ENTREVISTA COM O PADRE ANTONIO DA SILVA FILHO – PARTE 1



1) Como se deu seu contato e vivência na Ortodoxia? E o chamado ao Sacerdócio? Foi como que uma continuação do Serviço ao Senhor? Conte-nos de seu caminho de conversão desde a realidade beneditina.

Na verdade, sinto que meu chamado ao Sacerdócio vem desde a tenra idade. Lembro- me que, na infância costumava brincar de celebrar “missas”. Usava miolo de pão e suco de uvas para dar “comunhão” aos coleguinhas. Enrolava- me numa toalha branca, colocava o crucifixo da minha avó pendurado no pescoço e “celebrava a missa”. O rito eram dúzias de Pai-Nossos, Ave-Marias e Glórias à Santíssima Trindade. Depois dessas orações com os coleguinhas, já cansados da repetição das orações, é que recebiam a “comunhão”. Lembro- me que o “Cálice ” era uma taça de vidro transparente que ganhei de uma tia.

Tudo isso porque nasci no seio de uma família católica romana. Na Igreja Católica Romana recebi os Sacramentos do Batismo, Eucaristia e Crisma (a ordem está invertida porque é essa a práxis romana: 1° batiza, 2º dá comunhão, 3° crisma. Tudo separado, em idades diferentes). Sou do nordeste do Brasil. Desde cedo já sabia o que ia ser: Padre. Porém, meus pais não apoiavam minha vocação, e por isso fui deixando para mais tarde.

Fui me dedicar ao exercício da enfermagem aos 22 anos de idade até minha entrada num mosteiro beneditino, pois andava confuso sobre o que Deus queria de mim: a vida diocesana ou a vida monástica. Vivi a vida monástica durante um bom tempo. No mosteiro tive uma boa formação religiosa, um bom Pai Espiritual, uma boa experiência monástica. Mosteiro tranquilo, onde vivi vida tranquila, dedicada à oração individual, a oração comunitária (Ofício Divino), a Lectio Divina, a meditação, disciplina, silêncio, jejuns, trabalho, estudos e muita obediência.

Meus pais estavam ficando idosos e precisavam da minha presença. Sou filho único. Depois de muita oração, pedi ao meu Superior para deixar o mosteiro para cuidar dos meus velhos pais. Por isso, voltei ao século para trabalhar e ajudá-los. Os dois adormeceram nos meus braços!

Continuei católico-romano zeloso na minha paróquia. Ajudava dando catequeses, visitando famílias com orações e leituras do Evangelho. Continuava, mesmo no século, levando uma vida regrada e quase monástica. Mantive-me escrupulosamente afastado dos vícios dos seculares. A vocação ao Sacerdócio permanecia viva na minha alma. E pedia ao Senhor a graça do Sacerdócio.

Entrei em conflito com as inovações litúrgicas, teológicas e dogmáticas, e o novo modo de ser padre na Igreja romana. Vivi assim durante uns vinte anos; sempre em conflito com as inovações romanas.

Em 2013, visitei pela primeira vez a Paróquia Ortodoxa (Antioquina) de São Jorge, em Santos. Depois, voltei em 2016. Passei a participar da Divina Liturgia, depois fui recebido pelo Mistério do Crisma. Fui convidado a entrar no santuário e ajudar nas funções litúrgicas. Fui indicado ao Subdiaconato, depois ao Diaconato e ao Presbiterato. Algum tempo depois, fui nomeado pelo Sr. Arcebispo Metropolitano Dom Damaskinos (Mansour), como Pároco da Igreja Ortodoxa de São Jorge em Santos. Foi uma longa jornada permeada de alegrias misturadas com provações e muitos sofrimentos! O que digo nestas linhas são um resumo! Tenho muita história!

Posso afirmar que pertenço ao Senhor desde o ventre da minha mãe. Ele me sustenta desde o ventre maternal.


2) Soubemos que o senhor ministra a Catequese aos buscadores de vossa paróquia com disciplina e dedicação. Fale-nos desta experiência, por favor. Quem se aproxima, como se aproxima, como aceita o ethos ortodoxo, relação à Theotokos, tanto pelos Protestantes como Católicos….

Sim. Catequese é uma missão que faço desde a época do Catolicismo Romano. Tenho experiência com esse apostolado há anos!

Meus métodos são simples, tradicionais.

Na Paróquia de Santos comecei esse apostolado depois da minha ordenação Sacerdotal. Fui movido por compaixão pelas pessoas que desejam ser ortodoxas, mas a Paróquia não tinha esse serviço apostólico. Penso que oração e missão devem andar de mãos dadas. No meu entendimento, somente Serviços Litúrgicos belos, pomposos não são suficientes; a Paróquia tem a obrigação de ter um serviço de catequese presencial.

As catequeses são simples. Não com vocabulário teológico. Mas, em linguagem coloquial, comum.

Aqui em Santos, não ministro Sacramentos sem antes catequizar, exigindo participação dominical na Divina Liturgia. Particularmente sou contra a sacramentalização sem evangelização.

Sacramentalização não leva à uma adesão consciente e séria a Fé Cristã. O Senhor disse: “Aquele que crer e for batizado será salvo.” (São Marcos 16: 15).

Mas São Paulo perguntou: “Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Romanos 10: 14). Aqui entra o apostolado da catequese! Como disse, catequizar para depois sacramentalizar.

No Rito do Batismo, o Sacerdote pergunta ao catecúmeno: “Aderes a Cristo?” Mas, ele não deve dizer que adere ao Senhor por mera formalidade! Por isso um tempo de catequese. Assim, o Padre saberá quem é apenas “fogo de palha”.

Os que nos procuram são catolicos- romanos, uniatas, protestantes em conflitos com suas comunidades, espíritas, ex – ateus, jovens, idosos … . Durante as catequeses perguntam bastante. O Padre precisa ter paciência para atender à todos com bondade, gentileza e muita caridade. E a adesão ao ethos ortodoxo vai acontecendo aos poucos. Por isso, a frequência a Divina Liturgia, aos ágapes, o contato com a comunidade ortodoxa local é essencial. Mantenho contato com todos via WhatsApp, respondendo perguntas, ouvindo dificuldades, incentivando e orientando…

Quanto à veneração à Santíssima Virgem Mãe de Deus, os católicos- romanos não têm dificuldades. Eles já a têm como Mãe espiritual mesmo antes da Ortodoxia. Só purifica a sua veneração a Ela dos excessos adquiridos da devoção popular do Catolicismo Romano. Os protestantes, já aderem com certa dificuldade, mas, com paciência se consegue ajudá-los.

Posso afirmar que o trabalho da catequese, a acolhida, a gentileza, a cordialidade, paciência e o exercício de uma paternidade espiritual responsável tem salvado muitos!

Entendo que a Paróquia não deve ser um “círculo fechado”, mais preocupado em se manter do que em dar vida. Sou absolutamente contrário à mentalidade da “igreja- colônia”.

3) Pedimos um resumo sucinto de sua vivência no que diz respeito a mudança de uma mentalidade da teologia escolástica (dos latinos) para aquela hesicasta (dos ortodoxos), relação que podemos vincular ao caráter de cura tanto da Teologia como da Espiritualidade Ortodoxa.

A esse respeito foi tranquila! O monasticismo me ajudou! A Regra de São Bento é anterior ao escolasticismo tomista.


Padre José Antonio da Silva Filho é Pároco na Paróquia Ortodoxa Antioquina da São Jorge em Santos (SP)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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Uma resposta

  1. Bom dia a todos estou muito orgulhosa e feliz por ser nosso pároco e nosso grande amigo.Seja abencoado.AlaisM

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