Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Hoje, no dia de Ramos, ficamos maravilhados e perplexos diante do que está acontecendo, de uma forma que os judeus de Jerusalém não puderam encontrar com Cristo porque o encontraram imaginando que Ele era o rei glorioso que assumiria todo o poder, conquistaria e rejeitaria os pagãos, os romanos que ocupavam sua terra, que Ele restabeleceria um reino, um reino terreno de Israel. Sabemos que Ele não veio para isso, Ele veio para estabelecer um Reino que não terá fim, um Reino da eternidade, e um Reino que não se abre apenas para uma nação, mas para todas as nações, e um Reino que seria fundado na vida e na morte de Jesus Cristo, o Filho de Deus que Se tornou Filho do Homem.

E a Semana Santa é, de uma ponta à outra, um tempo de trágica confusão. Os judeus encontram Cristo nos portões de Jerusalém porque esperam d´Ele um líder militar triunfante, e Ele vem para servir, para lavar os pés de Seus discípulos, para dar a vida pelo povo, mas não para conquistar pela força, pelo poder. E o mesmo povo que O encontra gritando: “Hosana ao Filho de David!”, em poucos dias gritará: “Crucifica-O! Crucifica-O!”, porque Ele traiu suas expectativas. Eles esperavam uma vitória terrena e o que veem é um rei derrotado. Eles O odeiam pela frustração de todas as suas esperanças.

E isso não nos é tão estranho nos dias de hoje. Quantas pessoas se afastaram de Cristo com ódio porque Ele frustrou uma esperança ou outra? Lembro-me de uma mulher que fora fiel a vida toda e cujo neto, um menino, morreu. Ela me disse: “Não acredito mais em Deus. Como Ele pôde levar meu neto?”. E eu lhe respondi: “Mas você acreditou em Deus enquanto milhares e milhares e milhões de pessoas morriam”. Ela olhou para mim e disse: “Sim, mas o que isso me fez? Não me importei, eles não eram meus filhos”. Isso acontece conosco, em menor escala, com tanta frequência que vacilamos em nossa fé e em nossa fidelidade a Deus quando algo que esperamos que Ele faça por nós não acontece, quando Ele não é um servo obediente, quando proclamamos nossa vontade e Ele não diz “Amém” e não a realiza. Portanto, não é tão estranho que sejamos daqueles que encontraram Cristo nos portões de Jerusalém e depois se afastaram d´Ele.

Mas estamos entrando agora na Semana Santa. Como podemos encarar os acontecimentos? Creio que devemos entrar na Semana Santa não como observadores, sem ler as passagens do Evangelho relevantes, mas como participantes dos eventos, sim, lendo sobre eles, mas também nos misturando à multidão que cerca Cristo e nos perguntando: Quem sou eu nesta multidão? Sou um daqueles que disseram: “Hosana ao Filho de David!”? E estou agora à beira de dizer: “Crucifica-O!”? Sou um dos discípulos que permaneceram fiéis até os momentos de extremo perigo? Vocês se lembram de que, no Jardim do Getsêmani, três discípulos foram escolhidos por Cristo para apoiá-Lo na hora de Sua suprema agonia, e eles não o fizeram; estavam cansados, desanimados e adormeceram. Três vezes Ele veio até eles em busca de apoio, três vezes eles se afastaram d´Ele.

Não encontramos Cristo nas mesmas circunstâncias, mas encontramos tantas pessoas em agonia, não apenas morrendo fisicamente – e isso também acontece com nossos amigos, nossos parentes, pessoas ao nosso redor –, mas sofrendo de terror de uma forma ou de outra. Estamos lá, despertos, vivos, atentos a elas, prontos para ajudá-las e, se não pudermos ajudar, para estar com elas, para apoiá-las? Ou adormecemos, ou seja, nos afastamos, viramos as costas, as deixamos em sua agonia, seu medo, sua miséria? E, novamente, não estou falando de Judas, porque nenhum de nós tem consciência de trair Cristo dessa maneira, mas não traímos Cristo quando nos afastamos de todos os Seus mandamentos? Quando Ele diz: “Eu lhes dou o exemplo a seguir”, e balançamos a cabeça e dizemos: “Não, seguirei simplesmente os desígnios do meu próprio coração”. Mas pense em Pedro, aparentemente o mais forte, aquele que repetidamente falou em nome de outros, quando, ao arriscar a própria vida, ou melhor, a própria vida, para ser rejeitado simplesmente porque ninguém estava prestes a matá-lo, ele negou Cristo três vezes.

O que fazemos quando somos desafiados da mesma forma, quando corremos o risco de sermos zombados, ridicularizados e deixados de lado por nossos amigos ou conhecidos que dão de ombros e dizem: “Um cristão? E você acredita nisso? E você acredita que Cristo era Deus, e acredita no Seu Evangelho, e está do lado d´Ele?” Quantas vezes? Oh, não dizemos: “Não, não estamos”, mas dizemos: “Sim, é a minha glória, e se vocês querem crucificá-Lo, se querem rejeitá-Lo, rejeitem-me também, porque escolho estar ao lado d´Ele, sou Seu discípulo, mesmo que eu seja rejeitado, mesmo que vocês não me deixem mais entrar em suas casas”?

E pensem na multidão no Calvário. Havia pessoas que haviam sido fundamentais em Sua condenação, zombaram d´Ele, e pensavam que haviam conquistado a vitória. E havia também os soldados, os soldados que O crucificaram, que haviam crucificado inúmeras outras pessoas, cumprindo seu dever. Para eles, não importava quem crucificavam. Mesmo assim, Cristo orou por eles: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Não estamos sendo crucificados fisicamente, mas será que dizemos: “Pai, perdoa aqueles que nos ofendem, que nos humilham, que nos rejeitam, aqueles que matam nossa alegria e obscurecem nossa vida”? Fazemos isso? Não, não fazemos. Portanto, precisamos nos reconhecer neles também.

E então havia uma multidão de pessoas que se aglomeraram na cidade para ver um homem morrer, a curiosidade feroz que impulsiona tantos de nós a sermos curiosos quando o sofrimento e a agonia se abatem sobre as pessoas. Você dirá: “Isso não acontece?”. Pergunte a si mesmo como você assiste à televisão e com que avidez  você observa os horrores que assolam a Somália, o Sudão, a Bósnia e todos os outros países. É com o coração partido? É porque você não consegue suportar o horror e se voltar para Deus em oração, dando, dando, dando generosamente tudo o que pode para que a fome e a miséria sejam aliviadas? É isso? Não, somos as mesmas pessoas que foram ao Calvário para ver um homem morrer. Curiosidade, interesse? Sim, infelizmente.

E havia também aqueles que vieram com a esperança de que Ele morresse, porque se Ele morresse na cruz, então eles estariam livres desta mensagem terrível e horrível que Ele trouxera: que devemos amar uns aos outros a ponto de estarmos prontos para morrer uns pelos outros. Essa mensagem do amor crucificado e sacrificial poderia ser rejeitada de uma vez por todas se Aquele que a pregou morresse e se provasse que Ele era um falso profeta, um mentiroso.

E havia aqueles que vieram na esperança de que Ele descesse da cruz, e então poderiam crer sem nenhum risco, unindo-se ao grupo vitorioso. Não somos assim com frequência?

E há um ponto para o qual dificilmente ousaríamos desviar o olhar: a Mãe do Filho de Deus Encarnado, a Mãe de Jesus, silenciosa, oferecendo Sua morte pela salvação da humanidade, silenciosa e morrendo com Ele hora após hora; e o discípulo que, em sua juventude, soube amar seu mestre, permanecendo horrorizado, vendo seu Mestre morrer e a Mãe em agonia. Somos assim quando lemos o Evangelho? Somos assim quando vemos a agonia dos homens ao nosso redor?

Entremos, portanto, nesta Semana Santa não como meros observadores do que aconteceu então, mas sim imersos na multidão, perguntando a cada passo: quem sou eu nesta multidão? Sou a Mãe? Sou o discípulo? Sou um dos crucificadores? E assim por diante. E então seremos capazes de vivenciar o dia da Ressurreição junto com aqueles para quem ela foi, de fato, vida e ressurreição, quando o desespero se dissipou, uma nova esperança surgiu e Deus venceu. Amém.


Metropolita Anthony (Bloom) de Sourozh
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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