“DESPOJANDO-NOS DOS PECADOS DA CARNE PELA CIRCUNCISÃO DE CRISTO”

Segundo a Lei Mosaica – uma lei já dada a Abraão pelo próprio Senhor – todos que desejassem ser membros do povo de Israel, o povo escolhido de Deus, precisavam se submeter a uma operação sangrenta específica. Essa lei se estendia a todos os homens. A circuncisão, como era chamada, era realizada. O sinal da circuncisão permanecia por toda a vida. Era uma lembrança de que aquela pessoa era membro do povo de Israel.

Mas quase tudo o que aconteceu no Antigo Testamento era apenas uma sombra indicando algo que estava prestes a se manifestar. O Antigo Testamento sempre fala do Novo Testamento que viria. Muito do que ocorreu no Antigo Testamento apontava – às vezes claramente, às vezes indiretamente – para eventos que se cumpririam na vinda de nosso Salvador, Jesus Cristo, e depois d´Ele. Assim, a circuncisão corporal servia como um sinal da nova circuncisão no Novo Testamento, uma circuncisão que não era mais corporal, mas espiritual. O que é essa circuncisão espiritual? O Senhor Jesus Cristo disse repetidamente: “Se alguém quiser vir após Mim, isto é, após o Senhor Jesus Cristo, para o Reino dos Céus, para a glória de Deus, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me”. Essa abnegação é o que significa circuncisão espiritual. Mas o que significa negar a si mesmo? Significa negar o pecado que penetrou a alma e o corpo de todos; significa que negar o pecado é equivalente a negar a si mesmo.

O homem está repleto de toda sorte de paixões, que o corroem como um câncer, uma doença que se alastra pelo corpo e cresce às suas custas; somente uma operação difícil e dolorosa pode salvá-lo. Assim, com o pecado é necessário, por assim dizer, operar, circuncidar – isto é, circuncidar o pecado, cortá-lo – para que o homem permaneça saudável.

Pois assim como sem a circuncisão, que no Antigo Testamento ocorria no oitavo dia após o nascimento de uma criança, alguém não podia entrar na sociedade do povo escolhido, também sem a circuncisão espiritual um cristão não pode entrar no Reino de Deus.

Precisamos realizar essa operação espiritual em nós mesmos constantemente: todos os dias, poderíamos até dizer a cada minuto. Oferecerei alguns exemplos que demonstram como podemos realizar essa circuncisão espiritual em nós mesmos. Aqui, alguém se senta para comer, se deixa levar pelo apetite e, embora já esteja satisfeito, continua a encher o estômago e, se possível, continua a beber, até que, por fim, se transforma de pessoa em algum tipo de animal. As coisas pioram ainda mais quando lidamos com sentimentos e desejos carnais e licenciosos. O mesmo se aplica a outros pecados.

É preciso reconhecer essas doenças e, por assim dizer, circuncidá-las, abstendo-se da gula, da embriaguez e de todos os atos carnais: é preciso cortá-las para fora de nós. Na maior parte dos casos, porém, o homem não consegue fazer isso sozinho, pois foi feito escravo do pecado e do diabo, que está sempre o incitando a cometer todo tipo de pecado, afetando seus nervos, seu corpo e – se o Senhor permitir – afetando também sua mente, corrompendo-a de tal forma que ele possa, por exemplo, comer em excesso a ponto de sofrer muito depois.

Outro exemplo: surge a ideia de alguém ir a algum lugar para comemorar. É evidente que, se essa pessoa for a algum lugar, seja à casa de um vizinho ou a outro local, certamente falará bobagens, julgará e fofocará, além de se embriagar e coisas do gênero. Se ela esteve na igreja naquele dia e recebeu certa graça e amparo espiritual, ao sair perderá tudo e assumirá um estado demoníaco.

Portanto, o homem precisa circuncidar todos esses pensamentos, desejos e intenções pecaminosos desde o início. “Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra”, diz o Senhor, “mas o sétimo dia é a festa do Senhor teu Deus”. Portanto, procure não ir a lugar nenhum neste dia; fique em casa, leia a palavra de Deus e ore em pé, se possível e se as circunstâncias permitirem, ou então ore em silêncio, mantendo a disposição espiritual que adquiriu na igreja; não fuja para lugar algum, não fale ociosamente, não julgue ninguém e assim por diante.

Saímos da igreja, aparentemente depois de orar, e caminhamos pela rua. O que fazemos? Olhamos ao redor: ali está fulano; aquela pessoa está indo para algum lugar; observamos o tipo de nariz que ela tem, o tipo de rosto; aquela pessoa ali é bonita; olhamos pela janela. Assim, antes de chegar em casa, já teremos cometido mil pecados. Esses são os tipos de pensamentos dispersivos que nos fazem olhar, ouvir e ver coisas que não deveríamos. É disso que precisamos nos livrar, circuncidar.

Inveja, mentiras, engano, vaidade – e por aí vai! Quantos pecados se agarram ao homem, aparentemente se tornando parte dele. Somente com muita dor e esforço, invocando o Nome de Deus – “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade e ajuda-me!” – e somente com oração, empenho e esforço é que podemos nos livrar deles.

Por isso, o Evangelho afirma frequentemente que o Reino de Deus só pode ser conquistado pela força, pelo esforço, pela dedicação. O homem deve permanecer sempre em estado de atenção, clamando: “Senhor, tende piedade!”. O que significa dizer: “Senhor, tende piedade”? Significa estar vigilante, isto é, estar atento a si mesmo, lutar contra todo pecado – não apenas em atos, mas também em palavras, pensamentos e sentimentos, extirpando-os e circuncidando-os. Não podemos fazer isso sozinhos: a maior parte disso não conseguimos fazer, porque estamos tão atolados no pecado. Portanto, invoque o Nome de Deus: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, socorre-me!”. Assim, o homem deve estar atento a si mesmo durante toda a sua vida, da infância à morte, a cada dia e a cada minuto; não deve ceder à vontade dos olhos, dos ouvidos, especialmente da língua, nem a quaisquer desejos; Ele não deve se permitir fantasias, mas deve rejeitar tudo o que é insensato, cortando e destruindo tudo com a ajuda da invocação do Nome de Deus, do Nome do Senhor Jesus Cristo.

Devo dizer, com muita tristeza, que as pessoas que aparentam ser razoáveis, pessoas que aos olhos de muitos parecem estar na vanguarda, não entendem o que estou dizendo a vocês.

Elas pensam que, se alguém vai à igreja de vez em quando, e se lê Acatistes e o Saltério em casa, e cuida das tarefas domésticas, já fez tudo e ninguém pode ser melhor. E se faz algumas prostrações de vez em quando ou lê o Ofício da Meia-Noite, então ninguém pode estar acima dela. Ela julga a todos e não vê que ela mesma está cheia de pecado, que em toda a sua vida nunca lutou, que nunca se atentou a si mesma, que nunca se purificou, que nunca trabalhou em nada disso. Portanto, permanece cheia de pecados: gula, embriaguez, fornicação, toda sorte de impureza, inveja, orgulho, condenação, conversa fiada, ódio, inimizade e lembrança do mal. Assim, muitas vezes acontece que alguém completamente cheio de toda sorte de pecado e abominação, alguém repugnante ao Senhor, se considera justo porque vai à igreja e ocasionalmente lê o Saltério e alguns Acatistes. Mas será mesmo assim?

Acatistes, Serviços Divinos, oração e jejum foram dados ao homem para ajudá-lo a expulsar de si toda sorte de impureza, a se circuncidar e a carregar a sua cruz na luta contra o pecado. O Senhor nos auxilia enviando ajuda na forma de aflições involuntárias. Por exemplo, se alguém não consegue vencer a gula, a embriaguez ou a fornicação, o Senhor envia a doença. Se alguém é orgulhoso ou vaidoso, o Senhor o humilha diante de todos, tornando-o a pessoa mais insignificante aos olhos das pessoas. Se um cristão está preso à terra e todas as suas forças, desejos e sonhos são direcionados para a aquisição de prosperidade terrena, justa ou injustamente, por meio de roubo ou trapaça, o Senhor lhe tirará tudo o que possui. Assim, o Senhor também acrescenta aflições involuntárias aos nossos esforços na luta contra os pecados, como auxílio nessa batalha. A cruz de cada cristão é formada por essa luta contra o pecado e por essas aflições involuntárias.

Se um cristão realmente entende seu próprio chamado e o significado das aflições, então ele carregará resignadamente a sua cruz. Mas se ele não entender isso, começará a reclamar e a julgar o próprio Senhor: “Por que o Senhor me envia aflições, doenças e coisas semelhantes? Será que sou pior do que os outros?” E isso nos mantém fora do Reino de Deus.

Assim, no Evangelho, vemos que o Senhor está constantemente dizendo que devemos ser vigilantes, que devemos estar atentos a nós mesmos, que devemos carregar a nossa cruz de lutar contra o pecado e suportar as aflições, e que devemos negar a nós mesmos. Se o próprio Senhor foi crucificado por nós, se Ele Se tornou o Cordeiro de Deus Que tomou sobre Si os pecados do mundo, se Ele sofreu por nós – então nós, cristãos, devemos tomar as nossas pequenas cruzes e sofrer na batalha contra o pecado para nos purificarmos, para nos tornarmos dignos de entrar não em algum lugar que se assemelhe a algo terreno, mas no próprio Reino de Deus, de estar em comunhão com o Senhor, de nos tornarmos filhos de Deus. Mas é preciso trabalhar para isso, amar o Senhor, agradecer-Lhe e implorar-Lhe que nos ajude a sermos purificados dos nossos pecados e que nos dê forças para carregar a nossa cruz até o fim das nossas vidas.

Assim como o Senhor desceu da cruz para o túmulo e ressuscitou, também nós precisamos descer da nossa cruz para o túmulo a fim de alcançarmos o Senhor na ressurreição eterna. Portanto, ao longo de nossa vida terrena, precisamos negar a nós mesmos, circuncidar-nos de todo pecado e carregar a cruz que o Senhor nos deu sem murmurar, com gratidão, suplicando-Lhe que nos ajude a viver como cristãos, a morrer como cristãos e a herdar o Reino de Deus preparado para todos os verdadeiros seguidores de Cristo desde a criação do mundo, onde todos brilharão como o sol na alegria inefável da Luz Divina. Amém.


Igumeno Nikon (Vorobiev)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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