CONSELHOS INESPERADOS DE “A ESCADA SANTA”: SÓ ISSO JÁ FAZ VALER A PENA A LEITURA

Na Igreja, nós, leigos, somos constantemente advertidos contra o excesso de literatura monástica ascética. Por que, então, “A Escada” nos é tão persistentemente recomendada durante a Quaresma?

Quase não existem registros documentais sobre São João o Clímaco, que entrou para a história da Igreja como autor de uma obra-prima da literatura espiritual, o livro “A Escada”. Segundo a tradição, ele nasceu por volta de 570 em Constantinopla. Aos 16 anos, mudou-se para o Egito, encontrou-se com o Ancião Martírios no Monastério do Sinai e, quatro anos depois, recebeu a tonsura monástica. Viveu por 19 anos em estrita obediência ao seu Pai Espiritual. Após a morte deste, retirou-se para o deserto e viveu como eremita, dedicando-se ao jejum e à oração por 40 anos. No final da vida, aos 75 anos, João foi eleito Abade do Monastério do Sinai. Porém, ocupou tal obediência, somente por quatro anos.

Mas foi durante esses anos, a pedido do Abade do Monastério de Raifa, que ele escreveu sua famosa “Escada” — um guia para a perfeição espiritual, incorporando tanto as tradições ascéticas dos monastérios egípcios quanto as próprias experiências e reflexões do autor sobre elas.

A partir do século IX, João Clímaco passou a ser venerado como santo na Igreja Bizantina, e a Regra da Igreja estipulava que “Escada” fosse lida durante os Serviços Religiosos da Quaresma e que seu autor fosse comemorado no quarto domingo.

Os trinta degraus da “Escada” são trinta discursos sobre a ascensão do homem “de força em força” rumo à perfeição, que só pode ser alcançada gradualmente — nas palavras do Salvador: “O reino dos céus é tomado à força, e os violentos se apoderam dele” (Mateus 11:12). Os primeiros 23 “degraus” são dedicados aos pecados, os 7 restantes às virtudes.

Mas tudo começa com um capítulo sobre a fuga do mundo. Isso estabelece imediatamente que esta leitura é destinada principalmente aos monges. Quanto aos monges, o primeiro “degrau” menciona brevemente que, se refrearem a língua da mentira e da calúnia, as mãos do roubo, a mente da arrogância e o coração do ódio, permanecerem próximos da Igreja, forem compassivos com os necessitados, não ofenderem ninguém e não tocarem no que pertence a outros, então já estarão próximos do Reino dos Céus.

E, no entanto, vale a pena lê-lo — pelo menos uma vez na vida. Ele coloca muitas coisas em perspectiva e oferece uma avaliação precisa daquelas falsificações brilhantes que muitas vezes tendemos a considerar virtudes. Veja, por exemplo, aquele mesmo “ascetismo” zeloso no mundo, que, segundo João Clímaco, é frequentemente alimentado pela vaidade. Portanto, a questão não é tanto que pecamos muito, mas que até mesmo nossos melhores impulsos são envenenados pelo pecado.

E São João também mostra — o que também é útil para todos saberem — o caminho do desenvolvimento da paixão na alma humana: do surgimento de alguma imagem na mente à completa subjugação da vontade (“sugestão”, “combinação”, “composição”, “cativeiro”, “luta” e, finalmente, “paixão”).

E ele explica que existe “outro pensamento… mais sutil, chamado lampejo de pensamento, que atravessa a alma tão rapidamente que, sem palavra, imagem ou tempo, revela instantaneamente a uma pessoa sua paixão oculta”. Das paixões, ele considera as mais importantes o amor à glória, a luxúria e a avareza, que dão origem às outras: ira, rancor, desânimo, vaidade e orgulho.

Em essência, da nossa perspectiva mundana, podemos facilmente ver no autor um psicólogo observador, inteligente e perspicaz, descrevendo tipos de pessoas, seus estados interiores, inclinações, paixões, erros, artifícios de autoengano e as dificuldades do autocontrole. Contudo, diferentemente do psicólogo secular, ele considera que o principal objetivo da vida humana na Terra é a ressurreição da alma — mesmo antes da ressurreição geral — e a conquista da vida eterna. E ele vê as paixões da luxúria, da avareza e da vaidade como as principais causas da destruição humana ao longo do tempo.

Então, o que fazer com tudo isso? Você pode, é claro, tapar os ouvidos, fechar os olhos e fugir do mundo. Mas a tentação não o deixará; ela já envenenou sua memória e seu coração com sua doçura tóxica. E então João Clímaco oferece um conselho inesperado: “Beba diligentemente a reprovação, como a água da vida, de todos aqueles que querem lhe dar esse remédio (…) pois então uma profunda pureza brilhará em sua alma, e a luz de Deus não faltará em seu coração.” Acontece que, se seu chefe de repente o “incomoda” sem motivo algum, é simplesmente um remédio amargo, mas salvador: graças a ele, os sonhos pecaminosos darão lugar a um amargo ressentimento em sua alma (que logo passará), e assim Deus o conduzirá para longe do abismo à beira do qual você pode já estar. Só para ver uma situação como essa, vale a pena ler “A Escada”.

Este livro não é um Typikon; não contém regras nem instruções. Mas há coisas muito mais importantes nele que geralmente simplesmente não vemos. E a leitura cura essa cegueira.


Marina Borisova
tradução de monja Rebeca (Pereira)

Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

17 visualizações

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recentes