Na Tradição da Igreja Ortodoxa, estar de pé durante os ofícios litúrgicos, mais que uma postura corporal, é a imagem de uma atitude interior. Bispos, sacerdotes e diáconos permanecem de pé como quem se coloca dentro da chama da presença de Deus, da oração da Igreja, do serviço que não pertence a si mesmo, mas ao Corpo inteiro de Cristo.
Os Santos Padres sempre compreenderam a Liturgia como um lugar de fogo. São João Crisóstomo fala do altar cercado por anjos. São Germano de Constantinopla descreve a Liturgia como a participação visível no culto celeste. Diante disso, o ministro não é um apresentador, nem um administrador de ritos. Ele é alguém que entra no mistério e se deixa consumir por ele, como a sarça que ardia sem se destruir.
Isso exige atenção. O coração precisa estar inteiro no que se faz. Cada gesto, proclamação e silêncio tem peso espiritual. Quando o ministro se dispersa, quando se deixa capturar por pensamentos paralelos, preocupações externas ou pequenos detalhes que não pertencem ao momento sagrado, ele se afasta do fogo e o seu serviço perde densidade. A Liturgia continua, mas o coração já não está totalmente presente.
Os Padres são firmes nesse ponto. Evágrio do Ponto ensina que a distração na oração é uma das formas mais sutis de combate espiritual. Santo Isaac, o Sírio, lembra que Deus não Se revela ao coração dividido. Na Liturgia, essa verdade se torna ainda mais concreta, porque o ministro reza em nome de todos. A sua distração não é apenas pessoal. Ela empobrece a oração da assembleia.
Bispos, sacerdotes e diáconos não estão ali para “cumprir uma função”, nem para observar o ambiente, nem para se ocupar de questões paralelas enquanto o ofício acontece. Estão ali para servir, e servir significa oferecer atenção total. A Liturgia pede presença inteira: corpo, mente e coração. Quando isso acontece, o ministro se torna transparente para o mistério celebrado.
Focar no serviço não é rigidez, nem tensão, mas vigilância. Sabendo que aquele tempo não nos pertence, os ministros veem que são poucos os lugares onde o ser humano pode estar tão claramente diante do mistério como na Liturgia. Por isso, os Padres insistem na sobriedade interior, no silêncio do coração, na guarda dos sentidos.
De pé na chama, o ministro aprende que não é ele quem sustenta a Liturgia. É a Liturgia que o sustenta. Quanto mais ele se entrega ao serviço, menos espaço há para distrações. Quanto mais ele permanece atento, mais o fogo aquece, purifica e ilumina.
Essa chama não consome quem se coloca diante dela com humildade, mas o transforma. Essa transformação é talvez um dos maiores testemunhos que um bispo, um sacerdote ou um diácono pode oferecer ao povo de Deus: servir sem se dispersar, rezar sem se dividir, estar de pé, inteiro, na presença do Senhor.
29.12.2025
+ Bispo Theodore El Ghandour








