O Segundo Domingo da Grande Quaresma surge como uma extensão do Domingo da Ortodoxia. Neste dia, a Igreja celebra a vitória sobre outra forma de heresia, uma heresia que questionava a salvação da humanidade em um segundo nível: o da maneira como a fazemos nossa. E o líder da Igreja na luta contra essa heresia foi Gregório Palamas, Arcebispo de Tessalônica.
São Gregório Palamas nasceu em 1296. Ele tinha pais tementes a Deus e abastados. Aos sete anos, perdeu o pai e o próprio imperador assumiu a supervisão de seus estudos, que o destinaram a altos cargos públicos. Ao mesmo tempo, porém, ele já estava familiarizado com a vida ascética no contexto de sua própria casa e foi iniciado na Oração de Jesus por Teólipos, outro monge que mais tarde se tornou Metropolita de Filadélfia. Mas enquanto o imperador o preparava para um alto cargo, Gregório preferia a vida monástica.
No outono de 1316, aos vinte anos, partiu para o Monte Athos com seus dois irmãos mais novos, Macário e Teodósio. Durante os três primeiros anos de sua estadia, viveu sob a orientação espiritual de um asceta chamado Nicodemos, na fronteira das terras do Monastério Sagrado de Vatoipaidi. Após a morte de Nicodemos, mudou-se para o cenóbio da Grande Lavra e, posteriormente, retirou-se para um eremitério.
Em 1325, ataques dos turcos forçaram Palamas, assim como outros habitantes do Monte Athos, a fugir da península. Ele foi para um eremitério no Skete de Veria, onde viveu por cerca de cinco anos em estrita ascese. Em 1331, alguns sérvios o forçaram a abandonar a região de Veria e retornar ao Monte Athos, onde contina a viver como eremita no eremitério de São Sabas. Foi ali que ele tomou conhecimento das ideias de Barlaão, um teólogo e filósofo da Calábria, no sul da Itália.
Barlaão era ortodoxo e aceitava todos os dogmas da Igreja formulados pelos sete Concílios Ecumênicos. Portanto, ele não apresentou nenhuma visão herética no primeiro dos dois níveis que mencionamos [na parte 1], mas apresentou no segundo: sobre a maneira como nós, como pessoas, nos relacionamos com a salvação de Deus. Barlaão não disse que Cristo ou o Espírito Santo foram criados, como fizeram os arianos e os pneumátomas (“Contendores contra o Espírito Santo”), mas afirmou que a energia de Deus, isto é, a Sua graça, com a qual a humanidade é salva, é criada. Mas isso significaria, novamente, que as pessoas não entram em um relacionamento direto e pessoal com Deus e não estão unidas a Ele, mas sim a alguma criação Sua. E, no que diz respeito à nossa salvação, essa afirmação não era diferente daquela que os arianos e pneumátomas propagavam.
Nossa salvação é um evento ontológico. Ou seja, é um evento que abrange toda a existência de uma pessoa e é realizado por meio da comunhão e união direta e pessoal com Deus. É a transferência da vida divina que perdemos com a apostasia de Adão e Eva. As pessoas não são salvas aprendendo verdades específicas ou adquirindo certos conhecimentos teóricos sobre Deus. E Deus não salva as pessoas fornecendo informações sobre Si mesmo, mas vindo a elas como pessoa humana, sem deixar de ser Deus. Ele as salva com Sua vida e morte, com Sua Cruz e Ressurreição.
Todo o mistério da dispensação de Deus concernente à nossa salvação foi resumido por São Paulo em uma frase: “Grande é o mistério da piedade: Ele Se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto pelos anjos, pregado entre as nações, crido pelo mundo e recebido na glória”. Este mistério é vivenciado no âmbito espiritual da Igreja. Em essência, este mistério é idêntico ao da Igreja. É por isso que a Igreja, que realiza o mistério da nossa comunhão e união com Deus, é descrita por São Gregório Palamas como “uma comunhão de deificação”.
Uma comunhão de deificação significa uma comunhão que prepara e produz deuses, deuses pela graça. Este era, em todo caso, o plano pré-eterno de Deus para nós, humanos, como indica a expressão “à semelhança de Deus”: as pessoas deveriam se tornar deuses, participando da graça do Deus Trino. Mas a implementação do plano de Deus requer nosso consentimento e cooperação. Deus nos dotou de liberdade e não impõe nada pela força. É por isso que o objetivo que Deus nos estabeleceu só se concretiza por meio de nossa cooperação independente. E, visto que a raça humana se corrompeu após nossa apostasia de Deus, precisamos trabalhar para reencontrar nossa verdadeira essência, pela graça de Deus, e progredir rumo ao objetivo que Deus nos destinou. A Igreja nos convida a cada um a se engajar nessa luta, particularmente agora, no tempo da Grande Quaresma.
São Gregório foi o homem certo para levar essa luta a uma conclusão vitoriosa. Este grande teólogo da Igreja nos ensina, acima de tudo, a importância de as pessoas reencontrarem seu verdadeiro eu, de direcionarem seus caminhos para Deus e de apropriarem-se do grande dom da salvação que Deus oferece. Ele nos ensina a importância de as pessoas se voltarem para si mesmas, de trazerem seu intelecto fragmentado para o coração e de ouvirem o convite que Cristo lhes faz: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a Minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e ceiarei com ele, e ele co´Migo”. Essas verdades e esse modo de vida foram o que São Gregório defendeu contra Barlaão. Essas verdades e esse modo de vida foram o que Barlaão, e aqueles que pensavam como ele, questionaram e contra o que lutaram.
Poderíamos dizer que, com o ensinamento de Barlaão, não temos uma simples heresia, mas sim a completa subversão e demolição do dom da dispensação divina. Para usar as palavras de São Simeão, o Novo Teólogo, sobre um fenômeno análogo em sua época, tratava-se de uma doutrina que “subverte toda a dispensação de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo e rejeita claramente a restauração da imagem danificada”.
São Gregório Palamas defendeu a autêntica tradição da Igreja, que era a mesma desde o princípio, no Oriente e no Ocidente. Lutou pela remoção dos desvios que levaram ao cisma. Combateu o ensinamento de Barlaão de que a energia de Deus é criada e enfatizou que, com Sua graça incriada, Deus entra em comunhão pessoal com as pessoas, une-Se a elas e as deifica. Dessa forma, promoveu o Cristianismo genuíno, apoiou a Ortodoxia e manteve aberto o caminho para que as pessoas alcancem a deificação.
A ruptura entre a vida cristã e a Igreja que ocorreu nos últimos anos distorceu o Cristianismo e favoreceu a secularização. E como a secularização se estabeleceu e se enraizou primeiro no Ocidente, e depois se espalhou para o Oriente como uma característica importada, é óbvio que o Ocidente dominaria essa situação. Por isso, é natural que as sociedades secularizadas do Oriente estejam em uma posição inferior em comparação com as do Ocidente e sejam constantemente conduzidas por elas a uma série de impasses. Desprezamos nossas raízes autênticas, rejeitamos nossas riquezas espirituais, esquecemos nossa orientação transcendental e buscamos a modernização, caminhando descalços sobre os espinhos da secularização.
Em um momento crítico da história, São Gregório Palamas ofereceu imensas riquezas para o sustento da Igreja e da nação grega por meio de seus ensinamentos e de sua vida. Não apenas em sua época, mas durante todo o período sombrio do domínio turco que se seguiu. E ainda hoje, sua personalidade e seus ensinamentos são um legado valiosíssimo, que podemos utilizar como apoio e para o nosso futuro. Para o nosso curso na história, para o nosso diálogo com o mundo globalizado, cristão e não cristão, e para a nossa sociedade fragmentada.
Em conclusão, gostaria de fazer duas observações de especial significado e relevância nos dias de hoje. Uma delas diz respeito à vida de São Gregório Palamas e a outra aos seus ensinamentos.
Quando Palamas foi consagrado Arcebispo de Tessalônica em Constantinopla e partiu para Tessalônica para assumir o cargo, deparou-se com a revolta dos Zelotes, que o impediram de entrar na cidade. Palamas retirou-se pacificamente para o Monte Atos, onde levou uma vida ascética, como antes, por cerca de um ano. Em seguida, o Rei dos Sérvios, Estêvão Dušan, que, devido à agitação civil e à revolta dos Zelotes, aproveitara a oportunidade para expandir sua autoridade sobre uma parte significativa da Macedônia, visitou o Monte Athos e tentou seduzir o arcebispo, que ainda estava impedido de assumir sua sé, com promessas lisonjeiras de poder político, amplas jurisdições e uma farta fonte de riqueza. A essas propostas, o arcebispo, abatido pelas preocupações, respondeu com a seguinte nobreza:
“Não preciso de poderes, jurisdições e fundos abundantes. Se pegarem uma esponja capaz de absorver um cálice de água e a jogarem no Mar Egeu, ela jamais absorverá a imensidão do mar, mas apenas a quantidade equivalente a um cálice, que é sua capacidade natural, deixando o restante daquela vasta massa líquida intocado. Eu sou igual. Desde cedo aprendi a viver com pouco, tornou-se algo natural, e me satisfaço com o essencial. Portanto, mesmo que me ofereçam todo o ouro da Terra e das profundezas da Terra, mesmo que me peguem e me joguem, em corpo e alma, nas águas do mítico Rio Paktolos, eu não aceitaria nada além do meu alimento diário e outras necessidades. Assim, falar de seus muitos e grandes presentes e concessões financeiras não me comove nem me interessa”.
O outro ponto está ligado, como já dissemos, aos seus ensinamentos. Como um “pregador da graça”, São Gregório enfatizou que a energia de Deus e Sua graça, por meio das quais as pessoas são salvas, não são criadas. Em outras palavras, Deus não salva as pessoas por meio de alguma característica criada que atue como intermediária entre Ele e elas, mas Ele mesmo entra em comunhão e união direta e pessoal com elas. Por sua vez, as pessoas devem se aproximar de Deus direta e pessoalmente. É por isso que a oração, que estava no centro de sua disputa com Barlaão, não é meramente a lembrança de Deus ou o movimento do intelecto humano em direção a Deus, como Barlaão afirmava, mas sim comunhão e união pessoal com Ele, e isso culmina na Sagrada Comunhão.
Oração significa referência a uma pessoa. E as pessoas que realmente oram sentem a presença da Pessoa a Quem sua oração é dirigida. A Oração de Jesus (Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim), em particular, que Palamas afirmava que deveria estar continuamente nos lábios de todos os fiéis, é sua principal recomendação e exortação às pessoas em nossos dias. Recomendação e exortação para nossa restituição e o restabelecimento de nossa comunhão com Deus e com nossos semelhantes.
Georges Mantzaridis
tradução de monja Rebeca (Pereira)








