Hoje é o terceiro dia após a grande festa do Natal (esta homilia foi pronunciada no ano de 2025), que é a coroa de todas as festas do ano, pois o evento da Encarnação de Cristo é o próprio fundamento da nossa fé. Se Ele não tivesse vindo a este mundo, teria sido impossível para o homem conhecer a Deus e o maravilhoso Nome de Jesus, nosso Salvador, o grande Emanuel, que desceu à Terra para estar conosco – “a Luz Que resplandece nas trevas” (João 1:5), a Vida no vale da sombra da morte (Salmo 23:4). Contudo, o que verdadeiramente fere o coração de todo cristão é a maneira como Cristo escolheu vir a este mundo. Quando o homem imagina a vinda de Deus à Terra, ele concebe um Deus à sua própria imagem, que aparece com grande glória e poder onipotente.
Contudo, Deus quis vir ao mundo em completa fraqueza, em completa humildade, como um pequeno e vulnerável bebê. Em tudo o que Cristo fez por nós, Ele nos apresentou um modelo de vida. No Evangelho de hoje (Mt 2,13-23), vemos Deus, o Criador de tudo, fugindo de Seus adversários, como se precisasse de um abrigo para Se esconder. Mas qual era o poder do exército de Herodes contra as hostes dos anjos de Cristo, contra a Sua Divindade? Era inútil e simplesmente inexistente. Mesmo assim, foi da Sua vontade não resistir ao mal (Mt 5,39), mas fugir e Se esconder no deserto do Egito. Quando o anjo mais tarde chamou José para retornar à Judeia, o Evangelho declara que isso aconteceu “para que se cumprisse o que foi dito pela parte do Senhor por meio do profeta: ‘Do Egito chamei o Meu Filho’”. O espírito profético dessa palavra não se esgota com o retorno de Cristo à Judeia como um bebê. Esta palavra se estende a todos nós, pois também nós fomos chamados para fora do Egito.
Fomos todos encontrados por Deus enquanto ainda estávamos sentados nas trevas do Egito. Na linguagem das Escrituras, o Egito simboliza as trevas, a vida e o espírito do mundo “que jaz no pecado” (1 João 5:19), a vida das paixões. A Páscoa foi a libertação de Israel da escravidão sob o domínio egípcio. Assim também, o chamado de Deus para cada um de nós é fugir do ‘Egito’ e retornar a Ele. No entanto, a condição necessária para responder corretamente a tal chamado é que nosso coração não esteja dividido entre a vida do ‘Egito’ – o amor por este mundo – e o amor de Deus pelo homem até o fim. Somos chamados a fugir do ‘Egito’ e a nos tornarmos Seus filhos e filhas, a receber a graça da adoção. Não podemos ser filhos de Deus se nosso coração estiver dividido, dilacerado entre Deus e o ‘Egito’.
Como então, meus irmãos, podemos permanecer fiéis ao chamado de Deus? O Senhor nos chama para fora do Egito, mas quando deixamos para trás seus prazeres, nos encontramos completamente sozinhos em uma terra seca e sedenta (Salmo 63:1). Se desejamos permanecer fiéis ao Seu chamado, devemos retornar a outro lugar deserto, onde Deus realiza Suas maravilhas – o deserto do coração de cada homem. Fugimos do Egito, uma terra desprovida de virtude, e retornamos ao deserto do nosso coração; pois é no deserto do nosso coração que Deus Se une ao homem.
Chega um momento na jornada de todo cristão em que a alma é provada até o fim. Nós nos esforçamos para retornar ao nosso coração e a Deus com toda a nossa força, com todo o poder do nosso arrependimento, até a exaustão, e às vezes Deus permanece em silêncio. Um dos grandes Padres da Igreja primitiva chama Cristo de “o Verbo Que nasceu do silêncio do Pai”. Se o silêncio de Deus Pai trouxe Cristo ao mundo, então certamente, quando Ele Se cala diante de nossas orações, é por apenas um motivo: para que Ele possa construir Sua manjedoura dentro de nossos próprios corações.
A Festa do Natal vem nos dar a esperança incorruptível de que, quando Deus Se cala, mesmo que nos voltemos para Ele de todo o coração, Seu silêncio é apenas um véu que cobre um mistério insondável. Ele cobre um amor tão grande que precisa Se esconder dos filhos dos homens, pois somos incapazes de recebê-Lo em nosso estado atual. O silêncio de Deus constrói a manjedoura de Cristo em nossos corações, pois quando Ele permanece em silêncio diante do nosso arrependimento, Ele nos leva a um maior esvaziamento de nós mesmos, o que nos torna mais receptivos ao Seu amor. Assim, o Natal traz aos nossos corações a esperança incorruptível do amor perfeito de Deus pela humanidade. Os santos são aqueles que justificaram esse amor, e um deles, São Siluan, escreve: “Minha alma anseia pelo Deus Vivo e eu O busco em lágrimas”. Em essência, a voz de São Siluan ecoa nada menos que as palavras de Cristo ao homem: “Minha alma anseia pelo homem”. O NATAL NOS REVELA O ANSEIO DE DEUS PELA ALMA DE CADA HOMEM.
O silêncio de Deus constrói a manjedoura de Cristo em nossos corações. Nele depositamos nossa esperança e nossa confiança, sabendo que, mesmo que sejamos infiéis à Sua aliança, Ele permanece sempre fiel às Suas promessas (2 Timóteo 2:13). Ele anseia por cada homem com um amor mais forte que a morte; e, como Sua vida testemunha, esse anseio O consumiu até o fim. A Ele rendemos toda a nossa gratidão e O justificamos quando também ansiamos por nosso Deus Vivo com grandes lágrimas, seguindo o exemplo de nossos santos. Que assim seja. Amém.
Arquimandrita Peter de Essex
tradução de monja Rebeca (Pereira)







