ENTREVISTA COM O DIÁCONO ANDRÉ SOUZA – PARTE 1

1) Como se deu seu contato e vivência na Ortodoxia? O senhor nasceu no Brasil, converteu-se por aqui, ou é descendente de árabes-antioquinos ortodoxos? Conte-nos um pouco desta jornada.

Sou brasileiro e nasci de família brasileira, católica-romana. Apesar de ter nascido em uma família católica romana, meus pais não eram praticantes da fé. O primeiro contato que tive com a Igreja, foi ainda criança, quando recebi o batismo com 5 anos de idade. Ainda, na infância, por volta dos 8, 9 anos de idade, meus pais me colocaram na catequese, e ao final deste processo catequético recebi a Primeira Eucaristia, porém nunca fui crismado na Igreja Católica Romana.

Após este período, como meus pais não eram praticantes, não me levaram mais às Liturgias dominicais, então, eu cresci sem ter vida sacramental ativa na Igreja Romana até meus 20 anos de idade. Neste espaço de tempo, tive uma vida mundana semelhante a qualquer jovem de nossos tempos que não fazem parte ou não tem vida espiritual ativa em sua Igreja.

A partir dos meus 20 anos, quando estava iniciando a vida de um jovem adulto, matriculei-me na escola de enfermagem e durante o período letivo do curso, conheci o Padre Antonio (atual pároco da Igreja de Santos, que na época se não me falha a memória era Diácono) que futuramente se tornaria meu Pai Espiritual, e que pela Providência Divina estudou na mesma sala que eu (para os que não conhecem muito bem a realidade de um clérigo ortodoxo no Brasil, respondo abaixo na pergunta 4).

Pois bem, durante o período letivo do curso, mantínhamos contato e conversávamos sobre poucos assuntos referente a fé, pois devido aos afazeres não havia muito tempo oportuno para isto. O tempo foi passando e pelo final do curso, após o fim das atividades de estágio, fiquei desempregado. Como o Padre Antonio trabalhava em hospital, me ajudou a conseguir um emprego lá, e assim aconteceu (a esta altura, ele já era meu Pai Espiritual). A partir daqui começa a minha história de conversão.

Trabalhando no mesmo hospital que o Padre Antonio (na época Diácono), após vários diálogos sobre a fé, decidi tornar-me ortodoxo.

Como o meu expediente se encerrava às 14h, me dirigia, então, à biblioteca do hospital onde ele trabalhava. Como anteriormente não havia tempo oportuno, a partir de então, a Providência Divina proporcionou muito tempo para meu conhecimento da fé ortodoxa. O meu processo de catecumenato começou e foi um período longo de catequese e como o Padre Antonio, que antes de vir para a ortodoxia, tinha sido monge beneditino com vasta experiência na Igreja Católica Romana, posso afirmar, com plena certeza de, que toda a minha formação religiosa e espiritual, neste processo de catecumenato, foi excelente. Durante esse tempo de catecumenato, brinco que fiz quase que uma “faculdade de teologia”.

A partir daqui, acho mais apropriado continuar na pergunta 2, onde trata sobre o serviço à Cristo e à Sua Igreja.

2) Como se deu seu chamado ao serviço a Cristo e à sua Igreja? Como sua família reagiu a esta nova realidade?

Continuando a trajetória…

Durante o tempo de catecumenato, eu namorava e tinha desejo de constituir família, (acho importante mencionar que meu namoro na época não era santo, como a grande maioria não são) mas Deus tinha outros planos para mim, a Vontade d´ Ele era outra. O namoro chegou ao fim e rompemos o relacionamento por ser pecaminoso e também por ela não querer nada com a fé. A partir daí, ainda na catequese, um pouco mais adiante e com muita ajuda e esclarecimentos espirituais do Padre Antonio (na época Diácono), no Natal de 2020 optei pelo celibato (não por decepção amorosa, mas por um discernimento do chamado de Deus).

Após todo esse período de catecumenato, no dia 29 de agosto de 2021 na festa da Decapitação de São João Batista (calendário utilizado pela Igreja Antioquina) fui recebido na Igreja Ortodoxa através do Santo Sacramento da Crisma. Após a minha entrada oficial na Ortodoxia, servi como acólito na Igreja de Santos, e ainda trabalhando no hospital, continuei meus estudos sobre a fé com o Padre Antonio.

O meu chamado para servir à Cristo e Sua Igreja, acredito que me veio já desde a infância, coisa que perdi por ter crescido sem ter vida ativa na Igreja, mas isso não significa nada para Deus quando Ele chamada alguém ao Seu Santo serviço.

Pois bem, com o período de catecumenato e a recepção à Ortodoxia, senti internamente um desejo de servir a Deus mais profundamente. Então, no dia 06 de agosto de 2022 na festa da Transfiguração do Senhor (calendário utilizado pela Igreja Antioquina), sempre acompanhado espiritualmente pelo Padre Antonio, recebi a bênção do subdiaconato na Catedral Metropolitana Ortodoxa de São Paulo pela imposição das mãos do Arcebispo Metropolitano Damaskinos (Mansour) e na mesma celebração, o Padre Antonio que na época era Diácono, recebeu a Ordenação Sacerdotal para o grau de Presbítero.

Como Subdiácono, continuei os estudos sob a tutoria e direção do Padre Antonio, onde me aprofundei nos conhecimentos da Fé Ortodoxa, Divina Liturgia, Demonologia (apesar de não ter material específico sobre esse tema traduzido, até onde eu conheço), Santíssima Virgem Maria, e fora outras dezenas de livros físicos e PDFs sobre temas espirituais e ascéticos. Fui orientado pelo Padre Antonio a servir uma vez por mês durante 1 ano na Catedral Metropolitana Ortodoxa Antioquina de São Paulo para fins de aprendizado na Divina Liturgia e convívio com demais clérigos de nossa arquidiocese. Como Subdiácono ingressei nos estudos na Instituição de São João Damasceno pela Universidade de Balamand, no programa SOFIA com a bênção do meu Arcebispo Metropolitano. Ainda, durante o subdiaconato, pedi demissão do trabalho no hospital e com ajuda e orientação do Padre Antonio assumi responsabilidades na secretaria paroquial da paróquia de Santos em que pertenço.

O desejo interno de servir mais profundamente a Cristo e Sua Igreja, continuou a florescer dentro de mim. Então, o Padre Antonio discernindo que eu estava preparado a receber a Santa Ordem, em visita ao nosso Arcebispo Metropolitano Damaskinos (Mansour), no mês de julho de 2024 me indicou às ordens maiores e pediu a minha ordenação diaconal, que foi marcada para o dia 25 de agosto de 2024 onde recebi a ordenação para o Santo Diaconato pela imposição das mãos do Arcebispo Metropolitano Damaskinos (Mansour) na Igreja Ortodoxa de São Jorge, em Santos (SP).

Quanto a reação de minha família, foram completamente tranquilos à nova realidade. Nunca houve resistência da parte deles. O meu primeiro contato com a Ortodoxia sempre foi marcado e acompanhado pelo Padre Antonio desde um pouco antes da minha conversão até atualmente no Diaconato.


3) Fale-nos de sua comunidade litúrgica em Santos (SP): onde se encontra, quem frequenta, como e com que frequência são celebrados os Serviços Divinos, em que idioma, existe algum coro, trabalho caritativo ou semelhante?

Minha comunidade pertence à Igreja Ortodoxa Antioquina de São Jorge, localizada em Santos-SP, estamos vinculados à Arquidiocese Metropolitana Ortodoxa Antioquina de São Paulo e Todo o Brasil, sob omofórion do Arcebispo Metropolitano Damaskinos (Mansour).

Atualmente nossa comunidade local é composta somente por brasileiros, há alguns de outras jurisdições que nos visitam e participam dos Ofícios Litúrgicos, mas na atualidade, a comunidade residente é composta apenas por brasileiros.

A Divina Liturgia em nossa comunidade é celebrada 2 vezes na semana (Domingo e quarta-feira). Todos os nossos Serviços Litúrgicos sempre são celebrados em português, pois a nossa comunidade é composta por brasileiros. Graças a Deus, contamos com a presença de coralistas que servem nossa comunidade nos Ofícios Litúrgicos.

Em nossa realidade e contexto atual, optamos por não realizar trabalho caritativo ou sociais no momento.


Padre André Souza é Diácono da Paróquia Ortodoxa Antioquina de São Jorge em Santos (SP).

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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Respostas de 2

  1. É emocionante ver uma convivência baseada no respeito, na fé e no amor ao próximo. O testemunho do Diácono e a caminhada ao lado do Padre Antônio mostram o verdadeiro significado de serem servos de Deus. Gratidão por tanta luz.

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