Pela fé, habitou na terra da promessa, como em terra alheia, morando em cabanas com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa. Porque esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus. E que mais direi? Faltar-me-ia o tempo contando de Gideão, e de Baraque, e de Sansão, e de Jefté, e de Davi, e de Samuel, e dos profetas, os quais, pela fé, venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram promessas, fecharam as bocas dos leões, apagaram a força do fogo, escaparam do fio da espada, da fraqueza tiraram forças, na batalha se esforçaram, puseram em fugida os exércitos dos estranhos. As mulheres receberam, pela ressurreição, os seus mortos; uns foram torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição; e outros experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos a fio de espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados (homens dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra. E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa, provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados. Hb. 11: 9-10, 32-40 – Epístola para o Domingo Anterior ao Natal
O Domingo Anterior ao Natal é dedicado à memória dos antepassados de Cristo. Antes de celebrarmos esta grande festa, a Igreja nos convida a olhar para o passado, para o que aconteceu antes de Cristo. Há duas razões para isso. A primeira é para entendermos historicamente de onde viemos. O Evangelho, que estudaremos amanhã, lista as gerações desde Abraão até Cristo, para que possamos ver a Sua descendência de Abraão, o que nos liga, como cristãos, à aliança que Deus fez com Abraão. E a segunda razão é porque, antes de Cristo, as pessoas viviam numa época de expectativa. Os profetas predisseram o que estava por vir, e o mundo “vivia na expectativa” da vinda de Cristo.
A verdade é que a maior parte do mundo não vivia na expectativa da vinda de Cristo, pois quando Ele veio, até mesmo os líderes judeus mais versados nas Escrituras não O reconheceram ou não conseguiram aceitá-Lo como o Cristo. Vivemos também em uma “era de expectativa”. Cristo veio através da Encarnação. Ele deu ao mundo uma chance de redenção por meio da Cruz e da Ressurreição. Ele prometeu retornar em glória. E agora aguardamos o cumprimento dessa promessa, assim como aqueles que vieram antes de Cristo aguardaram o cumprimento de Sua primeira vinda. E, assim como naquela época, a maior parte do mundo (ou pelo menos parece ser assim) NÃO vive na expectativa da vinda de Cristo, mas sim na ignorância d´Ele. Cristo nos disse que a Segunda Vinda será diferente da primeira — será um evento grandioso e cósmico, em vez de um evento humilde e silencioso como o Natal. No entanto, às vezes me pergunto se estamos tão ocupados que apenas alguns, como os pastores e os magos, estarão prontos para o Seu retorno.
Embora não possamos controlar como o mundo se sente ou se prepara, certamente podemos controlar o nosso nível de fé. E a fé é o tema central da Epístola. Ela fala sobre a fé das pessoas que vieram antes de Cristo, “que pela fé conquistaram reinos, praticaram a justiça, alcançaram promessas, fecharam a boca de leões, apagaram fogo violento, escaparam ao fio da espada, da fraqueza tiraram forças, tornaram-se poderosos na guerra, puseram em fuga inimigos estrangeiros” (Hebreus 11:33-34) e uma longa lista de outras coisas que suportaram. Sim, Deus chamou algumas pessoas para tarefas bastante difíceis. Ele disse a Abraão para se levantar e partir, para uma terra estrangeira. Ele disse a Abraão para sacrificar seu único filho, Isaac, e Abraão o teria feito. Deus pediu a Moisés que liderasse o povo de Israel para fora do Egito e para a Terra Prometida, algo que levou quarenta anos para Moisés realizar. E então Ele pediu a Josué que liderasse os israelitas para a terra de Canaã, um lugar já ocupado por tribos com exércitos consideráveis. David lutou contra Golias. Daniel passou uma noite na cova dos leões. Sim, essas pessoas que abriram caminho para Cristo eram certamente pessoas de fé.
Sempre que ouço esta Epístola, lembro-me de uma história que uma amiga me contou. No domingo em que ela a leu, teve que trocar a fralda do filho durante a Liturgia e, enquanto estava no banheiro, ouviu um grupo de adolescentes reclamando que estava muito quente na igreja e que talvez devessem ficar no corredor. Como ela me contou, teve vontade de dizer a elas: “Vocês não ouviram a Epístola sobre pessoas conquistando reinos, sendo torturadas e mortas pela espada, e vocês não conseguem suportar isso numa igreja que talvez esteja alguns graus mais quente?”. Penso nessa história porque nós, como sociedade, nos tornamos frágeis em questões de fé. Não somos chamados a ser serrados ao meio, nem a vagar por desertos e montanhas, em cavernas e grutas da terra. Então, por que parece tão difícil não amaldiçoar, trapacear, roubar ou distorcer os fatos? As pessoas sobre as quais lemos na lição da Epístola realizaram atos de fé extraordinários. É triste que não consigamos fazer nem mesmo as mais simples.
Outra lição que podemos extrair da Epístola é que Deus previu e prevê “algo melhor para nós” (Hebreus 11:40), de modo que aqueles que vieram antes de Cristo, e nós que vivemos para Ele hoje, podemos esperar não apenas as bênçãos de Deus como as conhecemos nesta vida, mas bênçãos ainda maiores na vida futura. O desafio para nós, em nossa jornada rumo à salvação, é sermos “bem confirmados na fé” (11:39), para que estejamos prontos para receber o que Deus nos prometeu.
Enquanto carregava em Seu ventre O que concebera sem semente, Maria foi a Belém com o ancião José a inscrever-Se, pois eram da casa e linhagem de David. Chegou o tempo de Ela dar à luz o Seu Filho; porém, não havia lugar para eles na hospedaria. Por isso, a gruta serviu de luxuoso palácio real para a rainha. E Cristo, o Senhor, nasceu para restaurar a imagem outrora decaída. (Apolytikion do Domingo Anterior ao Natal)
Sejamos fiéis a Deus em todos os desafios que surgirem em nosso caminho!
Sacerdote Stavros Akrotirianakis
tradução de monja Rebeca (Pereira)








