A espiritualidade ortodoxa é acessível a todas as pessoas; responder à sua mensagem não está associado a grupos especiais de pessoas. Todos aqueles que foram batizados em Nome do Deus Santo e Triúno estão “obrigados” a cumprir os mandamentos de Cristo. Não há exceções no caminho rumo à teose, que é a “jornada” da imagem de Deus à Sua semelhança. O apóstolo Paulo diz claramente: “Pois todos os que fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes” (Gl 3, 27).
A essência e o objetivo da espiritualidade ortodoxa apresentados anteriormente estão delineados na Palavra de Cristo e nos ensinamentos dos Apóstolos. Foram citadas muitas passagens das Escrituras Sagradas que mostram que os primeiros cristãos viviam profundamente a vida espiritual, tendo alcançado a iluminação do nous e a oração incessante.
Em uma referência à virgindade e ao matrimônio, o apóstolo Paulo afirma: “O que é solteiro cuida das coisas que são do Senhor, como agradar ao Senhor; mas o que é casado cuida das coisas do mundo, como agradar à sua mulher” (1 Cor. 7, 32-33). Contudo, ao mesmo tempo, ele ressalta: “Mas isto vos digo, irmãos, o tempo é curto: resta que aqueles que têm mulheres sejam como se não as tivessem” (1 Cor. 7, 29). Assim, as pessoas casadas também viviam asceticamente e tinham experiências da vida espiritual.
Além disso, não se pode deixar de notar o fato de que todas as Epístolas do Apóstolo Paulo, enviadas às diversas Igrejas, foram dirigidas a cristãos casados e com famílias. E é nessas Epístolas que São Paulo fala da purificação do coração, da iluminação da alma, da aquisição da oração noética, da oração incessante do coração, da filiação pela graça e da vida no Espírito Santo. Essas epístolas revelam que os cristãos das primeiras Igrejas Apostólicas viviam como os monges vivem hoje nos santos monastérios.
Quando as perseguições cessaram, porém, e o Cristianismo se tornou a religião oficial do Estado, a secularização penetrou na Igreja e o modo ascético de viver desapareceu das cidades. Foi precisamente durante esse período que o monaquismo se desenvolveu como uma tentativa de preservar a essência da vida espiritual.
Por essa razão, os Santos Padres enfatizam que o monaquismo é a continuidade da era Apostólica e da vida da Igreja primeva; e que os monges são aqueles que vivem a vida do Evangelho, que experimentam o arrependimento até o seu grau máximo e que tentam observar os mandamentos de Cristo de forma inflexível.
Todo monge ortodoxo que vive dentro dessa atmosfera é um Apóstolo de Cristo, um Mártir e um Profeta. O monaquismo é vida apostólica, profética e martírica.
Para entender a essência da vida monástica, deve-se ler as bem-aventuranças de Cristo. O monge começa sua vida em profundo arrependimento, com lágrimas de lamento e a purificação do coração. No Evangelho e nas Epístolas do Apóstolo Paulo, todos os elementos que constituem a genuína tradição monástica, conforme proclamado pelos Padres, podem ser encontrados.
Esses mesmos elementos são enfatizados no Ofício de Tonsura Monástica. Nele, é afirmado que durante o período de noviciado o futuro monge passa pela fase de Catecúmeno, vivendo em profundo arrependimento e passando pela purificação do coração. Este é o “primeiro amor” do qual o Evangelista João fala no livro do Apocalipse. Quando o arrependimento é concluído, ocorre a tonsura monástica, que é chamada de “segundo batismo”.
A tonsura monástica é chamada de “mistério” [isto é, sacramento] porque o monge experimenta a energia purificadora e iluminadora de Deus. De acordo com São Simeão, o Novo Teólogo, o segundo batismo é o batismo do Espírito, ou seja, a iluminação do nous e a aquisição da oração noética. O seguinte é dito ao monge enquanto ele é tonsurado: “És purificado de seus pecados e te tornas filho da luz”. Assim, o monge experimenta a purificação do coração antes de sua tonsura e adquire a iluminação do nous enquanto é tonsurado.
A vida apostólica e o modo de vida dos primeiros cristãos, como descrito nas Epístolas Paulinas e no livro dos Atos, tornam-se visíveis.
O monaquismo é apostólico e evangélico; a mortificação do “homem velho” precede isso, e então o monge se torna um templo do Espírito Santo. As orações lidas pelo sacerdote expressam esse tema.
Os cristãos casados, em suas vidas pessoais, também são chamados a viver o Evangelho e os mandamentos de Cristo. Ninguém está isento dessa responsabilidade. Todos devem experimentar o arrependimento; superar o egoísmo; e adquirir amor por Deus e pelos outros.
É evidente que as circunstâncias da vida matrimonial são diferentes das do monastério, e, portanto, é necessário um certo ajuste. No entanto, o que o monastério é para o monge, a família é para o casado. A família é o lugar da prática ascética na vida matrimonial. É nela que a pessoa é chamada a cumprir a vontade de Deus.
“Ó Deus puro… abençoa este matrimônio, e concede a estes teus servos, N. e N., uma vida pacífica, longa duração de dias, castidade, amor mútuo no vínculo da paz, uma descendência duradoura, gratidão de sua posteridade, uma coroa de glória que não perece. Concede-lhes, com bondade, que possam ver os filhos de seus filhos. Preserva o leito deles sem mancha, e dá-lhes do orvalho do céu de cima, e da gordura da terra. Enche as casas deles com trigo, vinho e azeite, e com toda benesse, para que possam, por sua vez, distribuir aos necessitados; concedendo também àqueles que estão presentes com eles todas as petições que são para sua salvação.” (Rito do Santo Matrimônio).
A Igreja colocou todo o seu ensino sobre o matrimônio nas orações lidas durante a cerimônia matrimonial. Os esposos são abençoados para viver suas vidas no amor e na prudência, seguindo os mandamentos de Deus.
“Sê exaltado, ó Esposo, como Abraão; e sê abençoado, como Isaac; e multiplica-te como Jacó, caminhando em paz e guardando os mandamentos de Deus em justiça.”
“E tu, ó Esposa: sê exaltada como Sarah; e exulta como Rebeca; e multiplica-te como Raquel; e regozija-te em teu marido, agradando a Deus.” (Rito do Santo Matrimônio)
O fato de mulheres e homens que foram dignos de experimentar a visão divina no Antigo Testamento serem mencionados nas orações demonstra o caráter ascético e salvífico do matrimônio em Cristo. Os Santos Padres ensinam que a concepção, gestação e nascimento constituem as “túnicas de pele” de que Adão se revestiu após a Queda. No entanto, Deus abençoou, eventualmente, esse caminho. São Máximo escreve que o matrimônio, como o conhecemos hoje, é uma consequência da Queda.1
São João Crisóstomo ensina que todos os mandamentos do Evangelho —exceto, é claro, o do matrimônio— devem ser compartilhados por todos os homens: monges e casados 2.
São Basílio percebe que tanto os monges quanto os casados são chamados a cumprir os mandamentos de Cristo no Evangelho.
São Gregório Palamas, sobre o tema da pureza do coração, declara que os casados também podem lutar para alcançá-la 3.
A existência de muitos santos casados que possuíam a oração noética tanto no Antigo quanto no Novo Testamento revela que os casados têm a capacidade de experimentar a espiritualidade ortodoxa em todas as suas manifestações. A profetisa Ana guardava a oração noética em seu coração e orava incessantemente, mesmo no meio de grande dor.
Dentro do contexto da espiritualidade ortodoxa, portanto, os cristãos não são divididos em categorias de casados e solteiros, monges e leigos; contudo, são separados entre aqueles que possuem o Espírito Santo dentro de si e aqueles que não o possuem. É possível que todas as pessoas cumpram os mandamentos de Cristo e experimentem a espiritualidade ortodoxa sob a orientação de um pai espiritual. Não existem pessoas privilegiadas ou não privilegiadas dentro da tradição ortodoxa.
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1 Cf. São Máximo o Confessor, PG 90, p. 788.
2 Cf. São João Crisóstomo, PG 57, p. 81-82.
3 Cf. A Filocalia (em grego), ed. Astir, Atenas 1976, vol. 4, p. 92.
Metropolita Hierotheos (Vlachos) de Nafpaktos
tradução do Sub-Diácono Gregório (Siqueira)







