Nesta semana da Grande Quaresma, a Igreja comemora Santa Maria do Egito. A história de Santa Maria é a história de uma prostituta arrependida. Por que a Igreja considera essa história tão importante? Por que todo o mundo ortodoxo comemora essa mulher?
Sua vida nos conta como, desde a juventude, ela levou uma vida extremamente dissoluta e, mais como turista do que como peregrina, decidiu viajar para Jerusalém para a Festa da Exaltação da Santa Cruz. Contudo, uma força misteriosa a impediu de entrar na igreja até que, percebendo seus pecados, ela clamou à Mãe de Deus e ao Senhor por misericórdia. Então, ela pôde entrar na igreja e, abalada, resolveu passar o resto da vida em oração e arrependimento. Muitos anos depois, o venerável monge Zosima a encontrou no deserto; por meio dele, conhecemos sua história.
Que mensagem sua vida nos transmite — através dos séculos e das terras?
Esta é uma história sobre encontrar esperança. Maria tinha um dom que, por um tempo, a satisfez: como disse o poeta, “Vinho e homens são a sua atmosfera” — mas ela não tinha futuro, ou melhor, um futuro no qual não queria pensar. Logo seus encantos se desvaneceriam, especialmente devido ao seu estilo de vida pouco saudável, e os homens perderiam todo o interesse nela, partindo para novas vítimas de seu temperamento social, deixando-a sozinha, rejeitada e sem sustento. E assim, voltando-se para Deus, ela encontrou esperança — de que não apenas sua vida terrena seria repleta de dignidade e significado, mas, principalmente, de que a vida eterna a aguardava.
Esta é uma história sobre a recuperação da dignidade. Recentemente, vi uma fotografia de peregrinos ajoelhados em uma comunidade ateia online — e comentários de não crentes sobre como é humilhante e servil ajoelhar-se. Este mundo acredita que o arrependimento é uma renúncia à dignidade humana. Como se, quando Maria passou a vida na devassidão do porto, ela vivesse em liberdade e dignidade, mas quando se levantou e foi para o Pai, caiu na escravidão. Os valores deste mundo estão invertidos — e o arrependimento pressupõe a restauração do referencial correto.
Esta é uma história sobre encontrar o amor. De uma perspectiva mundana, uma pessoa que se retira para o deserto para dedicar seus dias ao arrependimento e à oração o faz por causa da dor e do desespero, pela impossibilidade de se adaptar a uma vida “normal”. Claro, Deus não se orgulha — Ele aceita até mesmo aqueles que saem do mais profundo desespero —, mas, na maioria das vezes, não é esse o caso. As pessoas que se tornam monges são bastante prósperas para os padrões mundanos. Por quê? Porque viram a Verdadeira Luz, algo tão precioso e indizivelmente belo lhes foi revelado que podem, com alegria, deixar tudo por isso. Maria encontrou Aquele que a ama verdadeira, sincera e eternamente — ama-a como um ser humano precioso chamado à vida eterna.
Esta é uma história de liberdade. A sociedade tradicional pode ser considerada mais moral em alguns aspectos — pelo menos, a devassidão não se celebrava descaradamente —, mas em outros, era muito mais desesperançosa. A mulher “caída”, cuja reputação já estava estabelecida (e tal reputação podia ser estabelecida muito rapidamente), não tinha esperança de retornar à sociedade “respeitável”. Todas as portas estavam fechadas para ela, e tudo o que podia fazer era continuar a deslizar ladeira abaixo na qual, após um passo em falso, se encontrava. A sociedade literalmente a empurrava para baixo: uma vez prostituta, sempre prostituta, e pronto. Mas Deus, como se viu, discordava da sociedade “respeitável” — Ele estendeu a mão e mudou completamente a vida dessa mulher, tornando-a uma grande santa, glorificada pela Igreja por séculos.
Na sociedade moderna, a pressão que leva uma pessoa que já se afundou em um buraco cada vez maior é significativamente menor. Mas ainda é muito difícil para ela voltar atrás no caminho que escolheu. “Beba, e o diabo te ajudará a sair dessa situação”, como cantam os piratas em A Ilha do Tesouro. Às vezes, as pessoas dizem que “foram descrentes a vida toda”, que “pecaram demais”, que agora “é tarde demais para mudar de vida” — agora tudo o que resta é seguir o caminho já trilhado até o fim.
A história de Maria do Egito nos lembra que, ao cair em um poço, não precisamos cavar mais fundo, e que, ao escorregar, não precisamos rolar até o fundo. Como diz a Escritura: “Assim diz o Senhor: ‘Se caírem, não se levantarão? Se se desviarem, não voltarão?'” (Jeremias 8:4). Ninguém é obrigado a seguir um caminho já trilhado por toda a vida — podemos dar uma guinada brusca e mudar de rumo. E a Quaresma é um tempo em que a Igreja nos lembra da nossa liberdade: podemos deixar para trás os pecados do passado e nos voltar para Deus.
Sergey Khudiev
tradução de monja Rebeca (Pereira)







