Na véspera do Domingo do Fariseu & do Publicano, eu estava ocupada escrevendo uma história sobre os Novos Mártires e Confessores da Rússia. Antes da vigília noturna, eu planejava escrever uma cena importante na qual um oficial de segurança apareceria pela primeira vez.
Até então, tudo estava indo bem.
Tudo corria bem enquanto eu escrevia sobre os novos mártires, sem tentar vê-los por dentro, entendendo que a santidade é um estado impossível de descrever sem vivenciá-la. Isso seria o que Santo Inácio (Brianchaninov) chamou de ilusão, uma fantasia pomposa, uma mentira. Portanto, mostrei os santos apenas de fora, através dos olhos de outros personagens.
Com esses outros, foi muito mais fácil, porque eram pessoas fortes em alguns aspectos, fracas em outros, que caíam e se reergueam, pessoas em quem “a luz e as trevas se misturavam”. Tentei incorporar esses personagens, compreender e transmitir sua maneira de pensar, sua visão de mundo, seu universo interior.
E naquela noite, tropecei. Aconteceu quando o oficial de segurança apareceu em cena — sem alma, impiedoso, cruel.
Percebi que não sabia como descrevê-lo: precisava desvendar suas motivações, olhar para dentro dele, mas… me senti completamente impotente. Como, pensei, como posso descrever um homem assim?!
Não temos nada em comum, nenhum ponto em comum!
“Eu só preciso entender”, disse a mim mesma, impotente, “como… eles podem ser assim?!”
E fiquei gelada.
E como eu poderia?
“Eu?!” sussurrou uma voz interior. “O que isso tem a ver comigo?”
Minha consciência respondeu.
A crueldade ressurgiu em minha memória — de passagem, a malícia — por causa da pressa. O ridículo — cáustico. A indiferença — por causa do tédio. O calor não correspondido — não, até mesmo o gelo e o frio — com que eu recebia aqueles que esperavam atenção e amor de mim.
Traições fugazes, quase cotidianas – de si mesmo, dos entes queridos, de Deus.
“Sim, mas não fiz isso conscientemente”, tentei me agarrar ao último bastião. “Pelo menos eu estava de luto!”
A questão não é a magnitude do pecado, mas sim o fato de o escolhermos.
Qual o sentido disso? Tantos suspiros de arrependimento, tantos tristes “Senhor, perdoa-me” — e onde estão os frutos? Onde está a mudança, a revolução, o arrependimento que queima os pecados e transforma a alma em uma alma pura, amorosa e alegre?
“O apóstolo Paulo”, diz o Metropolita Anthony de Sourozh, “tem uma passagem em que afirma que a questão não é a magnitude do pecado, mas sim o fato de o escolhermos. Creio que podemos imaginar isso da seguinte maneira: Há um rio que flui entre o Reino de Cristo e o reino de Satanás; em alguns trechos é estreito, em outros é possível atravessá-lo quase a pé, em outros se torna profundo, caudaloso, largo, mas a questão não é… “Não é o local onde atravessamos este rio, mas sim o fato de termos deixado o Reino de Cristo e de Deus para entrar no reino de Satanás: é tão simples e tão aterrador! O pecado é uma escolha entre Deus e o Seu adversário, entre a vida e a morte, entre a luz e as trevas.”
E atravessei este rio inúmeras vezes.
É claro que eu jamais (Deus me livre!) causaria a alguém o tipo de mal que meu personagem causou… Mas entre figuras geométricas não existem apenas relações de igualdade, mas também relações de semelhança. E um pequeno triângulo pode facilmente assemelhar-se a uma figura colossal. Assim, numa pequena traição reside o germe do assassinato. De certo modo, todos esses pecados “são a nossa participação na crucificação” (Metropolita Anthony de Sourozh).
Dois gestos de bondade, compaixão sincera e misericórdia podem aquecer a alma para sempre.
Mas até mesmo o mal — o menor dos males — pode ferir, pode trazer escuridão, feiura e decepção para a vida de alguém, e…
“Quanto disso pesa na minha consciência?”, perguntei ao meu fariseu interior, finalmente percebendo e ouvindo o sussurro lisonjeiro: “Você não é como os outros…”
Ele se calou. Que Deus lhe conceda isso por muito tempo.
E de repente percebi como Chesterton estava certo:
“Um homem nunca será bom até que perceba o quão mau ele é, ou o quão mau ele pode se tornar; até que perceba o quão pouco direito ele tem de sorrir com desdém e falar sobre ‘criminosos’,”como se fossem macacos em algum lugar numa floresta distante; até que ele esprema a última gota do óleo farisaico de sua alma…”
Naquela noite, na véspera do Domingo do Fariseu & do Publicano, eu já não escrevia mais minha história. Eu me preparava para a confissão.
Olga Shishkina
tradução de monja Rebeca (Pereira)








