a Igreja nos faz mencionar Salomão, filho de David com a esposa de outro homem. Bate-Seba, a esposa de Urias.
Será que essa fé não se aplica à nossa luta? Será que algo na experiência de ser um ser humano tentando viver em submissão à vontade de Deus mudou desde sempre? Temos os mesmos desafios. Vivemos no mesmo mundo caído. Mas Deus não Se importa com a queda. Ele ignora tudo o que, lógica e espiritualmente, deveria estar entre nós e Ele, e mesmo assim vem até nós. Porque a Santíssima Trindade quer ser conhecida.
A Santíssima Trindade quer ser encontrada através do Filho. A Santíssima Trindade quer que você venha encontrá-Lo. E neste momento do Natal, que época melhor, que época mais fácil para estarmos abertos à compreensão de Quem é Jesus Cristo? É muito, muito difícil entender o que significaria ser crucificado, entregar a própria vida. É ainda mais incompreensível para nós saber como seria ter em nosso próprio ser, por nossa própria natureza, o poder de vencer a morte e ressuscitar dos mortos. É inconcebível, vai contra nossa idolatria pela ciência e pela física, que um homem ascenda ao céu. Como isso funciona?
Mas um bebê deitado em uma manjedoura, todos nós podemos entender. Todos nós podemos entender como é para uma mãe grávida e seu responsável fugirem da perseguição. Você consegue imaginar estar em um burro tentando chegar a um país diferente para proteger seu filho ainda não nascido? Podemos imaginá-los viajando de volta através das dificuldades. Podemos imaginá-los em Belém tentando encontrar um lugar para ficar. Quantos de nós já chegamos a um lugar sem fazer reservas em um hotel? E acontece que algum grande evento está acontecendo e todos os hotéis estão lotados. Todos ocupados. Podemos imaginar essas coisas. Podemos imaginar um nascimento acontecendo em uma caverna. Conhecemos a vulnerabilidade que vem naturalmente com o parto e um bebê, uma criança recém-nascida. Cem por cento dependente daqueles que o amam e cuidam dele.
Deus está sempre disponível para nós. O poder da ascensão está sempre conosco. O poder da crucificação e da ressurreição está sempre disponível para nós. Mas às vezes é muito difícil ser receptivo e compreender esses mistérios complexos. Mas o Natal, o Natal penetra a dureza do nosso coração com sua natureza, vulnerabilidade e familiaridade. O Natal faz sentido para nós em um nível, naturalmente, que os outros feitos do Deus encarnado não fazem. Eles são mais desafiadores para nós. Mas Deus está sempre presente. Ele está sempre lá, à espera de ser recebido por você e por mim.
E eu acho que no Natal, estamos mais abertos a Ele, mais abertos a essa ideia, mais receptivos ao fato de que Ele veio para nos salvar. Nós! Você e eu. As Escrituras nos dizem que Deus sabe até o número de fios de cabelo em nossa cabeça. Ele sabe onde você mora. Ele sabe onde fica sua casa. Ele pode até saber o número do seu celular. Mas Ele não Se importa com essas coisas. Ele tem meios de comunicação muito melhores. Ele conhece sua vida. Ele sabe o que aconteceu com você esta semana. Ele sabe o esforço que você fez para estar aqui esta manhã. Ele sabe o que vai acontecer amanhã. Ele sabe a bênção que Ele reserva para você pessoalmente na celebração de Sua encarnação. Ele sabe quais presentes as pessoas lhe deram. Ele sabe o quão surpreso e amado você se sentirá ao receber esses presentes. Ele te conhece e te ama.
Aproveite a oportunidade agora, com a celebração do Natal deste ano, para abrir seus corações e suas mentes ao Deus Encarnado, para se tornar vulnerável a essa Criança Divina Que está esperando para ser encontrada por você. Muitas vezes, quando imaginamos Deus, Ele é tão intimidador, tão distante e tão grande. Como podemos nos conectar com Ele? Mas sejamos, nesta época, como os pastores e os magos. Busquemos a Ele. Adoremos a Ele. Amemos a Ele.
Apaixonemo-nos por Ele. Isto é, conheçamo-Lo, e Ele cresça em nossos corações, de um Bebê vulnerável ao Criador do cosmos, para que ainda O conheçamos pessoalmente e O recebamos, na medida do possível, por Sua graça, em nossa luta diária, em nossos corações e como nosso Salvador. Estamos quase lá. Preparem-se para celebrar, pois Cristo (quase!) nasceu.
Sacerdote Thaddaeus Hardenbrook
tradução de monja Rebeca (Pereira)








