HOMILIA DO DOMINGO DA VENERAÇÃO DA CRUZ
Estas são as palavras do antigo e grande profeta Isaías. Estas palavras são dirigidas a nós, vossos pastores, pois sobre nós recai o dever de vos ensinar. Não apenas de vos mostrar o caminho de Cristo, mas de demonstrar o nosso amor e cuidado sinceros por vós.
E eu vos amo, o rebanho que Deus me confiou, como a minha própria família. Não sei eu quais são as vossas dores, quantas lágrimas derramais, e não tenho a obrigação de vos consolar?
Procuro cumprir esta obrigação neste dia, o grande dia da Veneração da Cruz de Cristo.
Quando vos ensinamos o caminho de Cristo, sempre vos exortamos a lembrar-vos das Suas palavras sobre como estreitas são as portas e reto o caminho que conduz ao Reino de Deus; que neste mundo tereis dores.
As dores são a sina de todos os cristãos.
Você pergunta: somente os cristãos sofrem? As pessoas que rejeitaram o caminho de Cristo também não sofrem diversas tristezas, infortúnios e amargura? Elas também não derramam lágrimas?
Sim, certamente, as tristezas são inevitáveis para elas também. Mas aos olhos de Deus há uma grande diferença de valor entre as nossas tristezas e lágrimas e as tristezas e lágrimas daqueles que vivem sem Deus. Eles não suportam suas tristezas voluntariamente, mas apenas porque não conseguem se livrar delas de forma alguma. Muitas vezes, suportam as tristezas com maldições e murmurações, mas nós, cristãos, devemos suportar as nossas tristezas — que estão ligadas ao Nome de Cristo — de uma maneira completamente diferente, com total submissão à vontade de Deus e com gratidão a Deus por tudo o que nos acontece. Gratidão pelo bom, pelo difícil, pelo amargo e por todas as nossas tristezas.
Suportamos as nossas tristezas voluntariamente, pois se renunciássemos a Cristo, estaríamos livres da maioria das nossas tristezas. Mas, como não renunciamos a Ele, suportamos nossos sofrimentos voluntariamente, e Deus nos abençoa por eles. Pois grande é o valor do nosso sofrimento e das nossas lágrimas aos olhos de Deus.
Vocês sabem como as pessoas mundanas se esforçam para se livrar das tristezas: afogam suas mágoas e tristezas em vinho e vodca, ou se entorpecem com tabaco e até drogas.
Mas será isso digno de nós, cristãos? A voz da nossa consciência não é silenciada ao máximo pelo vinho e pelo tabaco? Oh, isso é profundamente indigno, e que Deus nos livre de usar esses meios de silenciar a consciência, tão repugnantes a Deus.
As pessoas mundanas buscam consolo em suas tristezas e, quando o encontram, tentam esquecê-las. Buscam entretenimento, vão a festas, visitam as casas uns dos outros e se envolvem em conversas vazias.
Que isso jamais aconteça conosco, pois um cristão não deve abafar a voz da sua consciência, mas, ao contrário, deve ouvi-la atentamente.
Eles buscam abafar suas tristezas por meio de amizades; no mundo antigo, a amizade era muito valorizada. Mas vocês não sabem como o apoio humano é pouco confiável em comparação com o de Deus?
Pessoas de maior status espiritual buscam esquecer suas tristezas e sofrimentos no trabalho intenso, em suas obras. Esse meio de aliviar as tristezas é, sem dúvida, incomensuravelmente superior a abafá-las com vinho, entretenimento, danças e festas. O trabalho abafa a tristeza por um tempo, mas não se pode trabalhar sem interrupções, porque, uma vez concluído o trabalho, a voz da consciência voltará a incomodar, e as tristezas profundas ressurgirão. Não se alcançará o efeito desejado por meio do trabalho.
A coisa mais elevada na qual as pessoas encontram alívio é o amor mútuo — o amor entre cônjuges, o amor dos pais pelos filhos, o amor por pessoas dignas de amor.
Todo amor é bendito, e este amor também é bendito. Mas este é o princípio, a forma mais básica de amor. Do amor conjugal, aprendendo com ele, devemos ascender a um amor muito maior por todas as pessoas, por todos os desafortunados, por todos os que sofrem. Desse amor, ascendemos a um terceiro nível de amor — o amor divino, o amor a Deus. Veja bem, até que as pessoas alcancem o amor por todos, o amor divino, seu amor apenas por sua família e amigos não tem grande significado.
Aqueles que buscam consolo nas tristezas nos lugares errados jamais o encontrarão em lugar algum.
Onde, então, podemos encontrar consolo nas tristezas? O profeta David fala sobre isso: “Só em Deus a minha alma encontra descanso”. Em Deus, em Deus, na lei de Deus ele encontrou consolo. E ele não está sozinho nisso — todos os justos do Antigo Testamento o encontraram nisso, pois então pessoas que não conheciam Cristo (pois Ele ainda não havia vindo ao mundo) encontraram profundo conforto em sua dor, em um coração que se voltava para a oração, nessa comunhão espiritual com Deus.
Bem-aventurados são eles, bem-aventurados esses justos do Antigo Testamento, mas incomensuravelmente mais bem-aventurados são aqueles que vieram a conhecer a Cristo, que são instruídos na lei de Cristo, que escolheram o caminho de Cristo. Bem-aventurados são aqueles a quem a mais alta forma de consolação está acessível — a consolação do próprio Cristo. Pois não é essa consolação, escondida na cruz de Cristo, a consolação mais profunda e eterna?
Diga-me: se você carrega em seu coração a cruz de Cristo, se você frequentemente contempla, ao menos com os olhos da mente, Ele crucificado na cruz, isso não produz uma impressão muito profunda, uma comoção profunda em seu coração? Pois, o que vemos quando contemplamos a cruz de Cristo?
Vemos o Filho de Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Deus feito homem, o Santo dos Santos, o Grande Justo, o Benfeitor da raça humana, que supera em muito tudo o que o mundo já viu ou verá. Vemos Ele pregado com pregos de ferro na cruz. Vemos Ele sofrendo terrivelmente — Ele que, com um simples gesto de mão, com uma só palavra, ordenou que as ondas e o vento cessassem; Ele que, no decorrer de sua breve vida na Terra, realizou milagres extraordinários — milagres necessários por seu amor, sua compaixão pelas pessoas. Vemos pendurado na cruz Aquele que curou todas as doenças, que abriu os olhos dos cegos, que levantou os paralíticos de seus leitos; Aquele que alimentou milhares de pessoas com apenas alguns pães; Aquele que ressuscitou os mortos. Vemos um grande Benfeitor, Salvador e Libertador do poder do diabo. A Cruz de Cristo é terrível, pois o estandarte de Cristo expulsa os demônios, que fogem em terror e confusão, porque da Cruz de Cristo jorrou uma corrente imensurável de amor — amor que destrói o mal e a inimizade do diabo e seus demônios.
Portanto, se vemos na Cruz o Libertador do mundo, Aquele que tira os nossos pecados, tendo-se tornado sacrifício por todos nós, os ímpios, então o que são as nossas dores, não importa quantas, não importa quão pesadas? O que são elas comparadas às lágrimas que escorreram por Suas faces divinas, ou ao fluxo de sangue que jorrou de Seu lado transpassado pela lança e avermelhado Sua Cruz? O que são todas as nossas dores, comparadas a isso?
E quando vocês forem penetrados por esses pensamentos e sentimentos, quando contemplarem a Cruz de Cristo com todo o coração trêmulo, somente então receberão a verdadeira — a única verdadeira — consolação.
Por que, então, precisaríamos de qualquer outra consolação, se nos foi dada esta, a maior de todas as consolações? Afinal, nos foi dada a Cruz, que agora veem erguida diante de vocês, e que lhes damos para beijar. Não é esta a mais elevada forma de consolação? Não extraímos continuamente enorme força desta fonte de consolação? As Sagradas Escrituras estão repletas desta consolação — basta que delas se extraiam, basta que se voltem para as Sagradas Escrituras, para a Cruz de Cristo; e então receberão a única consolação verdadeira e eterna.
Leiam atentamente as palavras do apóstolo Paulo e memorizem-nas: Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e o Deus de toda consolação, que nos consola em todas as nossas tribulações, para que possamos consolar os que estão passando por tribulações, com a consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus (2 Coríntios 1:3-4).
Posso testemunhar isso. Testemunho de todo o meu coração a profunda verdade das palavras de São Paulo, testemunho por minha própria experiência, pois o Senhor me consolou em minha grande tristeza.
Posso dizer que, na medida em que suas dores se multiplicarem em Cristo, sua consolação em Cristo se multiplicará. Lembrem-se, por favor, lembrem-se: quanto maiores forem suas dores, maior será sua consolação.
Somente Cristo pode nos consolar; buscaremos consolação somente n´Ele; somente na Cruz de Cristo expulsaremos a apatia, a tristeza e a murmuração.
É por isso que a Cruz de Cristo é trazida para vocês neste dia santo, para atraí-los a Ele, Àquele que foi crucificado na Cruz. Com grande alegria vemos como multidões de pessoas se apressam para ver a cruz exaltada e ouvir o hino: “Diante da Tua Cruz, nos prostramos, ó Mestre”.
Que poder nos atrai aqui? Por que há tantas pessoas na Igreja de Deus? O poder invisível de Deus os atrai, o poder de Cristo os atrai para consolá-los, para enxugar suas lágrimas. E se assim é, quem somos nós, fracos e pecadores, para tentar acrescentar algo a esta consolação? Não a nós, não a nós… Mas que o próprio Deus guie seus corações em amor divino e paciência cristã.
Amém.
São Lucas da Criméia
tradução de monja Rebeca (Pereira)








