COMO DISTINGUIR A AUTOCRÍTICA DO ARREPENDIMENTO

A confusão sobre este assunto é um problema bastante comum. Eis uma pergunta típica de fiéis modernos:

Como podemos obter o arrependimento? Onde podemos encontrá-lo? Como devemos implorar ao Senhor? Tenho inúmeras visões de pecado e sinto remorso e desânimo, mas nenhum arrependimento, e é só isso. Não há mudança na minha mente. E tenho implorado há tantos anos, aparentemente com sinceridade. Quem pode me dizer por que é assim? O que depende de mim? O que preciso fazer para mudar isso?

O arrependimento, ao contrário da autocrítica,¹ é um sentimento muito prático, se me permitem dizer. Consideremos esta tese em uma situação específica do dia a dia.

Por exemplo, alguém se desentende com um colega de trabalho — e não qualquer pessoa, mas alguém que tenta analisar seu comportamento em termos de bem e mal e busca mudar para melhor.

A autocrítica imediatamente lhe impõe uma montanha de pensamentos tristes: sobre seu mau caráter, sobre situações semelhantes do passado, sobre suas inúmeras tentativas de se corrigir e, principalmente, sobre a futilidade e ineficácia delas.

Tudo termina, em regra, com o desespero habitual, quando um homem, triste com sua imperfeição, joga a toalha, figurativamente falando, em relação à salvação de sua alma, e se entrega ao entretenimento, mergulhando em frente à tela. Ou bebe… e também se entrega ao entretenimento; ou ao trabalho, ou às tarefas domésticas, aos hobbies, à melancolia — as possibilidades são inúmeras.

O arrependimento, porém, primeiro o levará a uma ação.

“O que você vai fazer?”, pergunta a introspecção ao homem novamente. “Você não está fazendo essa pergunta retoricamente? Não? Você realmente quer fazer alguma coisa? O que poderia ser mais simples! Você precisa reparar as consequências dos problemas que causou aos outros; pedir perdão, ajudar os outros, demonstrar um pouco de consideração pelos seus colegas de trabalho…”

“Não vai funcionar”, declara a introspecção. “Vai ser tudo artificial, ridículo… Eles não vão entender.”

“O que significam ‘não vai funcionar’ e ‘eles não vão entender’?”, pergunta o arrependimento. “Você se sentiu ofendido? Doeu? Agora tente amenizar as consequências, pelo menos um pouco.”

“Vou me curvar a eles, bajular, e eles vão ficar discutindo pelas minhas costas que estou fazendo isso à força”, a autocrítica te cutuca.

“Bem, isso é verdade”, o arrependimento te lembra timidamente. “É forçado. Não importa o que eles queiram dizer com essa palavra — o importante é o que você quer. Você quer consertar alguma coisa, não é?”

“Quero sim”, a autocrítica resmunga. “Não quero ofender ninguém, quero que todos sejam felizes, quero que todos sejam sempre carinhosos e alegres comigo… É isso que eu realmente quero, mas não funciona para mim!”

“Isso é demais”, o arrependimento se maravilha. “’Todos e sempre!’ Nem mesmo o próprio Senhor consegue agradar a todos. No entanto, com essas pessoas específicas e nesse caso específico, você não pode alegrar a vida delas? Simplesmente porque você lhes deve algo agora. E, de qualquer forma, há uma boa chance de que elas ainda sintam sua boa vontade — se ela existir dentro de você, é claro.”

“Mas não os meus colegas de trabalho!” a autocrítica irrompe imediatamente. “Eles são simplesmente… Simplesmente! Arrogantes. Indisciplinados. De mente fechada. Vulgares… Eles me ofendem, me caluniam, zombam de mim, me ignoram… Eles me devem ainda mais! Mais!!!”

E eis que chega o momento da verdade: descobrimos que não queríamos, de fato, enxergar nossa própria culpa nessa discussão. Queríamos evitar uma briga, manter a confortável sensação de estarmos certos, mas sim reconhecer nossos próprios erros… Não queríamos isso.

Exatamente a mesma coisa acontece em relações familiares que chegaram a um impasse: você ouve alguém se criticando e se condenando: algo está errado com ele; ele é um cônjuge ruim, um pai de família incompetente, um cristão indigno… Mas em cada argumento específico, ele está certo! Ou melhor, ele está certo, e ponto final! Ou porque o outro cônjuge se cansou e foi forçado a estar errado… e, no geral, ele está certo!

***

Normalmente, quando alguém se converte à fé, experimenta o paradoxal alívio que o arrependimento pode proporcionar. Ao admitirmos nossa indignidade, nos humilhamos e aprendemos, por experiência própria, que o jugo do Senhor é suave e o Seu fardo é leve.

E, de fato, se você está certo, mas há trevas profundas em sua alma, onde está a saída? Não há. Não é à toa que dizem que o inferno é um lugar onde todos estão certos. Mas quando você enxerga onde está errado, o quão errado está e com que frequência está errado, tudo se encaixa; tudo fica claro. As saídas aparecem, e são muitas.

O problema é que geralmente perdemos nossos dons iniciais da graça de forma assustadoramente rápida. Tendo recebido uma experiência gratuita, como o arrependimento, por exemplo, rapidamente começamos a considerá-la algo nosso, não temos medo de perdê-la, violamos as leis da preservação (geralmente por meio da condenação) e, claro, a perdemos. E a partir daí temos que trabalhar arduamente para recuperar ao menos algumas migalhas de nossa antiga riqueza.

Bem, certo: um homem percebe que “como o Filho Pródigo, desperdicei minha vida” (Hino do Domingo do Filho Pródigo), sente vergonha e deseja recuperar o que perdeu. Que caminho ele deve seguir?

Existem os conceitos patrísticos de humildade (smirennomudrie) e amor à sabedoria (lyubomudrie). Eles se referem ao comportamento de uma pessoa que ainda não adquiriu as virtudes da humildade e do amor, mas que está conscientemente tentando agir conforme prescrito. Adquirir o arrependimento exige o mesmo: você deve se esforçar para se comportar de maneira condizente com alguém que está se arrependendo.

Para começar, precisamos tentar entender exatamente onde está nossa culpa pelo ocorrido. Se isso não acontecer, por trás de nossas desculpas, como “Bem, me perdoe, me perdoe… a culpa é minha”, nosso interlocutor percebe, com razão, que não estamos admitindo nenhuma culpa, mas simplesmente o consideramos um maluco com quem é melhor não discutir; e ele se sente ainda mais ofendido.

Portanto, em qualquer conflito, precisamos nos esforçar para elevar nossos pensamentos a Deus, com preocupação pelo que aconteceu. Não se deixe abater pelas emoções, não se deixe consumir pelo ressentimento, mas ajoelhe-se imediatamente diante de Deus com preocupação e um pedido: “Senhor, o que eu fiz de errado aqui? Ou o que há de errado comigo em geral? Por que essa reação contra mim?”. Esta etapa esclarece se realmente queremos reconhecer nossa parcela de culpa na situação que se desenrolou.

Não é surpresa que não queiramos ver isso — afinal, nos obriga a fazer muito. Por trás da visão do seu erro, o penitente chega à conclusão de que deve estar disposto a sofrer por ele. E com o arrependimento profundo vem não só a disposição, mas também o desejo de sofrer. Lembramos como o ladrão na cruz expressou seu arrependimento? Em uma ação muito específica: ele considerou que merecia a pena de morte. O filho pródigo se considerou indigno de ser chamado de filho. Zaqueu distribuiu seus bens…

Vamos à confissão e dizemos: “Pequei”, mas então, mesmo antes de sairmos da igreja, já estamos armando uma batalha. Nós mesmos dizemos que somos pecadores; nós mesmos reconhecemos que não nos arrependemos… mas exigimos atenção e reconhecimento como se fôssemos melhores do que todos os outros. Não só não estamos prontos para suportar o sofrimento, como organizamos diretamente uma luta feroz por “prazer”. Um comportamento muito estranho: não há lógica nem bom senso nisso.

E acontece que somente quando um estado de impenitência nos leva aos portões do inferno é que apelamos a Deus com um desejo sincero de reconhecer nossos erros. E às vezes acontece que nem mesmo nesses momentos clamamos.

***

A autocrítica estabelece metas inatingíveis — aqui e agora — e depois nos atormenta com tristeza. Observe: ainda nos é oferecida a dor, só que essa dor não traz nenhum fruto bom.

O arrependimento é produtivo; ele ensina ações que trazem bons frutos. Neste caso específico, ele nos dirá pelo que pedir perdão, alertando-nos sobre o tom a ser usado. Então, ele deixará uma marca boa e profunda em sua memória, de que você é um homem desinibido em palavras e emoções; lembre-se de quantas vezes você errou, quantas vezes você ofendeu alguém…

E em outra situação, tendo essa marca diante dos seus olhos, você não apenas não discutirá com seus iguais, mas também perdoará ao mais jovem uma travessura ou uma palavra maldosa.

Pois não há homem justo na terra, disse o rei Salomão, que faça o bem e não peque. Também não dê atenção a todas as palavras que são ditas, para que não ouça o seu servo amaldiçoá-lo; pois muitas vezes o seu próprio coração sabe que você mesmo amaldiçoou outros (Eclesiastes 7:20-22).

Provavelmente, todo o segredo desse ato é que, quando feito com auto-compulsão, ele deixa marcas não apenas em nossa memória, mas também em nossos corações. O esforço para alcançar o arrependimento quebranta o coração — e Deus não despreza um coração quebrantado.

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1 Literalmente “que se come a si mesmo”—Trad.


monja Natália (Kaverzneva)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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