Na Quarta-feira Santa, nossa Santa Igreja nos apresenta duas pessoas que se aproximam do Senhor Teantropo com o mesmo movimento: o desejo de abraçá-lo. Uma delas foi Judas, que se aproximou do Mestre com um beijo traiçoeiro, que se mostrou mais doloroso para Jesus do que os golpes, os cuspes e os demais sofrimentos que Ele suportou a caminho da cruz. A segunda pessoa é a meretriz, que se aproxima do Senhor com um beijo redentor e recebe d´Ele o perdão de seus pecados e a libertação das paixões.
O primeiro beijo foi de fingimento e perversão, enquanto o segundo foi repleto de amor e arrependimento. Desde então, até os dias de hoje, Cristo continua a receber esses dois abraços opostos daqueles que Ele criou.
O beijo traiçoeiro é dado por lábios farisaicos e hipócritas. Vem de pessoas que lotam as igrejas nestes dias e abraçam Cristo, o Esposo, embora ainda carreguem dentro de si paixões brutais e profundamente enraizadas que distorceram suas almas. Apesar disso, aparentam ser pessoas virtuosas e piedosas que amam a Deus. São pessoas que afirmam amar a vida espiritual, mas que preferem o mundo e seus prazeres passageiros. Pessoas que parecem humildes, mas que egoisticamente esmagam o próximo; que falam de justiça, mas que são impiedosamente injustas na defesa de seus próprios interesses. Dizem que lutam pela paz, mas perfidamente incitam altercações e hostilidades. São essas pessoas que, infelizmente, em grande medida, compõem a sociedade.
O beijo redentor é dado por lábios humildes, cheios de arrependimento. Vem de pessoas que amam Jesus profunda e existencialmente. De pessoas que O amam principalmente com ações, e não com palavras, que compreenderam que Deus é o seu Criador e que, para se realizarem como pessoas, precisam estar unidas a Ele. São pessoas que sabem quem são e se esforçam para ser como Deus quer que sejam. Sacrificam silenciosamente algo de si mesmas, algo da sua vida social, por amor a Cristo e ao próximo. Sem calcular o preço, são pessoas que confessam em todos os momentos e lugares, em palavras e ações, a sua profunda fé em Deus. É verdade que essas pessoas são difíceis de encontrar nos nossos dias, mas são elas que lançam um pouco de luz sobre as nossas vidas e até mesmo mantêm a nossa sociedade de pé.
Neste grande dia, examinemos seriamente os dois abraços a que nos referimos e lembremo-nos de que o fim de Judas, que deu a Cristo o beijo da traição, foi a autodestruição eterna. Enquanto a redenção da meretriz, que lhe deu um beijo redentor, era eterna. Sigamos esse caminho.
Arquimandrita Kyrillos (Kostopoulos)
tradução de monja Rebeca (Pereira)







