1) Como você conheceu a Ortodoxia? Conte-nos sua jornada.
Nasci em um lar evangélico que, não sendo fundamentalista ou radicalmente evangélico, inculcou em mim e no meu irmão uma consciência bastante concreta da realidade de Deus. Mesmo quando, na adolescência, deixei de frequentar a igreja dos meus pais, conservava a intuição de que, de alguma forma, Deus continuava “lá”, em algum lugar, embora eu O tivesse “guardado em uma gaveta”, por assim dizer. Nunca fui, portanto, propriamente ateu, mas me contentei com estar “aqui” e Deus “lá” até o meu primeiro ano na universidade, em 2019, quando comecei a buscar um retorno à fé cristã.
Jamais cheguei a considerar qualquer forma de protestantismo, ainda que tivesse vivência tanto em meios evangélicos como reformados. Quando um brasileiro deseja se aproximar da tradição apostólica da fé cristã, a escolha óbvia e imediata é a Igreja Romana. Curiosamente, foi lendo o pós-católico James Joyce que pela primeira vez entrei em contato com o Catolicismo “de verdade” (em oposição à caricatura evangélica). Em um passo d’O retrato do artista quando jovem, o protagonista (que eventualmente deixa o “absurdo lógico e coerente” do Catolicismo) discute a “transubstanciação”. Aos 15 anos, ainda na escola, aquela era uma palavra nova, e me abriu um novo horizonte conceitual a ser explorado nos anos seguintes.
Não preciso insistir sobre as razões pelas quais o Catolicismo Romano é insuficiente, mas posso apontar que à época a minha abordagem era intelectual e fria, como incentivado pelos espaços de apologética. Tratava-se mais de encontrar a bala de prata para cada um dos pontos de controvérsia entre romanos e protestantes do que da conversão do coração. Li muito (o que não foi perda de tempo devido à bagagem acumulada), frequentei os ambientes tradicionais de missa em latim, mas nunca me tornei católico romano — graças a Deus!
Não me lembro da primeira vez que ouvi falar da Igreja Ortodoxa. Tanto na escola como nos livros que lia, o “cisma do Oriente” era uma nota de rodapé. Mas àquela altura eu passava pela angústia comum a muitos dos convertidos que têm chegado à Igreja hoje: uma insatisfação geral com todas as apresentações disponíveis da fé cristã, enquanto a distante “luz do oriente” permanece quase que subliminarmente na nossa consciência, à espera da nossa resposta, como a minha própria ciência de Deus. Quando “desisti” do Catolicismo Romano, decidi abordar a Ortodoxia de modo diferente, nos seus próprios termos, sem tentar ler e aprender tudo o que pudesse antes de sequer visitar uma igreja no mundo real.
A primeira igreja que visitei foi a Catedral de São Nicolau, onde estou até hoje. Fui recebido por Sua Eminência Sayidna Theodore, que me batizou em 2021, e a quem devo toda a minha jornada na Igreja. Há algo um pouco indizível, ou pelo menos difícil de comunicar, sobre a sensação de chegada à Igreja. Não se tratava mais da resposta correta no debate apologético, e sim do método terapêutico que a Igreja oferece como cura para a patologia humana: as paixões, o obscurecimento do nous, o esquecimento de Deus. Ainda que à época da minha conversão eu fosse mais afeito à teologia ortodoxa moderna (Ware, Schmemann, Lossky etc.), o que certamente contribuiu para a minha formação, o passo seguinte no aprofundamento foi descobrir a tradição mística dos Santos Padres, não na sua apresentação histórica e acadêmica, mas como uma tradição que ainda existe nos anciãos contemporâneos, que preservam o ethos filocálico dos Padres Népticos e hesicastas, aos pés de quem devemos nos sentar se quisermos conhecer a Ortodoxia não como filosofia ou código ético-moralista, mas como o mistério da união divino-humana.
2) O quê representa um Sub-Diácono? Qual sua função e serviço na Igreja? Fale-nos também de suas obediências pessoais na Catedral.
O subdiaconato é uma ordem menor da Igreja, a última antes da primeira ordem maior, o diaconato. Historicamente, os subdiáconos (frequentemente mencionados junto aos acólitos, leitores, porteiros, exorcistas etc.) auxiliavam o clero maior com a diakonia em funções litúrgicas e práticas na comunidade. A identidade litúrgica do subdiácono aparece mais claramente nas liturgias hierárquicas, em que ele auxilia a paramentação do bispo, maneja o trikiri e dikiri, providencia a água e a toalha para o lavabo episcopal etc. Nas liturgias presididas por um presbítero, o subdiácono geralmente organiza o serviço do altar, principalmente quando há um número expressivo de acólitos ou leitores. Por isso brinco dizendo que sou um “arqui-acólito”, ou “proto-coroinha”!
Além das funções litúrgicas, os subdiáconos costumam estar à disposição para — francamente — facilitar a vida do clero maior onde quer que necessário, e por isso se encontram em vários serviços práticos da comunidade local. Eu cuido das redes sociais do Vicariato, ajudo com a revisão e tradução de ofícios litúrgicos (junto a outros colaboradores, clérigos e leigos) e, principalmente, integro a nossa equipe de catequese.
3) Talvez a Catedral Antioquina do Rio de Janeiro disponha do maior numero de catequistas no RJ. Conte-nos sobre a Catequese em geral.
Quando eu cheguei à Catedral, não havia um catecumenato organizado. Os convertidos eram orientados individualmente pelo clero, com sugestões de leitura e regras de oração. Eu mesmo fui acompanhado pelo Padre Spiridon Chasse, então ainda diácono. O crescimento do número de interessados nos forçou a começar a pensar em formas de organizar a preparação e recepção dos convertidos.
Sempre houve uma preferência por encontros online, já que recebemos pessoas de todo o estado e com frequência é inviável esperar que todas venham durante a semana para um encontro na Catedral. Além disso, infelizmente os arredores da Catedral durante a semana (cheios de bares e boates) tornam o acesso difícil. Assim, por volta de 2022 houve uma primeira experiência de catequese online com o Padre Nektários Bichara. Acredito que esses encontros tenham sido abertos a pessoas de todo o país, e por isso houve questões com “curiosos” sem interesse em se converter, e até com pessoas querendo debater a Ortodoxia, o que não teria cabimento algum naquele ambiente. Vimos como é importante peneirar corretamente os participantes das turmas.
O formato atual da catequese começou no ano passado. De modo geral, eu cuido das aulas semanais, em que tratamos da doutrina da Igreja, e o Dom Theodore faz o acompanhamento espiritual dos catecúmenos. Os catecúmenos tiram as dúvidas cotidianas comigo, sem precisar tomar tempo do clero com certas questões, ao mesmo tempo em que precisam se encontrar regularmente com o bispo para tratar da orientação pastoral.
Costumo dizer que a catequese é sobre formação, e não informação. O catecumenato é o período de purificação antes da iluminação. O catecúmeno precisa ser progressivamente iniciado no modo de vida ortodoxo. Alguns catecúmenos chegam com uma bagagem de leitura razoável, mas é preciso aprender a rezar, a jejuar, a se portar como um ortodoxo. Daí a importância da convivência. Há coisas que só se comunicam experiencialmente e ao longo do tempo.
Fico feliz em observar que, pela maior parte, atingimos o nosso objetivo de integrar esses catecúmenos à vida da Igreja. Tanto no fim do ano passado como agora, conforme os batismos se aproximam, é possível perceber mudanças concretas em suas vidas. Não é que a perfeição seja esperada, ou uma condição para o batismo, mas o “primeiro passo” deve ser dado durante esse tempo catecumenal. É o que temos visto. Eu insisto com eles que o batismo não é a linha de chegada, e sim o ponto de partida para o resto das suas vidas como cristãos.
Da turma do ano passado, recebemos cerca de 12 catecúmenos. A turma de 2025 dobrou. Considerando apenas aqueles que não desistiram no meio do caminho, entre dezembro e janeiro realizaremos os batismos e crismas de por volta de 25 catecúmenos. Tivemos desistências, assim como pessoas que completaram o curso e continuam frequentando, mas pediram para adiar o batismo. Considero isso um sinal positivo. A recepção na Igreja não pode ser leviana. Um catecumenato apressado (ou inexistente) pode gerar apóstatas.
Uma novidade é que estamos dando início a um curso de introdução para buscadores e interessados no catecumenato. Nós temos lidado com o “problema” de pessoas interessadas chegando à igreja no meio do ano, com a turma de catequese já avançada. Esse curso (com aulas mensais) busca em primeiro lugar engajar esses buscadores antes do início da próxima turma de catequese (cerca de 12, até agora). Há também a necessidade de oferecer uma visão panorâmica da Igreja antes do início oficial da catequese (que acontece com a oração de Instituição ou Bênção dos Catecúmenos). Assim, garantimos uma introdução à Igreja antes que o interessado firme um compromisso com o catecumenato. As inscrições para esse curso (que terá 4 aulas entre dezembro de 2025 e março de 2026) estão abertas.








