Homilia Dominical
Amados irmãos no Senhor,
Celebramos hoje o terceiro domingo do Triódio, que é um tempo litúrgico de preâmbulo para adentrar em outro tempo litúrgico: a Grande Quaresma, ou também chamada de “O Grande Jejum”.
Neste domingo a Santa Igreja Ortodoxa nos coroa com dois grandes mistérios: o Último Dia, o Dia do Temível Tribunal de Cristo ou do Juízo Final, e também o mistério da Festa do Santo Encontro de Nosso Senhor, também conhecida por “Hypapante”em grego.
O primeiro Evangelho hoje proclamado, é designado para o Domingo da Abstinência de Carne, está segundo o Evangelista São Mateus e diz respeito ao Juízo Final.
Sobre o Juízo Final, São João Maximovich ensinou que “Ninguém conhece esse dia, somente Deus o sabe, mas os sinais de sua aproximação se revelam nos Evangelhos e no Apocalipse de São João, o Teólogo. Em sua maioria, as revelações falam de maneira simbólica dos atos do fim do mundo. Os Santos Padres os explicaram, também os relata a pura e autêntica Tradição da Igreja”.
Portanto, no Evangelho do Juízo Final vemos que um dos ensinamentos mais importantes que Cristo nos deu é que tudo o que fazemos para o próximo, fazemos ao Próprio Cristo. E isso traz à tona o fato importante de que o verdadeiro cristão é aquele que vê Cristo em todos, sem julgar nem escolher ninguém. No instante que reconhecemos que a imagem de Cristo está em todos (incluindo os nossos ‘inimigos’) que damos mais um passo rumo ao Paraíso, ao Reino dos Céus, aos benditos do Pai e que estão à direita de Cristo.
O ensino deste Evangelho hoje deve fazer germinar em nosso coração o desejo de uma nova conduta! A próxima vez que eu e você por motivo torpe, por orgulho ou por vingança buscar destruir a reputação de alguém, quebrar o coração de alguém, mostrar indiferença, desprezo em relação a outra pessoa, ou maliciosamente fofocar sobre alguém, lembre-se que Cristo diz que eu e você estamos fazendo isto com Ele também. E o que fazemos de errado para com nosso próximo vai contar contra nós quando o Justo Juiz retornar e julgar a todos os pecadores. Nós cristãos, por muitas vezes, somos velozes críticos para com os outros, seja dentro ou fora da Igreja. Esquecemo-nos que estamos aplicando tudo isso sobre o próprio Cristo. Ocupamos imerecidamente o lugar de juízes e com isto julgamos nosso Salvador. Nós que veneramos o ícone de Cristo, precisamos enxergar este mesmo ícone de Cristo em todos, não importa quem sejam.
Ao sair hoje desta paróquia, no retorno a nossas casas, precisamos agir como cristãos autênticos, verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, o que implica em derramar nosso coração e os recursos que temos para os menos afortunados em torno de nós. A Grande Quaresma é um tempo para o arrependimento, mudança e renovação espiritual em nossas vidas. É também um tempo para auto avaliação. O que temos feito em termos de cuidar dos pobres e menos favorecidos? Comecemos pela prática da esmola sem julgar o pedinte miserável. É Cristo Quem pede dinheiro nos semáforos do Brasil! Usemos este tempo que se aproxima para fazer algo. O Padre Seraphim (Rose) de Platina disse certa vez que de nada adianta se tornar um cristão ortodoxo e não conquistar um coração cristão.
Coroados com a Grande Festa do Santo Encontro de nosso Senhor no Templo, a Santa Igreja comemora hoje um acontecimento importante na vida terrena de nosso Senhor Jesus Cristo. No 40º dia após o nascimento o Senhor, Ele foi levado ao Templo de Jerusalém. Lá, nosso Senhor, Sua Santa Mãe e São José encontram povo escolhido por Deus nas pessoas de São Simeão, o Ancião, e Santa Ana, a Profetisa. Pela Lei de Moisés (Levítico 12) uma mulher, depois de ter dado à luz uma criança do sexo masculino, era proibida por 40 dias de entrar no Templo de Deus. Após este intervalo a mãe ia ao Templo com a criança, de modo a oferecer ao Senhor ação de graças e um sacrifício de purificação. A Santíssima Virgem, a Theotokos, não tinha esta necessidade de purificação, uma vez que sem contaminação dera à luz Àquele Que é a Fonte de toda pureza e santidade, mas que em profunda humildade Ela Se submeteu aos preceitos da Lei.
Os textos para a Grande Festa tem por base o “Cântico de Simeão”. Este cântico está presente em todos os Ofícios de Vésperas, que tem como tema principal o advento da Luz de Cristo, O Oriente vindo do Alto.
A Grande Festa de hoje conclui a sequência de outra grande Festa: a Natividade do Senhor, que começou oitenta dias antes, com o início do jejum de Natal. Assim como nas Festas que celebramos da Natividade e Teofania, o Santo Encontro nos revela medita sobre a kenosis, o profundo auto-esvaziamento do Logos encarnado. “Neste dia, Aquele Que outrora havia dado a Lei à Moisés sobre o Monte Sinai Se inclina diante dos preceitos da lei, Ele Que por nós Se tornou semelhante a nós por misericórdia”; canta a Santa Igreja na Litia durante a Vigília.
A Festa do Santo Encontro de nosso Senhor está entre as mais antigas festas da Igreja Ortodoxa. Diversos sermões foram proclamados pelos Santos Padres, nomes como Metódio de Patara (+ 312), Cirilo de Jerusalém (+ 360), Gregório, o Teólogo (+ 389), Amfilóquio de Icônio (+ 394), Gregório de Nissa (+ 400), e João Crisóstomo (+ 407). Mas, apesar da origem primitiva, esta festa não foi tão solenemente celebrada até o século VI.
O ícone “Profecia de Simeão” ou “Hypapante” que encontramos hoje no centro desta capela, simboliza o cumprimento da profecia do justo ancião Simeão sobre a missão de salvação do Logos e revelou a Theotokos que Ela não seria poupada: “Eis que este Menino está posto para queda e levantamento de muitos em Israel e para sinal de contradição; e em Ti uma espada traspassará a Tua alma! Assim se descobrirão os pensamentos escondidos nos corações de muitos”(Lc 22:34-35).
Que o Deus da paz que supera toda a nossa compreensão, guarde os vossos corações e mentes em Cristo Jesus nosso Senhor (cf. Fl4:7).
Sacerdote Nicolau Machado (15.02.2026)






