Sermão do Metropolita Tikhon de Simferopol e Crimeia na Quinta-feira Santa, 9 de abril de 2026
Quinta-feira Santa. Entre os muitos eventos que determinaram o destino do mundo naquela noite, há um — assustador e devastador. A Igreja exige que o contemplemos, como o abismo dentro de nós mesmos: Cristo aos pés de Judas.
No Cenáculo, nessas horas finais antes de Sua execução, Deus realiza algo que, em última análise, mina nossas noções estabelecidas de justiça, retribuição e a lógica da força. Habitualmente percebendo o lava-pés como um símbolo perfeito do ícone da mansidão, às vezes nos escapa à terrível autenticidade desse evento.
No Cenáculo, há um homem que já avaliou a vida de seu Mestre em trinta moedas. E Deus Se curva diante dele.
O Evangelho enfatiza: Jesus sabia quem o trairia. Não foi um erro, nem, muito menos, um ato de amor “cego” que não vê o mal. Foi um serviço previdente. Diante de nós está o Todo-Poderoso, que vê o abismo do ódio por Si mesmo no coração de Judas, vê as moedas de prata em sua bolsa, vê o beijo preparado no Getsêmani. E, diante de tudo isso, Ele toma em Suas mãos o pé do traidor, escurecido pela mistura pegajosa de sujeira da estrada e suor.
Aqui termina Deus, o Juiz, agindo segundo o princípio de “olho por olho”. Aqui começa Deus, que luta pelo homem até o último momento. Deus lava os pés daquele que, dentro de uma hora, virá para matá-Lo. Deus é tão livre que Se permite servir ao Seu inimigo numa última tentativa de salvá-lo.
Muitas vezes esperamos que Deus faça chover trovões e relâmpagos sobre os ímpios. Queremos que o mal seja detido por intervenção externa. Mas na Quinta-feira Santa, Deus escolhe um caminho diferente. Ele não age de acordo com a nossa compreensão humana. Ele não denuncia Judas publicamente, não paralisa a sua vontade, não o impede de partir. Ele não faz tudo o que o velho teria feito. Deus Se ajoelha diante dele e lava os seus pés.
Este é o julgamento mais terrível, esmagador e insuportável que se possa imaginar — o julgamento do Amor. O Amor não é impotência diante do triunfo do mal, mas a plenitude do poder Divino. Deus é tão inabalável em Sua liberdade de seguir até o fim pelo caminho que Ele mesmo determinou para Si — o caminho da salvação da humanidade — tão acima de quaisquer circunstâncias na Sua determinação de permanecer fiel a Si mesmo e de estar acima de toda malícia humana, que Judas não é um inimigo para Ele, mas apenas mais uma alma impura que precisa de purificação.
O preço dessa decisão não é a proteção de Cristo por Sua Divina Onipotência; Ele a renuncia. Não, o preço é o suor de sangue do Getsêmani com a súplica: “Meu Pai, se possível, afasta de Mim este cálice”. Os pregos da crucificação, as palmas laceradas que lavaram os pés do traidor. O sofrimento incompreensível, as lágrimas da Mãe do Calvário aos pés da Cruz. A visão dos discípulos fugindo. E Seu grito: “Meu Deus, Meu Deus, por que Me abandonaste?!”
A humildade de Deus é um desafio que não pode ser ignorado. E aqui há dois caminhos: ou você esmaga seu egoísmo sob o amor divino, ou se torna completamente insensível.
Sabemos da livre escolha de Judas. É a autodestruição. O silêncio gélido do traidor diante de Cristo, ajoelhado enquanto Ele lava seus pés, representa o endurecimento máximo da alma. É impossível suportar alguém que, em resposta à nossa baixeza, lavou nossos pés; isso inevitavelmente leva à autodestruição.
Cristo aos pés de Judas é uma lembrança eterna de como Aquele que ensinou sobre o amor aos Seus inimigos o pratica. E, mais importante, de como Deus Se relaciona com cada um de nós nos momentos de nossa queda. Em cada pecado, em cada traição da consciência, ocupamos o lugar de Judas. E a cada vez, Deus Se curva diante de nós repetidas vezes, realizando nossa purificação.
Mas até mesmo a possibilidade da purificação divina é destruída pela nossa liberdade de nos tornarmos cegos e surdos, perdendo em nossos corações tanto o som da água caindo em uma bacia quanto o silêncio ensurdecedor de Deus, que Se ajoelha diante de nós e aguarda nossa resposta, não tendo outra arma senão o Seu silêncio.
Metropolita Tikhon (Shevkunov) de Simferopol e Criméia
tradução de monja Rebeca (Pereira)






