A HUMANIDADE PRIMORDIAL ANTES DA QUEDA
Os materialistas afirmam que, nos estágios iniciais do desenvolvimento da raça humana, as pessoas eram como animais e levavam um estilo de vida bestial: não conheciam Deus nem possuíam conceitos de moralidade. Em oposição a isso, estão as crenças cristãs na bem-aventurança dos primeiros humanos no Paraíso, sua subsequente queda e sua eventual expulsão do Éden.
De acordo com o Livro do Gênesis, Deus cria Adão e o conduz ao Paraíso, onde vive em harmonia com a natureza: ele entende a linguagem dos animais, e eles lhe obedecem; todos os elementos estão sujeitos a ele como a um rei.
Deus traz a Adão todos os animais “para ver como lhes chamaria; e o nome que o homem desse a cada ser vivente, esse seria o seu nome” (Gn 2:19). Adão dá um nome a cada animal e a cada ave: ao fazê-lo, demonstra sua capacidade de conhecer o significado, o logos (razão) oculto de cada ser vivente. Ao conceder a Adão o direito de nomear toda a criação, Deus o conduz ao próprio cerne de Seu processo criativo e o chama à cocriatividade, à cooperação.
Deus traz o homem primordial à existência para ser sacerdote de toda a criação visível. Somente ele, dentre todas as criaturas vivas, é capaz de louvar a Deus verbalmente e bendizê-Lo. O universo inteiro lhe é confiado como uma dádiva, pela qual ele deve oferecer um “sacrifício de louvor” e que deve oferecer de volta a Deus como “Teu do Teu”. Nessa incessante oferenda eucarística reside o significado e a justificação da existência humana. Os céus, a terra, o mar, os campos e as montanhas, os pássaros e os animais, na verdade, toda a criação designa os humanos para esse ministério sumo sacerdotal, a fim de que Deus seja louvado por seus lábios.
Deus permite que Adão e Eva provem de todas as árvores do Paraíso, incluindo a árvore da vida, que concede a imortalidade. No entanto, Ele os proíbe de provar da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque “conhecer o mal” é tornar-se cúmplice dele e afastar-se da bem-aventurança e da imortalidade. Adão recebe o direito de escolher entre o bem e o mal, embora Deus o conscientize da escolha correta e o alerte sobre as consequências de cair da graça. Ao escolher o mal, Adão se afasta da vida e “morre de morte”; ao escolher o bem, ele ascende à perfeição e atinge o objetivo mais elevado de sua existência.
A QUEDA
A história bíblica da Queda prefigura toda a trágica história da raça humana. Ela nos mostra quem éramos e o que nos tornamos. Revela que o mal entrou no mundo não pela vontade de Deus, mas por culpa dos humanos, que preferiram o engano diabólico ao mandamento divino. De geração em geração, a raça humana repete o erro de Adão ao se deixar seduzir por falsos valores e esquecer os verdadeiros — a fé em Deus e a fidelidade a Ele.
O pecado não estava arraigado na natureza humana. No entanto, a possibilidade de pecar estava enraizada no livre-arbítrio dado aos humanos. Foi, de fato, a liberdade que tornou o ser humano uma imagem do Criador; mas também foi a liberdade que, desde o início, continha em si a possibilidade de se afastar de Deus. Por Seu amor pelos humanos, Deus não quis interferir em sua liberdade e evitar o pecado à força. Mas o diabo também não poderia forçá-los a praticar o mal. A única responsabilidade pela Queda é dos próprios humanos, pois eles abusaram da liberdade que lhes foi dada.
O que constituiu o pecado dos primeiros homens? Santo Agostinho acredita que foi a desobediência. Por outro lado, a maioria dos escritores da Igreja primitiva afirma que Adão caiu como resultado do orgulho. O orgulho é o muro que separa os humanos de Deus. A raiz do orgulho é a egocentricidade, o estado de se fechar em si mesmo, o amor-próprio, a luxúria. Antes da Queda, Deus era o único objeto do amor dos humanos; mas então surgiu um valor fora de Deus: a árvore foi repentinamente vista como “boa para se comer”, “um deleite para os olhos” e algo “desejável” (Gn 3,6). Assim, toda a hierarquia de valores ruiu: meu próprio “eu” ocupou o primeiro lugar, enquanto o segundo foi tomado pelo objeto da “minha” luxúria. Não sobrou lugar para Deus: Ele foi esquecido, expulso de minha vida.
O fruto proibido não trouxe felicidade aos primeiros homens. Pelo contrário, eles começaram a sentir sua própria nudez: ficaram envergonhados e tentaram se esconder de Deus. Essa consciência da própria nudez denota a privação da vestimenta divina portadora de luz que cobria os humanos e os defendia do “conhecimento do mal”. A primeira reação de Adão após cometer pecado foi uma ardente sensação de vergonha. A segunda reação foi o desejo de se esconder do Criador. Isso demonstra que ele havia perdido toda a noção da onipresença de Deus e buscava qualquer lugar onde Deus estivesse “ausente”.
No entanto, isso não foi uma ruptura total com Deus. A Queda não foi um abandono completo: os humanos podiam se arrepender e recuperar sua antiga dignidade. Deus sai para encontrar o Adão caído; entre as árvores do Paraíso, Ele o procura perguntando: “Onde estás?” (Gn 3:9). Essa humilde peregrinação de Deus pelo Paraíso prefigura a humildade de Cristo, revelada a nós no Novo Testamento, a humildade com que o Pastor busca a ovelha perdida. Deus não precisa sair e procurar Adão: Ele pode clamar dos céus com voz de trovão ou abalar os fundamentos da terra. No entanto, Ele não deseja ser o juiz de Adão, ou seu acusador. Ele ainda quer considerá-lo um igual e deposita Sua esperança no arrependimento de Adão. Mas, em vez de se arrepender, Adão profere palavras de autojustificação, colocando a culpa de tudo em sua esposa: “A mulher que me deste por companheira, ela me deu do fruto da árvore, e eu comi” (Gn 3:12). Em outras palavras, “Foste Tu Quem me deste uma esposa; a culpa é Tua”. Por sua vez, Eva atribui a culpa de tudo à serpente.
As consequências da Queda para os primeiros humanos foram catastróficas. Eles não apenas foram privados da bem-aventurança e da doçura do Paraíso, mas toda a sua natureza foi transformada e desfigurada. Ao pecar, eles se afastaram de sua condição natural e entraram em um estado de ser não natural.
Todos os elementos de sua constituição espiritual e corporal foram danificados: seu espírito, em vez de lutar por Deus, absorveu-se nas paixões; sua alma entrou na esfera dos instintos corporais; enquanto seu corpo perdeu sua leveza original e se transformou em carne pesada e pecaminosa. Após a Queda, o ser humano “tornou-se surdo, cego, nu, insensível às coisas boas das quais havia se afastado e, acima de tudo, tornou-se mortal, corruptível e sem senso de propósito” (São Simeão, o Novo Teólogo). Doença, sofrimento e dor entraram na vida humana. Os humanos tornaram-se mortais porque perderam a oportunidade de saborear da árvore da vida.
Não apenas a humanidade, mas também o mundo inteiro mudou como resultado da Queda. A harmonia original entre o homem e a natureza havia sido quebrada; os elementos tornaram-se hostis; tempestades, terremotos e inundações podiam destruir a vida. A terra não mais forneceria tudo por si mesma; teria que ser cultivada “com o suor do seu rosto” e produziria “espinhos e cardos”. Até os animais se tornariam inimigos do ser humano: a serpente “lhe feriria o calcanhar” e outros predadores o atacariam (Gn 3:14-19). Toda a criação estaria sujeita à “escravidão da corrupção”. Juntamente com os humanos, ela agora “aguardaria a libertação” dessa escravidão, visto que não se submeteu à vaidade voluntariamente, mas por culpa da humanidade (Rm 8:19-21).
CONSEQUÊNCIAS DO PECADO DE ADÃO
Após Adão e Eva, o pecado espalhou-se rapidamente por toda a raça humana. Eles eram culpados de orgulho e desobediência, enquanto seu filho Caim cometeu fratricídio. Os descendentes de Caim logo se esqueceram de Deus e começaram a organizar sua existência terrena. O próprio Caim “construiu uma cidade”. Um de seus descendentes mais próximos foi “o pai dos que habitam em tendas e possuem gado”; outro foi “o pai de todos os que tocam lira e flauta”; ainda outro foi “o forjador de todos os instrumentos de bronze e ferro” (Gn 4:17-22). O estabelecimento de cidades, a criação de gado, a música e outras artes foram, assim, transmitidos à humanidade pelos descendentes de Caim como um substituto da felicidade perdida do Paraíso.
As consequências da Queda se espalharam para toda a raça humana. Isto é elucidado por São Paulo: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5,12). Este texto, que constituiu a base do ensinamento da Igreja sobre o “pecado original”, pode ser entendido de diversas maneiras: as palavras gregas ef’ ho pantes hemarton podem ser traduzidas não apenas como “porque todos os homens pecaram”, mas também como “em quem [isto é, em Adão] todos os homens pecaram”. Diferentes leituras do texto podem produzir diferentes entendimentos do que significa “pecado original”.
Se aceitarmos a primeira tradução, isso significa que cada pessoa é responsável por seus próprios pecados, e não pela transgressão de Adão. Aqui, Adão é meramente o protótipo de todos os futuros pecadores, cada um dos quais, ao repetir o pecado de Adão, é responsável apenas por seus próprios pecados. O pecado de Adão não é a causa de nossa pecaminosidade; não participamos de seu pecado e sua culpa não pode ser transferida para nós.
No entanto, se interpretarmos o texto como “em quem todos pecaram”, isso pode ser entendido como a transmissão do pecado de Adão a todas as gerações futuras, visto que a natureza humana foi infectada pelo pecado em geral. A disposição para o pecado tornou-se hereditária e a responsabilidade por se afastar de Deus, pecado universal. Como afirma São Cirilo de Alexandria, a própria natureza humana “adoeceu com o pecado”; assim, todos compartilhamos o pecado de Adão, assim como todos compartilhamos sua natureza. São Macário do Egito fala de “um fermento de paixões malignas” e de “impureza secreta e a escuridão permanente das paixões”, que penetraram em nossa natureza, apesar de nossa pureza original. O pecado se tornou tão profundamente enraizado na natureza humana que nenhum descendente de Adão foi poupado de uma predisposição hereditária para o pecado.
Os escritores do Antigo Testamento tinham uma percepção vívida de sua pecaminosidade herdada: “Eis que eu nasci em iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51:7).
Eles acreditavam que Deus “visita a iniquidade dos pais sobre os filhos até a terceira e quarta geração” (Êx 20:5). Nestas últimas palavras, não se faz referência a crianças inocentes, mas àquelas cuja própria pecaminosidade está enraizada nos pecados de seus antepassados.
De um ponto de vista racional, punir toda a raça humana pelo pecado de Adão é uma injustiça. Mas nenhum dogma cristão jamais foi totalmente compreendido pela razão. A religião dentro dos limites da razão não é religião, mas racionalismo puro e simples, pois a religião é suprarracional, supralógica. A doutrina do pecado original é revelada à luz da revelação divina e adquire significado com referência ao dogma da expiação da humanidade por meio do Novo Adão, Cristo: “… Assim como a transgressão de um só homem levou à condenação de todos os homens, assim o ato de justiça de um só homem leva à absolvição e à vida de todos os homens. Porque, assim como pela desobediência de um só homem muitos foram constituídos pecadores, assim também pela obediência de um só muitos serão constituídos justos… para que, assim como o pecado reinou na morte, também a graça reinasse pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo, nosso Senhor (Rm 5:18-21).
Metropolita Hilarion (Alfeyev)
tradução de monja Rebeca (Pereira)








