4) Como coordenar o trabalho e o “dever” no casamento com o serviço na igreja? Fique à vontade para fazer conhecido aos buscadores a realidade de um clérigo no Brasil hoje e também desenvolver o tema… sugestões e ideias para tal realidade.
Na realidade dos leigos, o próprio casal encontrará os meios de conciliar o serviço na Igreja com as exigências atuais da vida familiar, de acordo com sua realidade e condições.
Na realidade do clérigo a situação se dificulta um pouco. No Brasil, a grande maioria das Igrejas Ortodoxas são pobres financeiramente e não possuem condições de sustentar adequadamente seus clérigos, sobretudo se forem casados, devido as exigências que o templo requer, como: manutenções, reformas, contas, funcionários se houver, confecção de paramentos litúrgicos, ingredientes para prósfora, vinho, velas, etc… Todas essas coisas geram gastos que muitas vezes, dependendo do local, possui um orçamento relativamente alto. O rapaz que deseja ser clérigo no contexto atual da Ortodoxia no Brasil, é fundamental que tenha em mente de que a maioria das paróquia ortodoxas são pobres e não poderão sustentá-lo adequadamente com sua família.
Tendo isso em mente, é aconselhável que o candidato ao sacerdócio busque se profissionalizar e se inserir no mercado de trabalho que seja compatível e conciliável com os serviços na Igreja e gere condições próprias de sustento para ele e sua família. O ideal seria que cada comunidade tivesse os seus clérigos residentes ou na própria paróquia ou numa localidade próxima. Isso proporciona que tenham contato e vivência frequentemente constante com a paróquia e comunidade.
Portanto, as condições atuais da Ortodoxia no Brasil, exige muitas vezes, que os clérigos casados tenham seu próprio meio de subsistência e se adaptem à realidade e contexto de cada região para melhor atender sua comunidade e família. No caso de clérigos celibatários, a realidade muda, pois não tem as exigências familiares, mas quanto aos meios de subsistências próprias, continua aconselhável.
5) Como o senhor concebe a aproximação de buscadores sedentos pela Ortodoxia à sua paróquia? Existe algum trabalho catequético ou coisa do tipo?
Alegro-me, pois tem crescido o número de buscadores pela Ortodoxia em nossa paróquia. Existe um trabalho catequético que é realizado pelo Padre Antonio após cada Divina Liturgia. Se a pessoa mora distante e por algum motivo não tem condições de sempre estar presente nos Ofícios, ele não fica sem catequese, pois mesmo assim, o Padre Antonio envia conteúdos catequéticos via whatsapp e dependendo da realidade, guia-os na paternidade espiritual remotamente, esclarecemos dúvidas e dando aconselhamentos.
6) Na sua opinião, o brasileiro que se aproxima e aquele que ainda é jovem na fé reage bem aos jejuns indicados pelo calendário ortodoxo litúrgico e outras práticas da vida espiritual no seio da Fé Ortodoxa? Aprofunde o tema, por favor.
Sobre a reação das pessoas referente ao jejum ortodoxo e as práticas da vida espiritual, não tenho resposta, pois esse tema geralmente é abordado nas catequeses a qual não costumo participar devido à outras obrigações na paróquia, ou diretamente entre a pessoa e o padre.
É importante que separemos a realidade de contexto de um monge que vive dentro do mosteiro e de um fiel na paróquia que vive em contato constante com os afazeres e exigências do agitado mundo civil.
Para um fiel na paróquia é sempre recomendável que ele não faça por conta própria o jejum estrito prescrito pelo calendário litúrgico ortodoxo, mas que busque orientação e se submeta à regra de jejum que lhe foi dada pelo Pai Espiritual, por diversos motivos óbvios. O primeiro deles, é que o fiel da paróquia não é monge e não vive dentro do mosteiro, pois ele tem uma infinidade de obrigações a fazer no contexto secular e uma vida bastante agitada que exige energia. Portanto, o fiel sempre deve se reportar ao padre de sua paróquia ou ao Pai Espiritual para seguir uma regra de jejum baseada na Tradição Ortodoxa que proporcionará bom proveito e bons frutos espirituais.
7) No seu ponto de vista, o que hoje poderia ajudar no florescimento da Fé Ortodoxa em nosso país? Existem tão poucas igrejas/comunidades litúrgicas e clérigos e tanta procura…
Essa é uma pergunta complexa que não existe uma única e melhor resposta.
Existe um excelente trabalho de pessoas ortodoxas que transmitem os conteúdos da fé, por meio de sites e vídeos.
O surgimento de monastérios e seminários ajudariam muito no florescimento e fortalecimento da Ortodoxia no país, gerando a descoberta de novas vocações. Porém, enquanto isto ainda não se torna realidade, o que podemos fazer é elaborar meios de transmitir a fé ortodoxa em nossas comunidades e paróquias, por meio de catequeses, estudos bíblicos, litúrgicos, traduções de livros, etc, como existem em algumas comunidades ortodoxas no Brasil.
Agora, um ponto importante para que a fé não se torne algo meramente social e teatral que não podemos ignorar é: a Fé Ortodoxa, deve primeiramente, florescer em nosso coração. O nosso exemplo de cristão ortodoxo verdadeiramente fiel converte mais que a nossa pregação por palavras. Portanto, não adianta nos desgastarmos procurando infinitos meios e métodos de encher a paróquia ou a comunidade de gente, se esses tais não forem verdadeiros convertidos, não tiverem convictos de sua fé e não viverem com sinceridade o Cristianismo.
Em nosso tempo atual, onde estamos cercados de milhares de seitas, ideologias e crenças, eu diria que a nossa preocupação não deveria centrar-se em crescer em “quantidade de ortodoxos”, mas sim na qualidade desses ortodoxos. E assim a nossa fé se torna mais sólida e enraizada em nosso Senhor Deus e Salvador Jesus Cristo e menos nas exterioridades.
Padre André Souza é Diácono na Paróquia Ortodoxa Antioquina da São Jorge em Santos (SP).








