EM MEMÓRIA DO PADRE DANIEL SYSOEV

Hoje marca o terceiro aniversário do martírio do Padre Daniel Sysoev, que foi fatalmente baleado na Igreja do Apóstolo Tomé, em Moscou, aos 19 de novembro de 2009. Seu trabalho continua: livros que ele escreveu estão sendo publicados, uma escola missionária com seu nome está em funcionamento e um fundo beneficente em seu nome está ajudando as famílias de padres falecidos. Para marcar o aniversário de hoje, oferecemos as seguintes lembranças do Padre Daniel, escritas por seu amigo próximo e colaborador, o Arcipreste Oleg Steniaev.

Ele não perguntava: “como vão as coisas?”

Nos conhecemos em meados da década de 1990: eu era padre e ele ainda era diácono. Ele veio ao nosso Centro de Reabilitação de Vítimas de Religiões Não Tradicionais [em Moscou] e disse que também gostaria de se dedicar a esse tipo de trabalho. Logo, com a bênção do bispo, ele começou a dar palestras sobre a Bíblia no Krutitsy Metochian [também em Moscou]. A partir daí, mantivemos contato constante.

Acontecia de eu estar sentado no refeitório da igreja e ele se aproximava e fazia uma pergunta teológica de extraordinária complexidade. Começávamos a discuti-la, ficando ali sentados por uma ou duas horas. Era para isso que ele vivia. Ao conhecer alguém, normalmente perguntamos: “Como vai? Como você está?” Mas ali estava alguém que vivia em constante reflexão sobre Deus, Seu Reino e a vida eterna.

“Eu amo essas pessoas!”

Certa vez, conversávamos sobre o Papa, e eu expressei minha preocupação com a possibilidade de uma reaproximação com os católicos. Mas ele respondeu: “Estou pronto para reconhecer o Papa deles, contanto que ele aceite todos os dogmas ortodoxos, os confesse e os promulgue em concílio papal. Então, qual é o problema?”

Sua missão nunca foi caracterizada por agressão. Basta assistir aos vídeos dos debates que ele realizava. Infelizmente, os intervalos não foram gravados. Durante os debates, havia pausas em que todos conversavam uns com os outros no saguão. Muçulmanos e homens barbudos ficavam ao redor do Padre Daniel. Eles faziam perguntas e ele respondia de maneira muito amigável. Ele não sentia nenhuma animosidade em relação a pessoas de outras religiões. Ele mesmo menciona isso em suas palestras: “Eu amo essas pessoas, mas não compartilho de sua fé e crenças”.

Eles o mataram por medo.

Quando o senhor da guerra Said Buryatsky [da Brigada dos Mártires Riyad-us Saliheen na Chechênia, falecido em 2010] o condenou à morte, fez duas acusações: primeiro, que o Padre Daniel realizava debates abertos com muçulmanos; e, segundo, que os batizava. Na verdade, os debates eram realizados por iniciativa dos próprios muçulmanos. E o fato de o terem procurado para o batismo mostra que lhes faltava algo no Islã, razão pela qual o abandonaram.

Eu lhe disse: “Eles vão te matar!” Ao que ele respondeu: “Do que você está falando? Eu sou indigno!” Ele sentia que, se fosse morto por causa da fé, se tornaria um mártir. Não havia nele nenhum vestígio de medo, apenas reverência diante do martírio. Acredita-se que mortes martirizadas sejam raras.

Alguém é morto quando é temido; as pessoas temem sua grandeza espiritual. O padre Daniel recebeu quatorze avisos. Mesmo no dia em que foi baleado, ligaram para ele exigindo que parasse de falar com muçulmanos. Após sua morte, muitos muçulmanos se batizaram. Padres de outras igrejas me contaram sobre isso. Seu assassinato teve o efeito contrário ao pretendido.

O que acontece com a alma após a morte?

Sobre a vida da alma após a morte, o Padre Daniel disse: “É igual aqui, só que muito mais interessante. Agora nós dois estamos quebrando a cabeça com questões teológicas. Mas lá, bastava chamar Gregório, o Teólogo, e ele e João Crisóstomo vinham explicar tudo!”

Perguntei: “Por que é igual lá como aqui?”

Ele respondeu: “Os relacionamentos entre as pessoas continuam. Quando alguém morre, não deixa de ser uma pessoa. Assim como você se diverte conversando com pessoas interessantes aqui, lá será ainda mais prazeroso – quando você estiver entre aqueles que se tornaram ‘pessoas’ no sentido pleno da palavra!”

Confissão final

Meu pai espiritual, Padre Dmitri Dutko, faleceu alguns anos antes do assassinato do Padre Daniel. Eu disse ao Padre Daniel que iria me confessar com ele. Ele respondeu que também queria se confessar comigo. Isso continuou até a sua morte.

Ao se confessar, ele ficava furioso, frenético. Ele se derramava como se estivesse passando por uma espécie de peneira. E essa “espécie de peneira” era a Revelação Bíblica e os Cânones da Igreja. Ao nomear seus pecados, ele começava a falar em uma linguagem quase bíblica.

Ele só dava conselhos se eu pedisse – eu era mais velho e ele sempre ficava constrangido e dizia: “Steniaev, você já sabe de tudo isso!”. Eu respondia: “Não, agora estou me confessando com você, e você precisa me aconselhar – é seu dever”. E então ele me aconselhava. Agora preciso muito disso.

A última vez que me confessei com ele foi “nos túmulos”. Fui à noite onde seu caixão estava exposto. Caminhei até lá, me inclinei e me confessei a ele pela última vez.

Ele já está sendo venerado

Eu sabia que ele era um santo? Sim, eu sabia. A amizade com os santos não é fácil. Os santos são pessoas difíceis, estão sempre em busca de soluções, à frente daqueles ao seu redor em termos de ideias, palavras e ações. De fora, parecia que ele estava com pressa. Na verdade, éramos nós que estávamos ficando para trás. Ele não estava com pressa; era uma pessoa equilibrada e ponderada. Mas ele ditava o ritmo, a intensidade, e isso não tornava a vida fácil.

Na antiguidade, os mártires não eram formalmente canonizados. A veneração dos mártires começava imediatamente após suas mortes. Para um mártir ser venerado, bastava que ele não fosse um clérigo destituído, que agisse com a bênção da hierarquia da igreja e que morresse pela fé. E isso era tudo. Já existem ícones do Padre Daniel na Sérvia e há um no Monte Athos. Ele já está sendo venerado.


Arcipreste Oleg Steniaev
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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