Deus nos pede, antes de tudo, que tomemos consciência de que Ele nos ama, que sintamos o Seu amor. Não podemos responder ao amor até que sintamos o amor de Deus.
Pergunta:
Como posso me conhecer verdadeiramente, como posso descobrir minhas paixões?
Madre Siluana:
Você precisa olhar ao seu redor para ver de quais pessoas você gosta menos e por quê. “Este homem fala muito alto e é convencido!” – isso significa que uma das minhas paixões é ser convencida! “Esta mulher é preguiçosa!” – portanto, eu sou preguiçosa. Anote isso e, observando os outros, comece a observar a si mesma. “Não quero ir para a escola porque estou cansada…” – será que eu sou realmente preguiçosa? E assim, descobrimos nossas paixões.
Precisamos também nos aproximar de Deus. Aproximar-se de Deus nos ajuda a enxergar nossas paixões, nossa mesquinhez – até mesmo São Pedro disse: “Afasta-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador!” (Lucas 5:8). Mas como podemos nos aproximar de Deus, se geralmente ficamos dando voltas em círculos? Pegue um fio de grama e diga: “Senhor, o Senhor me ama, porque este fio de grama é a Sua declaração de amor por mim!” E você ouvirá algo, você sentirá algo.
Observe coisas que você nunca observou antes. Olhe para seus dedos – que milagre! Se você observar seus dedos por apenas um minuto, é impossível não se emocionar e se maravilhar. Veja, que milagre, Deus ter me criado e me destinado a ser assim antes de todos os tempos. Este corpo que temos – vamos senti-lo, pois é o templo do Espírito Santo. Isso não é brincadeira. Que milagre!
E você se aproxima de Deus e diz: “Ai de mim, Senhor, fiz do Teu templo um santuário para ídolos!” E Ele dirá: “Não importa, Eu te amo! Eu te amo e virei para purificá-lo!”
Quando você repousa a cabeça em um travesseiro, você repousa no amor da pessoa que o fez. Mas não nos damos conta disso… buscamos grandes milagres. Que milagres? Veja, meus pés estão doendo, então estou sentado nesta cadeira e me sinto bem. E me sento aqui com você, olho para você e você olha para mim. Não é maravilhoso? Mas não percebemos essas coisas…
Então é assim que nos damos conta de que Deus nos ama. Há tantos detalhes que podemos notar, infinitos… e então descobrimos que somos grosseiros, somos miseráveis…
Deixe-me dizer mais uma coisa: Deus nem sequer nos pede para mudarmos tão rapidamente. Não… Ele nos pede, antes de tudo, que tomemos consciência de que Ele nos ama, que sintamos o Seu amor. Não podemos responder ao amor até que sintamos o amor de Deus. Queremos ser como o jovem do Evangelho (“Bom Mestre”, perguntou ele, “o que devo fazer para herdar a vida eterna?” – Marcos 10:17), queremos fazer algo para receber algo. Precisamos, antes de tudo, não fazer nada, precisamos simplesmente nos entregar a Ele, nos entregar em Suas mãos, nos mostrar a Ele. E essa nossa nudez diante d´Ele nos fará sentir a Sua presença e o Seu amor, e Ele nos revelará as nossas fraquezas e os nossos pecados. Isso nos incomodará depois.
Enquanto eu permanecer anônimo, posso fazer qualquer coisa. Se você passar por um grupo de soldados, eles gritarão obscenidades para você. Aproxime-se deles ou siga-os até o quartel e pergunte ao comandante: “Senhor, quero ver aqueles rapazes, eles falaram tão bem comigo e eu gostaria de conhecê-los melhor!” E você ficará surpreso com a timidez e a gentileza deles! Se você olhar nos olhos deles, eles não serão capazes de fazer nada de mal.
Se alguém gritar um insulto para você na rua, vá até essa pessoa, olhe-a nos olhos e diga: “Poderia repetir, por favor? Não entendi muito bem o que você disse.” E ela começará a hesitar e gaguejar… Por quê? Porque você prestou atenção nela, você a notou, e assim ela se tornou uma pessoa, um ser humano vivo. Já se você gritar de volta “Seu animal!”, então ela realmente se torna um animal, porque mal pode esperar para se comportar como um animal e abandonar sua responsabilidade de ser humano. Assim que rotulamos as pessoas, elas se sentem no direito de se comportar como tal.
Pergunta:
Como posso aceitar os outros como eles são?
Madre Siluana:
Você precisa fazer essa pergunta a Deus a cada instante. Um homem perguntou a Deus: “Senhor, como posso amar esta mulher?” — ele havia se casado e, após a lua de mel, descobriu que o casamento não era tão fácil. Então, perguntou: “Como posso amá-la?” E Deus respondeu: “Do jeito que Eu a amo.” Portanto, a pergunta que precisamos fazer é: “Senhor, como o Senhor ama essas pessoas?”
Boa gente, eu coloquei Deus à prova! Eu disse: “Senhor, se o Senhor me fizer amar esta ou aquela pessoa, então o Senhor realmente é Deus!” E eu lhes digo, Ele realmente é Deus! Mas vocês também têm remédios. Se alguém os magoar, vocês têm a oração pelos inimigos – vocês a guardam no bolso, tiram e leem. Não precisam sentir nada. Amor não é um sentimento. Deus não nos pede para beijarmos nossos inimigos ou escrevermos bilhetes de amor para eles. Ele nos pede para orarmos por eles, para nos abstermos da necessidade de nos vingarmos, para fazermos justiça a nós mesmos, para mostrarmos a eles o que podemos fazer… Conheci mulheres que eram espancadas por seus maridos e que ficavam felizes por ao menos terem insultado seus maridos e assim se sentiam “revigoradas”. Vamos rejeitar esse “revigoramento” infernal trazido pela vingança, pelos insultos, pelas palavras ruins.
Precisamos pedir a Deus força para aceitarmos nosso próximo: “Senhor, dá-me forças para suportar o mau cheiro desta pessoa”. Já contei esta história muitas vezes, então me perdoem se a repetir: eu estava viajando de ônibus em Bucareste quando um cigano começou a mostrar a língua para mim. Comecei a rezar: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de nós!”. Ele continuou fazendo isso… Imaginem eu, a “hesicasta”, e ele, o cigano… o que se pode fazer, cada um à sua maneira. E de repente ele colocou a cabeça no meu colo! E eu, sendo “hesicasta”, olhei para ele e pensei: “Senhor, o Senhor ama este homem, faça alguma coisa com ele!”. De repente, o homem se levantou, fez o sinal da cruz e começou a me contar sobre seus problemas com a esposa, que, segundo ele, era uma bruxa. Depois de um tempo, ele disse: “Preciso descer do ônibus aqui, mas deixe-me acompanhá-la até o seu destino para que eu possa protegê-la”. Eu disse: “Não se preocupe, Deus está me protegendo”. Ele respondeu: “Sim, eu percebi!”. Não sei o que Ele percebeu, só sei que eu disse: “Senhor, o Senhor ama este homem, faça algo com ele!” — e Ele fez!
E você também pode fazer o mesmo — simplesmente diga: “Senhor, eu não posso fazer nada!”, porque Ele disse: “Você não pode fazer nada sem Mim”.
“Senhor, por que me deste esses colegas de classe tão insuportáveis? Por que me deste esse colega de quarto – veja só como ele age…” E o Senhor dirá: “Por quê? Para te dar a oportunidade de amar com a Minha graça e não por impulso.” E quando as pessoas se sentem amadas, podem nos surpreender com suas reações.
Madre Siluana (Vlad)
tradução de monja Rebeca (Pereira)







