Ao longo da vida, uma pessoa considera muitos inimigos. Esses inimigos podem incluir indivíduos ou nações inteiras, partidos políticos e sociedades secretas; podem ser tão impessoais quanto a pobreza ou a doença. Somente após a morte é que uma pessoa percebe plenamente que uma sogra maldosa e um chefe estúpido, um vizinho trabalhando com uma furadeira depois das 23h na casa ao lado e um ex-amigo que espalhou calúnias não são nada assustadores em comparação com o inimigo principal, que se revelou em toda a sua força. Nosso maior inimigo é o pecado. É ele que nos impede de alcançar o céu, quando os pensamentos sobre nossa sogra, chefe e vizinho se dissipam como fumaça. “A alma se alegraria em entrar no céu, mas os pecados não a deixam entrar”, dizem as pessoas, de forma sucinta e precisa.

Ah, se não fosse pelo pecado! Quão belo, forte, talentoso e nobre seria o homem! Quantas virtudes floresceriam em nossas almas se o pecado não definhasse a mente, turvasse a visão, endurecesse o coração e transformasse uma pessoa em um cadáver ainda em vida! “A ferrugem corrói o ferro, mas a mentira corrói o homem”, diz um dos personagens de Tchekhov. Começando com um engano diabólico, injetado como veneno nos ouvidos de uma esposa confiante, o pecado envenenou a raça humana e a sujeitou a uma morte dolorosa. Se sentirmos apenas a amargura das perdas morais infligidas pelo pecado, as palavras de uma das orações de São Demétrio de Rostov se tornarão claras: “Restitui-me as virtudes perdidas pelo pecado”.

Após a Queda, o mundo se torna dual. Muitas coisas correm o risco de se tornarem — e às vezes se tornam — ambíguas. O próprio pecado é ambíguo. Por um lado, é conhecido e, por outro, oculto. Que o pecado é conhecido é expresso por David em seu salmo penitencial: “Conheço as minhas iniquidades, e o meu pecado está sempre diante de mim” (Salmo 51:5). David também fala do ocultamento do pecado, mas em um salmo diferente: “Quem pode discernir os seus pecados? Purifica-me dos meus pecados secretos” (Salmo 19:13).

Frequentemente confessamos essa dualidade do pecado quando nos arrependemos de pecados “voluntários e involuntários, conhecidos e desconhecidos”.

Quais pecados são mais perigosos? O primeiro ou o segundo?

O pecado mais perigoso é aquele que pode gerar outros pecados e, assim, multiplicar-se e espalhar-se. O maligno não é um criador. Ele é meramente um mestre em falsificações hábeis. E se se diz de Deus e de Sua criação que “as coisas visíveis não foram feitas” (Hebreus 11:3), então o mesmo pode ser dito dos pecados. Dos pecados invisíveis, dos pensamentos demoníacos aceitos e internalizados, das falsas intenções, surgem todos os outros tipos de pecados — visíveis, audíveis e perceptíveis.

É um grande erro pensar que conheço meus próprios pecados com precisão. Claro, sei algumas coisas, e é por isso que costumo repetir: “Meu pecado está sempre diante de mim”. Mas há tanta coisa que desconheço, pois “quem pode discernir os seus próprios pecados? Purifica-me dos meus pecados ocultos”.

O conhecimento, mesmo que apenas teórico, de que qualquer pessoa é capaz de cometer todos os pecados pode humilhar profundamente nossas almas. Alguém poderia argumentar com arrogância: como a Terra pode suportar esses vilões e esses pecadores? Eu, dizem, certamente sou capaz de cometer este ou aquele pecado. Mas que eu faria isso (aqui, algo muito feio, na opinião de quem fala, é mencionado)?! Jamais!

Você provavelmente já ouviu conversas assim. Talvez até já tenha proferido monólogos semelhantes. Mas não gostaria de saber que não apenas as pessoas, mas também o próprio Senhor, ouviram esses monólogos? E Ele, o Senhor, que conhece a podridão interior do homem, tem o direito de pesar e provar os filhos dos homens. Muitos, tendo sido provados, logo após seus discursos orgulhosos, fizeram exatamente o que disseram: “Eu?” “Jamais.” “Você foi pesado na balança e achado em falta”, estava escrito por uma caligrafia misteriosa na parede durante o banquete de Belsazar (Veja: Daniel 5:27). Quem desconhece o estado de seu interior pecaminoso e, portanto, profere “palavras arrogantes e vazias” (2 Pedro 2:18), certamente se verá “em declínio”.

Aproximamo-nos do mais sábio pedido que Santo Efrém nos ensina: “Assim também, ó Senhor e Rei! Concede-me ver as minhas próprias faltas e não julgar o meu irmão.”

Este pedido oferece proteção contra o cometimento de novos pecados.

Aqueles que desconhecem seus pecados e não enxergam sua diversidade, a ponto de se darem conta da gravidade da situação, serão forçados a pecar repetidamente, de forma clara e tangível, e serão contaminados repetidamente, apenas para finalmente, em meio aos tormentos da consciência, enxergarem com clareza e confessarem: “Esta palavra é fiel e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1 Timóteo 1:15).

Mas aqueles que compreendem sua própria natureza doentia e pecaminosa se humilham sem acrescentar pecado a pecado, simplesmente pela humilde consciência de sua própria fraqueza.

Além disso, o conhecimento das próprias enfermidades desencoraja qualquer desejo de investigar os erros e fraquezas alheias. Esse conhecimento fecha os ouvidos à fofoca, impede o julgamento, mata a malícia e expulsa a inveja. Onde está a vaidade? Onde está a busca pela despreocupação e pelo prazer? Alguém que chora sobre o próprio cadáver é realmente capaz de se interessar por notícias do mundo do entretenimento?

O mundo sedutor lava sua maquiagem e remove suas joias falsas diante de nossos olhos, transformando-se de uma beleza em uma vadia murcha se algumas lágrimas pelos nossos pecados lavarem nossa visão.

O mundo se desvanece aos nossos olhos quando nos arrependemos, mas nossos semelhantes crescem! Idealmente, para uma pessoa arrependida, as pessoas ao seu redor são vistas como ícones vivos. Através da poeira da estrada e da escuridão do pecado, o olhar arrependido vê a imagem de Deus nas pessoas.

Quem odeia a humanidade? Uma pessoa presunçosa e orgulhosa.

Quem ama a humanidade? Um adorador humilde.

As pessoas são belas no Espírito Santo. Uma pessoa arrependida vê os outros como santos e apenas a si mesma como pecadora. E este, talvez, seja um estado pré-paradisíaco.

***

Eis dois cães, engasgando de raiva, latindo um para o outro. Sobre o que estão latindo? “Eu sou bom. Você é mau!”, late um. “Eu sou bom. Você é mau!”, responde o outro, sem um pingo de originalidade. Aposto que você já ouviu diálogos parecidos.

Mas Zosima, curvando-se até o chão, pede a Maria no deserto: “Abençoe-me, Mãe”. E ela, curvando-se ainda mais, responde: “Abençoe-me, pois és um sacerdote”. E por um longo tempo, nenhum dos dois ousa pronunciar a bênção primeiro, mas tudo o que se ouve de ambos é: “Abençoe-me você”. – “Não, você me abençoe”.

***

Se não fosse pela Grande Quaresma, se não fosse pela Santa Igreja, com suas riquezas abertas a todos, mas não universalmente buscadas, há muito tempo teríamos desistido e caído de joelhos. Mas, graças a Deus, a Igreja existe, e a Vida de Maria do Egito é lida durante a quinta semana, e a oração de Santo Efrém continua a ressoar.

“Concede-me ver as minhas faltas e não julgar o meu irmão, pois bendito és Tu pelos séculos dos séculos. Amém!”


Arcipreste Andrey Tkachev
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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