ENQUANTO AINDA TEMOS O HOJE

“Pois os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem nada…” (Eclesiastes 9:5). Por que Salomão escreveria algo tão direto e desconfortável? Por que nos lembrar de algo que, à primeira vista, parece tão óbvio?

Porque não é óbvio para o coração humano. Vivemos como se a morte fosse sempre um assunto distante, um problema dos outros, algo que será resolvido mais tarde. Planejamos, acumulamos, adiamos. Falamos do “quando eu tiver tempo”, “quando a vida acalmar”, “quando for mais conveniente”. A sabedoria de Salomão rasga essa ilusão com poucas palavras: os vivos sabem que vão morrer. Os mortos, não. Exatamente aí está o ponto.

Enquanto estamos vivos, ainda há escolha. Ainda há resposta possível. Ainda há um hoje. Os mortos não podem mais escolher. Suas obras estão seladas; sua história, concluída. Não há arrependimento tardio, nem correção de rota. A memória se desvanece, o tempo se encerra. Mas nós ainda respiramos. Ainda estamos a caminho. Ainda recebemos, a cada manhã, um dom que não merecemos: mais um dia.

É por isso que a Igreja, com tanta insistência, nos chama ao arrependimento. Não como ameaça, nem como peso psicológico, mas como um ato profundo de amor. O arrependimento, a metanoia, não é simplesmente sentir remorso pelo passado. É mudar a mente, o olhar, a direção do coração. É reconhecer que estávamos caminhando para longe de Deus e, conscientemente, dar meia-volta.

Os Santos Padres são claros: ninguém se perde de repente. Primeiro, perde-se a vigilância. Depois, adia-se a conversão. Por fim, acostuma-se à distância. A metanoia rompe esse ciclo. Ela nos acorda. Nosso Senhor é ainda mais concreto: “Se alguém quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz diariamente e siga-Me” (Lucas 9:23). Diariamente. Não uma vez na vida. Não apenas em momentos de emoção ou crise. Todos os dias, enquanto ainda temos fôlego nos pulmões.

São João Crisóstomo dizia que Deus nos concede o tempo como espaço de cura. Enquanto há tempo, há esperança. Enquanto há vida, há possibilidade de transformação. Mas o tempo não é neutro. Ou ele nos aproxima de Deus, ou nos endurece pouco a pouco. Por isso a pergunta permanece, incômoda e necessária: estamos escolhendo Cristo hoje?

Não de forma perfeita. A Igreja nunca exigiu perfeição imediata. Mas de forma sincera. Com um coração que luta, que cai e se levanta, que pede misericórdia e continua caminhando.

Estamos acumulando tesouros no céu, como exorta o apóstolo Paulo, ou estamos nos agarrando ao pó deste mundo como se ele fosse eterno? Estamos vivendo como peregrinos ou como proprietários de algo que, no fim, não nos pertence?

“Hoje é o dia da salvação”, nos lembra a Escritura. Não ontem. Não amanhã. Hoje. E nunca é tarde demais… até que seja.

Viver com consciência da morte não é morbidez, e sim sabedoria. É aprender a dar peso ao que realmente importa, amar melhor, perdoar mais rápido, rezar com mais verdade, escolher com mais lucidez.

Vivamos, então, como pessoas que sabem que vão morrer. E, exatamente por isso, como pessoas que finalmente aprenderam a viver.


+ Bispo Theodore El Ghandour

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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