ENTREVISTA COM O PADRE MÁRIO (BONFIM) – PARTE 2

4) Monte Athos e santuários na Grécia – aprofunde o tema, por favor.

Quando ainda estudava em Tessalônica, tive a bênção de ser visitado pelo Padre João Cavalcanti da Paróquia Ortodoxa Polonesa de Cordeiro (RJ) e a mátushka Cristina. Visitamos várias igrejas e, ao final do dia, a mátushka me disse que nunca tinha venerado tantas relíquias num único dia. São inúmeros os lugares sagrados, quer igrejas ou mosteiros da cidade e dos arredores.

Temos que dar a mão à palmatória e reconhecer que os gregos têm excepcional zelo com as igrejas e mosteiros em geral, lugares que, involuntariamente nos trazem aquela aura de santidade, tradição e eternidade típicos da espiritualidade ortodoxa. Por exemplo, no centro da cidade, próximo à famosa praça de Aristóteles (Aristotélus), está o já mencionado mosteiro de Santa Teodora. Lá, colocadas uma em frente à outra, podemos venerar as relíquias da santa protetora do mosteiro e de São David, que buscava o ascetismo nas montanhas ao redor da cidade, vivendo sua penitência sobre as árvores. No local em que temos a igreja dedicada ao santo, foi encontrado sob uma camada de reboco, um mosaico único de Cristo ainda jovem, ainda sem barba. O mosaico tinha sido coberto durante a dominação otomana pois a igreja fora convertida em mesquita. Essa igreja se encontra próxima ao já mencionado Moní Vlatádon.

A igreja mais importante de Tessalônica é a catedral de São Dimitris, indiscutivelmente. Mas a Catedral Metropolitana é a primorosa igreja dedicada a São Gregório Palamas, a mais bela da cidade, na minha opinião. Lá estão as relíquias do santo. As paredes são cobertas de ícones representando inúmeros santos e eventos dos Evangelhos.

A igreja de São Dimítris tem que ser visitada com calma, pois é imensa. A relíquia que verte míron está protegida por um cibório de mármore e o perfume que ela exala é inebriante. Um colega da faculdade uma vez me disse que a relíquia não vertia mais míron e que os padres tinham que colocar. Mas um dia, passando para venerar a relíquia, vi que o míron transbordava pela redoma de acrílico que a recobre. Mesmo assustado por presenciar o milagre na minha frente, pedi perdão ao santo, peguei um guardanapo de papel que trazia na mochila, e o embebi no míron. Trago esse míron comigo até hoje.

A igreja foi construída aos poucos, com partes sendo adicionadas a outras existentes. Ela foi construída sobre a prisão onde o santo foi martirizado. De ambos os lados da iconostáse temos escadas que descem ao que chamam de catacumbas. Mas na verdade, lá embaixo se acham preservadas partes de uma rua romana e partes da própria cadeia. No verão, a Divina Liturgia é ali celebrada às 20hs às sextas-feiras. É uma experiência muito tocante.

A catedral já passou por um incêndio (em algumas paredes ainda é possível ver ícones chamuscados e as vigas do teto só parecem de madeira, na verdade são de concreto), já foi transformada em mesquita com acesso de cristãos restrito somente a algumas partes, é um privilégio tê-la toda para nós cristãos mais uma vez.

Enquanto estávamos na longa fila que se formava para venerar o local de repouso de São Paíssios, meu grande amigo Dionísio Pópis, um santo homem, me dizia: “Apesar de ser uma pessoa tão simples, São Paíssios consola tantas pessoas…” O Mosteiro de São João, o Teólogo é outra pérola. Por se tratar de um mosteiro feminino, tem jardins lindos e bem cuidados e sempre está cheio de flores.  Ele fica nos arredores da cidade e, infelizmente, é um pouco fora de mão. É melhor ir de carro pois os transporte público não é muito bom. Ele fica num lindo vale cheio de fazendas e, nas montanhas do outro lado do dito vale está o Mosteiro de Santa Catarina. É bom ir cedo para dar tempo de visitar os dois.

Junto ao túmulo do santo pode-se fazer uma grande metanóia (prostração), e uma breve oração para não atrasarmos as multidão de pessoas que espera sua oportunidade de venerar. As monjas sempre oferecem um docinho grego, água e, às vezes, um cafezinho. Devo confessar que, ao descrever essas experiências, percebo quanta falta me faz estar perto de tanta santidade.


5) Conte-nos de sua experiência no Monastério de Saki e suas obediências e convívio na comunidade monástica.

Muito curiosamente, o primeiro mosteiro que visitei foi no monte Athos, em 2008, quando recebi uma bolsa de estudos do governo grego para estudar por 40 dias em Tessalônica. Visitei o Mosterio de Meguístis Lávras, o mais antigo da península com mais de 1000 anos de história. Na época, eu ainda não era ortodoxo.

Em 2015, fiquei por um mês no mosteiro de Santo Onofre em Jabłeczna (iabuétchna), na Polônia. Foi a realização de um grande sonho, participei da vida do mosteiro, as matinas às 5 da manhã, Divina Liturgia todos os dias, além dos ofícios de vésperas. Após um mês, vim para Saki, onde me encontro até hoje. Os abades aqui sempre me ajudaram muito. Apesar de morar e estudar na Grécia, sempre estava aqui nas ferias de julho e dezembro, páscoa, festa de São Dimítrios, o padroeiro do mosteiro (de Saki).

Na adolescência eu estudei russo por um ano e após alguns anos aprendi a cantar em eslavônico litúrgico e comecei a cantar no coral. Durante a pandemia de covid, fiquei definitivamente no mosteiro e, como o padre responsável pela cozinha iria se dedicar exclusivamente à queijaria do mosteiro, fui convidado a ser o cozinheiro, obediência que cumpro até hoje, com a graça de Deus, São Dimítrios e Santo Eufrósinos, o padroeiro da nossa cozinha.

O mosteiro de Saki é um lugar único. Os monges são muito acolhedores e todos falam inglês além de polonês, russo e o dialeto dessa região da Polônia. O ecônomo do mosteiro de Simonopetra, o padre Venédictos (Benedito) sempre diz que um mosteiro espiritual é aquele em que os monges, quando recebem visitantes, param o que estão fazendo, oferecem um café e um pedaço de bolo, conversam com os visitantes de forma alegre e bem humorada. Um mosteiro com monges, sisudos, segundo o padre Venédictos não é um mosteiro espiritual. E Saki é um lugar assim. Aqui sempre me senti em casa. Minha primeira obediência foi reunir troncos de madeira com os outros monges para armazenar para o inverno. Não era o trabalho que eu queria, eu estava de olho na cozinha. Mas no mosteiro não se escolhe trabalho. Mas na primeira oportunidade que precisaram de voluntários para a cozinha lá fui eu, e lá me encontro até hoje.

Muito importante na minha decisão de ser monge, foi conhecer Madre Rebeca. Acho que foi em 2013 e ela estava no Brasil e eu a conheci numa Liturgia na casa do padre Marko Obradovich e da mátushka Ana em Campinas. Eu estava pensando em ser monge mas estava preocupado, porque eu achava que os monges eram pessoas muito sérias, que jamais sorriam e eu sabia que não conseguiria viver assim. No apartamento do padre eu, de longe, vi Madre Rebeca muito sorridente, cumprimentando a todos com muita alegria e então eu pensei: “Que bom, meu Deus, posso ser monge, porque a monja está sorrindo.” E cá estou eu no mosteiro, sorrindo até hoje.

Na vida monástica encontrei tudo o que minha professora de história ensinou: um lugar de dedicação a Deus, de estudo e aprendizado e arte, através do canto e da iconografia. Sinto que tudo o que aprendi na minha vida, desde cozinhar com minha mãe e minha querida tia Adelita, a língua russa que entrou na minha vida através de um engenheiro com quem trabalhei como estagiário, a língua grega que decidi aprender, de tanto ouvir minha mãe me dizer: “Mario, porque você não me obedece? Estou falando grego?” Todas esses experiências me foram úteis.

Na forma imperfeita e indigna que tenho de servir a Deus, me sinto abençoado e completo. Sinto que encontrei muito mais do que jamais sonhei. Com a oração do coração aprendi que somos tão imperfeitos que nem sabemos pedir. Por exemplo, meu sonho, quando adolescente, era falar inglês, língua que que aprendi estudando sozinho, traduzindo músicas com um pequeno dicionário emprestado por meu grande, melhor e mais antigo amigo, o já falecido Roberto Rivelino da Silva (não preciso dizer o quão corintiano era o pai dele!) Eu queria aprender só inglês, eu achava impossível, mas Deus, em Sua misericórdia me concedeu a oportunidade de aprender tantas línguas e culturas. Não consigo expressar minha gratidão a Deus por tudo o que Ele me concedeu, mesmo sendo eu tão falho e imperfeito. Quando o abade Timoteos me perguntava como eu estava, eu sempre respondia: “Estou muito melhor do que mereço, meu santo padre.”

6) Como o senhor vislumbra a possibilidade de mais monastérios, comunidades monásticas e monges no Brasil? O quê se faz preciso para que cresça este movimento de entrega total ao serviço de Cristo?

Certa vez visitou nosso mosteiro o bispo da cidade de Oulo, na Finlândia e ele nos disse que os mosteiros são um sinal da Igreja saudável. Concordo com ele e a fundação de mosteiros no Brasil será uma consequência natural do crescimento da Igreja. Somos um país imenso, muito rico e temos condições de, com a ajuda de Deus, termos inúmeras paroquias, dioceses e mosteiros espalhados por nosso pais. Encontrei na Ortodoxia o que muitas pessoas procuram: uma forma profundamente espiritual de buscar a Deus, uma forma ancestral, tradicional mas muito viva e vibrante de adorar e cumprir os mandamentos divinos. Aos poucos a Igreja vai crescendo, a forma de como nós brasileiros somos recebidos mudou muito e, quanto mais brasileiros temos, mais fácil fica a vinda de outros. Creio que o futuro da Igreja Ortodoxa no Brasil está em nossas mãos, os ortodoxos brasileiros.

7) Ousamos pedir alguns conselhos e sugestões àqueles que estão se aproximando da Ortodoxia no Brasil.

Tenho muita fé e esperança no crescimento da Igreja Ortodoxa no Brasil. As pessoas se aproximam da igreja voluntariamente porque leram sobre teologia, entraram em contato com os Pais da Igreja, estudaram história e, quando se aproximam de nós já têm muitos conhecimentos. Mas precisam ser guiados espiritualmente, segundo a tradição de paternidade espiritual da Igreja. Precisam ser recebidos com amor e compreensão, tomando o cuidado de mencionar sempre com respeito as tradições das quais vieram. Alguns rapazes se interessam pela possibilidade de receberem o sacerdócio e ainda assim terem uma esposa. O chamado sacerdotal é uma grande bênção e bênção maior ainda é ter uma vocação. Mas eles devem ser amorosamente lembrados que, mais importante do que ser sacerdote é ser um membro digno da Igreja, que reza e participada da Divina Liturgia e dos demais ofícios regularmente. As ordenações  virão quando for da vontade de Deus.


Padre Mário (Bonfim) é Sub-Diácono Rasofor no Monastério de Saki, na Polônia.

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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