No Primeiro Domingo da Grande Quaresma, nossa Igreja celebra a vitória da Ortodoxia sobre as heresias. O evento histórico específico que serviu de base e principal motivação para esta celebração foi a vitória da Igreja na controvérsia iconoclasta. Os iconoclastas afirmavam que o uso de ícones era anticristão. A veneração do ícone de Cristo não era aceita, nem a honra prestada aos ícones e relíquias dos santos. Essa posição não era superficial, mas profunda, a ponto de rejeitar qualquer representação de Cristo, o que, no fim, levou à rejeição de Sua encarnação e de Sua presença como uma pessoa genuína no mundo. Essa conclusão da visão iconoclasta manifesta sua natureza herética; demonstra que realmente se tratava de uma heresia.
Nem todo conceito teológico equivocado é uma heresia; nem mesmo a má interpretação de alguns pontos das Escrituras ou da tradição da Igreja. Como sugere a etimologia da palavra [αἱρέομαι = preferir, selecionar], trata-se da seleção de uma parte da verdade teológica e de torná-la absoluta. Ou seja, uma heresia segmenta a verdade, seleciona uma parte dela, torna-a absoluta e, dessa forma, distorce e abusa dela como um todo. Quando, por exemplo, Arios ensinou que Cristo era um ser humano perfeito, ele não estava mentindo; estava dizendo a verdade. Mas não estava dizendo toda a verdade, mas apenas uma parte; não prosseguiu dizendo que Cristo era também Deus perfeito. E assim, distorceu e abusou de toda a verdade cristã. Ele não reconheceu a união da natureza divina e humana na pessoa de Cristo, que é o fundamento da união da pessoa humana com Deus, isto é, nossa salvação e deificação (glorificação). Ele menosprezou os fundamentos do Cristianismo e criou uma heresia.
Assim, o cerne da heresia para o Cristianismo reside no fato de depreciar a união de Deus e da humanidade, que se fundamenta na pessoa de Cristo, que era tanto Deus quanto homem. A heresia, em outras palavras, ridiculariza a possibilidade da salvação das pessoas, o que equivale à sua deificação.
O propósito da nossa criação é que sejamos deificados. Fomos criados “à imagem e semelhança” de Deus. Somos criaturas de Deus e fomos chamados por Ele para nos tornarmos como Ele; para nos tornarmos deuses; não, é claro, por natureza, mas pela graça, para usar termos teológicos. Mas isso não poderia ser alcançado após a rebelião de Adão e Eva contra Deus e sua sujeição ao pecado. Nossa restauração à “semelhança”, ou deificação, é a nossa salvação.
Toda a história sagrada do Antigo Testamento, que culmina na encarnação de Deus em Cristo, manifesta a ação da dispensação divina para a salvação do mundo. E a Igreja é o lugar espiritual no qual se desdobra a salvação da humanidade.
Como afrontas a essa salvação, surgiram na história da Igreja heresias em dois níveis: a) no nível da afronta à própria salvação que Deus nos oferece, como foi o caso do docetismo, arianismo, nestorianismo, monofitismo e assim por diante; e b) no nível da afronta à plena aceitação dessa salvação pelas pessoas, como foi o caso de Barlaão, que travou uma luta contra a Igreja, que tinha São Gregório Palamas como seu protetor.
As antigas heresias denegriam a salvação no primeiro nível, isto é, no nível da salvação que nos é oferecida por Deus. A menos que Cristo fosse um verdadeiro ser humano, isto é, a menos que Ele tivesse um corpo humano real, mas simplesmente aparentasse tê-lo, como afirmavam os hereges mais antigos, os chamados docetistas, aos quais se opunha particularmente São João, o Apóstolo e Evangelista; se Ele fosse meramente humano, como afirmaram posteriormente os arianos, ou apenas Deus, como ensinavam os monofisitas; ou se Ele fosse tanto Deus quanto humano, mas com duas naturezas separadas que não estavam unidas em uma só pessoa, como acreditavam os nestorianos; ou mesmo se Ele fosse apenas Deus perfeito, mas não também homem perfeito, como diziam os apolinoristas, então a obra da salvação não teria sido realizada em toda a sua plenitude.
Como ensinam as Escrituras e os Padres da Igreja, as pessoas são salvas quando são recebidas por Deus, quando são reconectadas e unidas à fonte de sua vida. Todas as heresias antigas rejeitaram, em parte ou totalmente, essa fé e ensinamento da Igreja. E assim, denegriram a experiência que os membros da Igreja tiveram desde o princípio: a comunhão com Cristo, a participação no corpo e no sangue de Cristo, era, na verdade, comunhão com Deus, participação na vida divina.
A iconoclastia foi uma forma de resumir ou recapitular as heresias antigas. E assim, durante o período da controvérsia iconoclasta, que durou mais de um século (726-843), algumas variações das antigas ilusões das heresias anteriores ressurgiram. Por isso, na celebração da Ortodoxia, menciona-se a condenação de todas as heresias e a proclamação da fé inabalável da Igreja, em sua tradição ininterrupta: “Como os Profetas viram; como os Apóstolos ensinaram; como a Igreja recebeu; como os Mestres dogmatizaram; como o mundo inteiro concordou… assim pensamos, assim falamos, assim proclamamos” (Sinodikon do Sétimo Concílio Ecumênico).
A iconoclastia era uma espécie de ideologia religiosa que questionava e, em última análise, rejeitava o fato da encarnação de Deus, condição essencial para a renovação do mundo e a deificação da humanidade. Se Cristo não pode ser representado, significa que Ele não é realmente humano. Um ícone de Cristo declara e sublinha a verdade da encarnação divina. Ele projeta a presença de Deus, que apareceu no mundo para salvar a raça humana.
Todas as antigas heresias que surgiram no primeiro milênio depois de Cristo foram abordadas pelos sete Concílios Ecumênicos. Sínodos Ecumênicos. E a vitória da Ortodoxia, celebrada pela Igreja no Primeiro Domingo da Grande Quaresma, destaca-se como uma vitória contra essas heresias, que questionavam a salvação que nos é oferecida por Deus.
Georges Mantzaridis
tradução de monja Rebeca (Pereira)








