Semana Santa… Sete dias verdadeiramente especiais — os mais intensos e profundos de todo o ano litúrgico. Dias em que ocorreram os eventos mais importantes da história da humanidade. Dias em que aconteceram os eventos mais surpreendentes. Os mais aterrorizantes.
E entre esses dias, a Sexta-feira Santa se destaca.
Uma lembrança dos extremos a que uma pessoa pode chegar quando deseja se tornar dona da própria existência em uma luta insana e insensata contra Deus. Uma lembrança do preço imensurável da nossa redenção. Uma lembrança… Não — uma revelação do amor divino que transcende toda medida e compreensão.
“Deus é Amor”… Estas são as palavras mais belas e inspiradoras já ditas ou escritas. Não um tirano, não um perseguidor nos punindo por todos os nossos erros, pecados e até crimes, mas o Amor. Mas o que é esse Amor em sua essência? Como ele se manifesta, como podemos vê-lo, reconhecê-lo, senti-lo?
Naqueles momentos em que nos regozijamos e exultamos como crianças, quando cada instante parece um presente maravilhoso? Quando nossos desejos e sonhos mais profundos se realizam? Ou quando, ao contrário, tendo chegado ao fundo do abismo do desespero, somos subitamente libertados da desgraça, da doença ou da tristeza — involuntariamente, de forma completamente inesperada?
Sim, também nesses momentos, mas apenas parcialmente, em uma medida muito pequena, limitada pela nossa capacidade de percepção. Limitada pela nossa frivolidade, pela nossa preocupação com o momento presente e conosco mesmos neste momento.
E quando mais? E também… Também — quando vamos à igreja na Sexta-feira Santa e de repente congelamos diante do Crucifixo, como se o víssemos pela primeira vez. Congelamos porque somos abalados até o fundo da alma por aquilo que antes mal roçava a superfície da nossa consciência. Esta Cruz… Esta coroa de espinhos na cabeça… Estas gotas de Sangue… Estas mãos e pés perfurados por pregos… Tudo isso é a revelação mais impressionante, mais completa e mais clara do que é o amor de Deus, o seu testemunho, a sua manifestação.
Não existe uma única resposta para a pergunta de por que o Senhor escolheu este caminho específico para a nossa salvação, e quem somos nós para exigir tal resposta? Que direito temos de exigi-la? Mas sou particularmente atraído pela ideia de que o Senhor quis nos mostrar que não há nada que Ele não esteja disposto a fazer por nós — não importa a humilhação, não importa o sofrimento, não importa a dor. Para que possamos acreditar que somos verdadeiramente tão infinitamente queridos para Ele. Para que possamos entender que não há ninguém mais próximo de nós. Para que não nos desesperemos ou nos desanimemos quando nossos pecados nos tornarem repulsivos até para nós mesmos: nunca somos repulsivos para Ele, mesmo quando resistimos, pois foi precisamente sobre aqueles que resistiram, e ainda mais sobre aqueles que O crucificaram, que as palavras da Cruz foram proferidas: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. E os braços estendidos na Cruz nada mais são do que um abraço, aberto ao mundo inteiro, não apenas a alguns escolhidos, mas a cada pessoa nele.
Somos insensíveis e, pior, indiferentes. Nossas almas se tornam vazias e estéreis por causa de nossos pecados. Sentimos a frieza e a hostilidade do mundo ao nosso redor, que nós mesmos criamos. E não seremos salvos a menos que nossos corações, igualmente frios e hostis, sejam aquecidos pelo amor. Um amor como ninguém mais pode encontrar em outra pessoa, um amor cuja verdade jamais duvidaremos, um amor que nunca cessará, não importa o que façamos ou criemos para ele. Um amor que vemos crucificado na Cruz.
Tudo neste dia — Sexta-feira Santa — tem o propósito de nos despertar e reavivar. Para que finalmente compreendamos, ao menos em parte, o que aconteceu no Gólgota e antes. Para que nos horrorizemos ao perceber que tudo isso aconteceu não apenas por nossa causa, mas também por nossa própria culpa. Para que nos envergonhemos de como vivemos, tendo sido comprados, redimidos a um preço tão inimaginável.
Qual é a nossa salvação? Ela reside em sentir o amor Divino e em responder a ele. E, tendo respondido, segui-lo aonde quer que ele nos leve, permitindo que ele faça conosco o que quiser, confiando nele completa e absolutamente.
Confiar… isso é justamente o mais difícil. Parece que tememos que algo muito importante, algo muito necessário, algo sem o qual não podemos viver, nos seja tirado. Tememos que o Senhor nos prive de algo infinitamente precioso. E assim não confiamos. Lutamos. Resistimos. Literalmente, escapamos de Suas mãos.
E Ele… E Ele, para nos ensinar um exemplo de confiança, para nos ajudar a superar esse medo tolo e infantil, faz tudo o que lembramos na Sexta-feira Santa. O Criador Se entrega nas mãos da criação. Deus Se dá ao homem. Ele confia nele, permitindo que faça o que bem entender. Ele, o Todo-Poderoso, que criou tudo com um único gesto de Sua vontade, torna-Se completamente indefeso, vulnerável. O que O torna assim? Somente o Amor.
E é o Amor, somente o Amor, que pode nos inspirar a abraçar essa mesma indefesa e vulnerabilidade. Pode nos convencer a confiar nele sem medo, sem tremer a cada minuto ao pensar aonde isso nos levará. Pode abolir nossa resistência, nossa luta absurda e fatal contra Ele, e assim nos salvar.
E Ele nos salva. E a Sexta-feira Santa é a sua revelação, terrível e impressionante, mergulhando em uma dor inimaginável e transformando-a em uma alegria inimaginável.
Igumeno Nektary (Morozov)
tradução de monja Rebeca (Pereira)







