1) Como se deu seu contato e vivência na Ortodoxia? O senhor nasceu no Brasil, converteu-se por aqui ou é descendente de ucranianos ortodoxos? Conte-nos um pouco deste início.
Nasci em Ivaí, pequena cidade no interior do Paraná com aproximadamente 14 mil habitantes. Minha mãe é descendente de ucranianos, enquanto meu pai é filho de poloneses.
Minha infância teve uma forte relação com a vida da Igreja, visto que meus familiares estavam sempre envolvidos com a comunidade seja na parte administrativa quanto à participação nos eventos da Capela Católica Romana que ficava ao lado da nossa residência.
Em janeiro de 1980, aos 13 anos de idade, ingressei no Seminário São José na cidade de Prudentópolis – PR. Um internato católico com mais de 100 seminaristas onde cursei o Primeiro Grau. Na sequencia ingressei no Noviciado da Ordem Basiliana na cidade de Ivai-PR onde permaneci por 2 anos. Em seguida cursei o Segundo Grau no mesmo seminário São José onde iniciei minha caminhada.
Após a conclusão do Ensino Fundamental, cursei Filosofia e Teologia na Faculdade São Basilio em Curitiba – PR e fui ordenado sacerdote em julho de 1996.
Em fevereiro de 1997 assumi como Vigário Paroquial a Comunidade Nossa Senhora da Glória em São Paulo onde permaneci por 8 anos. Durante este período Cursei História e conclui Mestrado em Filosofia pela PUC/SP.
Tinha conhecimento e contato com a comunidade Ortodoxa desde os tempos de seminarista. Inclusive participei da Celebração de Sagração Episcopal do nosso atual Bispo, Dom Jeremias (Ferens).
Em 2005 tomei a decisão de pedir o desligamento da Igreja Católica Romana e fui recebido e ordenado na Igreja Ortodoxa Ucraniana.
Fui muito feliz e sou grato por toda trajetória que tive dentro da igreja romana. A decisão de continuar exercendo o Ministério na ortodoxia foi objeto de muita reflexão e conversas com Deus. Constituí família, e hoje, juntamente com minha esposa e três filhos continuo desempenhando a nobre missão que Deus me confiou frente a família maior que são as duas comunidades na cidade de São Caetano do Sul – SP.
2) Com que frequência hoje a Colônia Ucraniana frequenta a Igreja e participa de sua vida espiritual e litúrgica? Vemos que a Diocese está mais concentrada no sul do país, com certeza em função do estabelecimento dos primeiros imigrantes.
A comunidade ortodoxa ucraniana em São Paulo é relativamente pequena. A grande maioria se estabeleceu aqui após o término da II Guerra, mas na década de 70 aconteceu um expressivo êxodo destes imigrantes que foram para o Canada e EUA.
Atualmente existem três paróquias em São Paulo. Duas em São Caetano do Sul e uma em Osasco. A Divina Liturgia é celebrada aos Domingos às 10 horas, com revezamento entre as comunidades.
A maioria dos membros é descendente de ucranianos, mas nestes últimos anos pessoas fora do círculo da imigração se aproximaram e têm participado ativamente na vida paroquial.
3) Como se deu seu chamado ao sacerdócio?
Minha família sempre foi presente em todas as atividades da igreja e eu os acompanhava. Desde criança sentia vontade de estar no lugar do padre que celebrava as missas.
Por volta dos 7 anos lembro que misturava farinha de trigo com água e colocava para assar numa forminha para poder encenar a Liturgia. Do alto de uma pedra, como se fosse o púlpito, no meio do pasto, fazia “homilias” para uma assembleia imaginária.
Foi na época da catequese que esta vontade de seguir o caminho religioso se acentuou. Aos 13 anos manifestei a vontade aos meus pais e eles providenciaram o encaminhamento ao Seminário Menor. Uma caminhada que durou 16 anos somando toda época de formação e que culminou com a Ordenação Sacerdotal em 1996.
4) E sua paróquia? Onde se encontra, quem frequenta, como e com que frequência são celebrados os Serviços Divinos, existe algum coro, trabalho caritativo ou semelhante?
Atendo duas comunidades na cidade de São Caetano do Sul – SP. São comunidades pequenas. Em média 30 famílias. A Liturgia é celebrada aos Domingos. A ação pastoral se resume no atendimento básico e assistência religiosa aos paroquianos sem ações paralelas. Ambas contavam com coral muito bem estruturado, mas atualmente não existe mais por conta da falta de membros. Fazem parte das comunidades os descendentes de ucranianos e atualmente algumas pessoas advindas de outras comunidades e que foram recebidas na Ortodoxia.
5) Como o senhor concebe a aproximação de buscadores sedentos pela Ortodoxia à sua paróquia? Existe algum trabalho catequético ou coisa do tipo?
Procuro com muita generosidade e humildade acolher todos que se aproximam e de imediato desconstruir concepções equivocadas sobre a Ortodoxia, geralmente pinçadas de publicações rasas nas redes sociais.
Tenho acompanhado todos os que se colocam a disposição e manifestam a vontade de se aprofundar na vivência da fé ortodoxa.
Costumo dizer que também estou nesse caminho e continuo com humildade buscando o conhecimento e inserção autêntica na Ortodoxia e os convido para caminharmos junto.
Atualmente contamos com um Diácono e um Subdiácono que se aproximaram desta forma e hoje estão confiantes na missão. Temos também leigos piedosos que foram recebidos e continuam interessados em aprender cada vez mais a ser Igreja!
6) Na sua opinião, o brasileiro que se aproxima e aquele que ainda é jovem na fé reage bem aos jejuns indicados pelo calendário ortodoxo litúrgico? Aprofunde o tema, por favor
Pela experiencia que tive com todos que se aproximaram, a questão do jejum foi bem assimilada. Nesse quesito não percebi nada que fugisse ao real entendimento da função espiritual e litúrgica do jejum.
7) Ousamos pedir alguns conselhos e sugestões aqueles que estão se aproximando da Ortodoxia no Brasil
Paciência, resiliência e equilíbrio! São as palavras que mais uso.
É comum ouvir de pessoas que se apresentam como conhecedoras da ortodoxia e já no primeiro contato querem saber o que é preciso fazer para se “tornar padre”.
Sempre oriento para que em primeiro lugar sejam fieis generosos e pacientes e que no tempo de Deus e não no tempo deles os passos serão dados.
Não há fórmulas secretas para se tornar ortodoxo! O caminho é difícil, mas fácil ao mesmo tempo: Viver o Batismo, colocar em prática no dia-a-dia a teoria das palavras que professamos na igreja e confiar sempre que não estamos por acaso neste mundo, mas que Deus tem um propósito para cada um de nós. Busque a Igreja e o conhecimento, mas principalmente, seja igreja com sua presença transformadora no mundo em que vive.
Arcipreste Venceslau Francisco Krokozs é Pároco das Igrejas Ortodoxas Ucranianas em São Caetano do Sul de São Waldomiro, o Grande e da Proteção da Mãe de Deus.








