A Quaresma é um tempo de trabalho espiritual especial. Mas quantas vezes, começando com boas intenções, cometemos erros que comprometem nossos esforços? Vejamos os mais comuns para que possamos trilhar o caminho com benefício para a alma.
O principal erro é não compreender o propósito da Quaresma. O jejum é um meio, uma oportunidade para aprender o autocontrole. Ele tem dois componentes: físico (restrição alimentar) e espiritual (abstinência de mente, palavras e ações). São Tikhon de Zadonsk adverte: “Muitos jejuam com o corpo, mas não jejuam com a alma… Que benefício isso lhes traz?” Jejuar sem trabalho espiritual torna-se uma dieta.
O outro extremo é o excesso de alimentos da Quaresma e de doces. Os alimentos da Quaresma são digeridos rapidamente, e o consumo excessivo de carboidratos de rápida absorção pode provocar picos de açúcar no sangue, fome e irritabilidade. É importante equilibrar a dieta, priorizando carboidratos de digestão lenta (grãos, vegetais) para manter a força e a paz de espírito.
Novatos, e às vezes até mesmo os mais experientes, muitas vezes se submetem a um jejum insuportável. Santo Inácio (Brianchaninov) ensina: “Por mais prejudicial que seja a intemperança, o jejum imoderado é igualmente prejudicial, ou até mais. A fraqueza do corpo impede a oração com a intensidade necessária.”
São Serafim de Sarov nos lembra que o jejum rigoroso deve ser praticado gradualmente, caso contrário, o esgotamento é inevitável. São Teófano, o Recluso, aconselha: “É melhor não se prender a um decreto imutável, mas sim alternar entre um caminho e outro, sem indulgências e autopiedade, mas também sem a crueldade que leva à exaustão.” A duração do jejum é determinada com o Pai Espiritual.
A mentalidade de “criar suas próprias regras” também é perigosa. Inventar suas próprias regras pode prejudicar sua alma e seu corpo. Sempre vale a pena comparar sua experiência com a Tradição da Igreja e consultar um pai espiritual.
Frequentemente, por não verem frutos espirituais imediatos, as pessoas abandonam o jejum. Mas o jejum sem oração é inútil. São Nikon de Optina escreveu: “O jejum, se não acompanhado de oração e cuidado espiritual, é quase inútil”. A oração é a guardiã da castidade e um remédio para a irritabilidade. A oração fervorosa, a confissão e a comunhão ajudam a suportar a privação física.
Muitas pessoas se sentem desconfortáveis com a situação ao visitar outras pessoas. O apóstolo Paulo instrui: “Comam tudo o que for oferecido a vocês, sem questionar, para que tenham paz de consciência” (1 Coríntios 10:27). Mas essas palavras se referem a alimentos oferecidos a ídolos e a visitas a pagãos para fins de pregação. Se formos a uma festa para confraternizar e os anfitriões desconhecerem o jejum, podemos participar do que for oferecido por amor e compensar a falta intensificando nosso jejum espiritual. Santo Antônio de Optina aconselha: “Comam tudo o que for oferecido para a glória de Deus, sem questionar. Mas, em vez disso, guardem seus lábios de conversas ociosas e julgamentos. Isso será maior do que o seu jejum.”
Por fim, o fim inadequado do jejum (quebrar o jejum) pode desfazer todos os nossos esforços. A intemperança em uma refeição festiva leva à relaxação espiritual e ao retorno das paixões.
A Quaresma é um tempo em que aprendemos a controlar nossos desejos, aproximando-nos de Deus. Estejamos atentos a nós mesmos para que jejuemos com inteligência, amor e alegria, lembrando que “o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Romanos 14:17).
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tradução de monja Rebeca (Pereira)








