Na experiência espiritual da Igreja Ortodoxa, esquecer as próprias boas obras não é descuido moral nem falsa modéstia. É um exercício contínuo de humildade e amor sincero a Deus. Os santos aprenderam, pela vida e pela luta interior, que lembrar-se constantemente do bem feito pode se tornar uma armadilha, capaz de alimentar o orgulho e enfraquecer a pureza do coração.
A Tradição Ortodoxa ensina que o verdadeiro bem nasce da graça divina agindo com a cooperação do homem. Quando a alma se apropria desse bem como mérito pessoal, mesmo sem perceber, começa a afastar-se do espírito do Evangelho. Por isso, o esquecimento das próprias boas obras é um ato consciente de entrega e confiança.
São Paulo faz a seguinte pergunta nas Escrituras: “Que tens tu que não tenhas recebido?” (1 Cor 4,7). O que é verdadeiramente bom não nasce apenas da vontade humana. O desejo do bem, a força para realizá-lo e o fruto que dele brota são dons de Deus. Quando uma boa ação surge, o coração vigilante responde em silêncio: “Foi o Senhor quem agiu em mim. Eu sou apenas um servo inútil”. Essa atitude não diminui a dignidade do homem, ao contrário, firma-o na verdade. O homem torna-se cooperador da graça, não seu dono.
Os Padres aconselham que toda boa ação seja entregue a Deus assim que acontece. Esse é um movimento interior da alma. Fazer o bem e, logo em seguida, dizer no coração: “Senhor, a Ti pertence a glória, não a mim”. Depois disso, é importante não permanecer preso ao ato realizado. A tradição hesicasta recomenda mudar o pensamento para outra coisa, como a repetição do Nome de Jesus. Esse deslocamento da atenção protege o coração da vanglória e preserva a simplicidade interior.
Os santos não se apoiavam na lembrança do bem que faziam. Eles mantinham viva a memória das próprias quedas, não para cair no desespero, mas para permanecerem humildes e dependentes da misericórdia divina. O arrependimento contínuo não é, portanto, tristeza estéril. Essa consciência das próprias fragilidades impede que a alma se exalte e ajuda a manter o coração quebrantado. Onde há arrependimento sincero, não há espaço para o orgulho espiritual.
Uma das lutas da vida espiritual é a tendência de revisitar mentalmente as boas ações realizadas. Esse hábito, aparentemente inofensivo, pode transformar-se em alimento para o ego espiritual. Quando essas lembranças surgirem, a resposta interior deve ser simples e firme: “Se fiz algo bom, foi Deus. Se sou algo, é só miséria”. Esse é o retorno à verdade diante de Deus.
A Tradição ensina que até os frutos bons podem tornar-se ocasião de queda. Por isso, muitos santos aconselham confessar não apenas os pecados evidentes, mas também o orgulho escondido que nasce após uma boa ação. Dizer em confissão: “Fiz algo bom, mas meu coração se encheu de orgulho” é um ato de grande maturidade espiritual. Essa transparência traz cura e vigilância. O pecado não está no bem feito, mas na apropriação interior desse bem.
Esquecer as próprias boas obras é um caminho estreito que liberta. Ele preserva a pureza da intenção, guarda o coração da vanglória e mantém a alma na presença de Deus. Na espiritualidade da Igreja Ortodoxa, o verdadeiro progresso espiritual não se mede pelo número de boas ações realizadas, mas pela profundidade da humildade, do arrependimento e do amor a Deus.
Quem aprende a desaparecer para que Cristo apareça descobre a verdadeira alegria. Uma alegria que não precisa ser lembrada, porque nasce da comunhão com o Senhor.
16.12.2025
+ Bispo Theodore El Ghandour







