ENTREVISTA COM O SUB-DIÁCONO GREGÓRIO SIQUEIRA – PARTE 2

4) Como se dá o processo de formação de um catecúmeno (desde o momento de buscador até ver-se já inserido na Barca de Cristo). Existem exigências, períodos fixos, regras, condições?

Tudo começa com uma visita à igreja mais próxima. Não existe Ortodoxia fora da comunhão sacramental da Igreja, o que não significa que exista um impedimento absoluto às pessoas que moram longe de uma comunidade. Frequentemente converso com interessados pelas redes sociais do Vicariato e indico qual é a igreja canônica mais próxima. A assiduidade depende da situação de cada um. Há quem possa frequentar semanalmente, há quem vá à igreja algumas vezes por ano.

Concretamente, o nosso Vicariato tem jurisdição somente sobre o estado do Rio de Janeiro, o restante do Brasil estando sob a Arquidiocese Antioquina de São Paulo (em termos de Igreja Antioquina; há, é claro, as outras jurisdições). A maior parte dos nossos fiéis e dos interessados está na região metropolitana do Rio de Janeiro. Deixamos claro que a frequência na Catedral ou em uma das paróquias (sempre na medida do possível) é essencial para a integração à vida da Igreja.

Uma vez que a pessoa visite a igreja durante algumas semanas, iniciando um contato conosco, nós a integramos ao processo catecumenal. Em 2025, nossa turma de catecumenato começou em março e vai se encerrar no meio de dezembro. Aceitamos novos catecúmenos até meados de julho, que tiveram de assistir às gravações das aulas anteriores antes de começar a participar dos encontros semanais. Apesar da duração de mais ou menos 10 meses do curso, a recepção na Igreja não depende exclusivamente do andamento das aulas. Há quem tenha sido recebido um pouco antes do fim das aulas e há quem ainda vá esperar um pouco até o batismo. Aqui o discernimento do catecúmeno e do pai espiritual prevalece.

Esperamos que a parte “teórica” da catequese (que, além das aulas, inclui uma lista de leitura) forneça o conteúdo da vida espiritual do catecúmeno, sabendo que as duas coisas não se confundem. Enquanto o catecúmeno aprende “sobre” a fé, ele deve começar a viver diretamente a fé, principalmente na aquisição do hábito da oração diária (preparamos um livro de orações para os catecúmenos) e do jejum. Os encontros regulares com o bispo, diretor espiritual do grupo, são o momento de buscar orientação prática em relação ao despojamento das paixões.

Quanto às condições, sabemos que cada pessoa é um universo próprio, com contextos a serem avaliados individualmente. O mais importante é o zelo e a vontade de converter o coração, de se deixar curar pela terapia da Igreja. Possíveis impedimentos (como, por exemplo, relacionamentos fora da Igreja) são discernidos caso a caso. Mas a Igreja, como o próprio Deus, “deseja a salvação de todos” (Cf. 1 Timóteo 2:4). Buscamos criar um ambiente receptivo e amoroso para todos os que chegam.


5) Acredito que todo tipo de pessoas acorre à Ortodoxia hoje. Qual o ponto mais difícil no debate com buscadores que anteriormente viviam no seio da uma comunidade católico-romana ou protestante? Aprofunde o tema, por favor.

Sinceramente, a nossa experiência com convertidos e catecúmenos não tem envolvido muitos debates. Frequentemente eles ficam perplexos com como a Ortodoxia difere das suas comunidades anteriores. Ensinamos e enfatizamos que a Ortodoxia não se distingue somente nos dogmas (o que já é bastante coisa), superficialmente, mas que há diferenças profundas na mentalidade. Diante disso, a disposição deles é a de discípulos, graças a Deus. Mesmo não entendendo algum ponto imediatamente, eles mesmos buscam se conformar ao ensinamento da Igreja, com grande proatividade em ler estudar as nossas recomendações.

Vejo isso positivamente. As pessoas que têm chegado à Igreja estão cansadas, em vários sentidos. Acima de tudo, a mentalidade secular nos esvazia existencialmente. Aqueles que vêm à Igreja geralmente já se esgotaram previamente, seja em suas comunidades cristãs ou em outras “saídas” filosófico-religiosas. Cristo é quem diz “Vinde a mim, vós que estais cansados”. Quando eles vêm, há uma abertura sincera para reencontrar o sentido da vida na comunhão com Deus. Assim, mais do que discutir conceitos, eles desejam aprender a viver a fé: querem rezar, querem participar dos mistérios, querem ser curados. É justamente dentro desse movimento de humildade e sede espiritual que os engajamos na formação catecumenal, não como instrução intelectual, mas como um processo de conversão e de purificação de toda a pessoa.


6) Pelo fato de tanto a realidade política como a história do Brasil diferir bastante da realidade de países “organicamente” ortodoxos (tais como Russia, Sérvia, Síria, Grécia) nos deparamos com concepções fora do padrão da própria vivência da fé junto a jovens (maioria rapazes) brasileiros. Como ajudar e aconselhar estas pessoas em seu caminho espiritual de encontro com Deus?

Não sei se posso dar uma resposta definitiva, mas posso apontar algumas impressões. O acompanhamento desses jovens requer de nós principalmente paciência, humildade e purificação pessoal.

Todos nós tivemos de aprender, e jamais deixamos de nos sentar aos pés dos Santos Padres para continuar a aprender. Não podemos tratar nada como óbvio ou evidente. As pessoas vêm de contextos religiosos e familiares os mais diversos, e por isso não podemos apressar o processo de arrependimento (como metanoia, não remorso, mas conversão da mente e do coração). Uma escuta ativa, empática e atenta é a diferença entre um buscador ler na internet que a Igreja Ortodoxa ensina isto ou aquilo sobre tal assunto, e ouvir de um ortodoxo (clérigo ou leigo) como ele ou ela encontrou na Igreja as respostas para as suas angústias pessoais, e como o dogma não é uma resposta abstrata a um problema teológico. O dogma pode e deve ser conectado a cada um dos nossos impasses existenciais.

(Numa tangente pessoal, acredito que ser professor me predispõe a um tipo de paciência com certas interações. Não é só o hábito de preparar aulas e tentar comunicar pedagogicamente um conceito, mas a própria insistência em tentar identificar onde está a lacuna, seja conceitual ou afetiva, que impede o próximo passo. No fundo, eu gosto de conversar longamente com os catecúmenos até quando se trata daquelas dúvidas “bobas” ou perguntas descabidas.)

Como convertido, embora eu tenha perspectivas em comum com aqueles que estão se convertendo agora e possa, de certo modo, mais facilmente identificar e tratar de situações comuns ao “convertido” como segmento demográfico, há uma certa “desvantagem” em não ter crescido alimentado pelo ethos da Igreja. É evidente que há hábitos mentais dos quais só nos livramos muitos anos depois de já termos aceitado intelectualmente tudo o que a Igreja ensina. Daí a humildade e o cuidado de não ensinar nada que não tenhamos aprendido dos nossos pais na fé, nosso bispo, nossos padres, e os Santos Padres da Igreja.

Mas o mais importante é o arrependimento pessoal. O “argumento” decisivo a favor da Ortodoxia é o santo. Se fôssemos santos, se tivéssemos adquirido o Espírito Santo, milhares teriam sido salvos, como diz o ditado. Os jovens que se convertem, mais do que o convencimento intelectual, precisam de uma demonstração de que a completude da Ortodoxia é possível no Brasil. Nós não podemos nos contentar com uma Ortodoxia menor, diluída, por não estarmos na Grécia ou na Rússia. E essa plenitude da Ortodoxia é o ser humano deificado. O único testemunho crível da fé é a santidade, e é esse testemunho, essa promessa da possibilidade real de comunhão com Deus, que efetua a “virada de chave” para os jovens.


7) Conte-nos, por favor, sobre sua estadia no Monastério Athonita de Santo Antônio no Arizona.

Foi uma visita, com a esperança, se Deus quiser, de uma estadia mais longa no futuro. O contexto dessa visita foram os dias que o Sayidna Theodore e eu passamos nos Estados Unidos entre agosto e setembro desse ano. Ele foi convidado a conhecer a Arquidiocese Antioquina dos Estados Unidos e a levar pessoalmente os cumprimentos ao Metropolita Saba pela sua eleição, enquanto eu tinha de comparecer à residência anual da Antiochian House of Studies (o seminário antioquino em língua inglesa, onde curso o Master of Divinity).Unimos as duas viagens, e acompanhei o Sayidna como assistente.

Ainda na Pensilvânia, onde fica a Antiochian Village, visitamos o Mosteiro da Natividade da Theotokos, uma comunidade de monjas e primeiro mosteiro fundado pelo Ancião Efrém nos Estados Unidos. Lá conheci a história da Gerontissa Taxiarchia, primeira abadessa do mosteiro, e filha espiritual da Gerontissa Macrina (a quem já conhecia como filha espiritual de São José o Hesicasta e do Ancião Efrém). As monjas nos contaram histórias da Gerontissa Taxiarchia e da Anciã Macrina, da fundação do mosteiro e do próprio Ancião Efrém. Foi nosso primeiro contato pessoal com essa grande família espiritual: São José o Hesicasta; seu filho na fé, o Ancião Efrém; a venerável Anciã Macrina; e tantos monges e monjas que hoje preservam e divulgam a ciência patrística da vigilância e da oração do coração. Esse é o significado real de Tradição como traditio, como transmissão de uma geração para a seguinte dos tesouros espirituais da Igreja.

Ao fim da residência na Antiochian Village, visitamos a paróquia de São Jorge, em Phoenix (Arizona), onde fomos recebidos pelo pároco, Abouna Chris Salamy, a quem somos muito gratos pela hospitalidade. O Padre Chris, juntamente com o Diácono Greg e o Padre Peter, todos da paróquia de São Jorge, nos levou para conhecer o Mosteiro de Santo Antônio. Os monges e um grupo de fiéis nos receberam. Quando o Sayidna Theodore chegou, a irmandade nos conduziu para a capela onde o Ancião Efrém está enterrado, e nosso bispo rezou um Trisagion pela alma do Ancião. Estar naquela capela, na presença espiritual do Ancião, foi um momento particularmente especial para mim.

O abade do mosteiro, Arquimandrita Paisios, nos acompanhou pelas capelas, igrejas e outras dependências do mosteiro. Pudemos almoçar juntos, e o Geronda conversou longamente com Dom Theodore. Foi uma bênção inexprimível receber seus conselhos espirituais e práticos (como sabem, temos um projeto de mosteiro no Rio de Janeiro, não sem contratempos constantes pelo caminho). Recebemos sua bênção e, como um presente valiosíssimo, alguns lenços que pertenceram ao Ancião Efrém. Como ele ainda não foi exumado, não há relíquias do seu corpo. No entanto, já existe uma expectativa concreta de sua canonização, mencionada publicamente pelo Arcebispo Grego da América do Norte e confirmada pelo Geronda Paisios.


O Sub-Diácono Gregório Siqueira serve na Catedral Ortodoxa Antioquina de São Nicolau no Rio de Janeiro, sob o omofórion do Bispo Theodore (El-Ghandour)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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