CATEQUESES DO METROPOLITA HILARION (ALFEYEV) – PARTE 18

A EUCARISTIA

A Eucaristia (do grego eucharistia, “ação de graças”), ou o Sacramento da Sagrada Comunhão, é “o Sacramento dos Sacramentos”, “o Mistério dos Mistérios”. A Eucaristia tem um significado central na vida da Igreja e de cada cristão. Não é meramente uma das muitas ações sagradas ou “um meio de receber graça”: é o próprio coração da Igreja, seu fundamento, sem o qual a existência da Igreja não pode ser imaginada.

O Sacramento da Eucaristia foi instituído por Cristo na Última Ceia. A Última Ceia de Cristo com os discípulos era, em seu ritual exterior, a tradicional refeição pascal judaica, quando os membros de todas as famílias de Israel se reuniam para saborear o cordeiro sacrificial. Esta Ceia contou com a presença dos discípulos de Cristo: não de Seus parentes na carne, mas da família que mais tarde se tornaria a Igreja. Em vez do cordeiro, Jesus se ofereceu como sacrifício “como um cordeiro sem defeito ou mancha”, “Ele foi destinado antes da fundação do mundo” para a salvação dos homens (1 Pedro 1:19-20). Na Última Ceia, Cristo transformou o pão e o vinho em Seu Corpo e Sangue, comungou com os apóstolos e ordenou-lhes que celebrassem este sacramento em Sua memória. Após Sua morte na cruz e Sua ressurreição, os discípulos se reuniam no primeiro dia da semana (o chamado “dia do sol”, ou domingo) para a “fração do pão”.

Originalmente, a Eucaristia era uma refeição acompanhada de leituras das Escrituras, um sermão e uma oração. Às vezes, prolongava-se pela noite adentro. Gradualmente, à medida que as comunidades cristãs cresciam, a Eucaristia deixou de ser uma ceia noturna e passou a ser um serviço divino.

Os elementos mais antigos que constituem o rito eucarístico são a leitura da Sagrada Escritura, as orações por todo o povo, o ósculo da paz, a ação de graças ao Pai (à qual o povo responde “Amém”), a fração (partir o pão) e a Comunhão. Na Igreja primitiva, cada comunidade tinha sua própria Eucaristia, mas todos esses elementos estavam presentes em todos os ritos eucarísticos. A oração do bispo era originalmente improvisada e só mais tarde as orações eucarísticas foram escritas. Na Igreja primitiva, uma infinidade de ritos eucarísticos eram usados: eles eram chamados de “Liturgias” (do grego leitourgia significa “ação comum”, “trabalho”, “serviço”).

A oferta eucarística tem o sentido de um sacrifício no qual o Próprio Cristo é “o Ofertante e o Oferecido, o Recebedor e o Recebido”. Cristo é o único e verdadeiro celebrante da Eucaristia: Ele está invisivelmente presente na igreja e age por meio do sacerdote. Para os cristãos ortodoxos, a Eucaristia não é meramente um ato simbólico realizado em memória da Ceia Mística; é, antes, a própria Ceia Mística, renovada diariamente por Cristo e continuando ininterruptamente na Igreja desde aquela noite pascal, quando Cristo Se reclinou à mesa com Seus discípulos. “Da Tua Ceia Mística, ó Filho de Deus, aceita-me hoje como participante”, diz o fiel ao se aproximar da Sagrada Comunhão.

A Igreja Ortodoxa acredita que, na Eucaristia, o pão e o vinho se tornam não apenas um símbolo da presença de Cristo, mas o verdadeiro Corpo e Sangue de Cristo. Essa crença tem sido mantida na Igreja Cristã desde os primórdios. O próprio Cristo diz: “Porque a Minha Carne é verdadeiramente comida, e o Meu Sangue é verdadeiramente bebida. Quem come a Minha Carne e bebe o Meu Sangue permanece em Mim, e Eu nele” (João 6:55-56).

A união do fiel com Cristo na Eucaristia não é simbólica e figurativa, mas genuína, real e integral. Assim como Cristo permeia o pão e o vinho consigo mesmo, preenchendo-os com a Sua presença divina, Ele entra na pessoa humana, preenchendo a sua carne e o seu sangue com a Sua presença vivificante e energia divina. Na Eucaristia, tornamo-nos do mesmo corpo com Cristo, que entra em nós como entrou no ventre da Virgem Maria. Nossa carne na Eucaristia recebe um fermento de incorruptibilidade, torna-se deificada e, quando morre e se torna sujeita à corrupção, esse fermento torna-se o penhor de sua futura ressurreição.

Devido à singularidade da Eucaristia, a Igreja atribui a ela um significado especial na causa da salvação da humanidade. Fora da Eucaristia não pode haver salvação, nem deificação, nem vida verdadeira, nem ressurreição na eternidade: “Se não comerdes a Carne do Filho do Homem e não beberdes o Seu Sangue, não tereis vida em vós mesmos; quem come a Minha Carne e bebe o Meu Sangue tem a vida eterna, e Eu o ressuscitarei no último dia” (João 6:53-54). Por isso, os Padres da Igreja aconselham os cristãos a nunca recusarem a Eucaristia e a comungarem com a maior frequência possível. “Procurai reunir-vos com mais frequência para a Eucaristia e a glorificação de Deus”, diz Santo Inácio de Antioquia. As palavras da oração do Senhor “O pão nosso de cada dia nos dai hoje” (Mt 6:11) foram por vezes interpretadas como um apelo à recepção diária da Eucaristia.

A Igreja lembra-nos que todos aqueles que se aproximam da Sagrada Comunhão devem estar prontos para o encontro com Cristo. Daí a necessidade de uma preparação adequada, que não deve limitar-se à leitura de um certo número de orações e à abstinência de determinados tipos de alimentos. Em primeiro lugar, a prontidão para a Comunhão é condicionada por uma consciência pura, pela ausência de inimizade para com o próximo ou de ressentimento contra qualquer pessoa, e pela paz em nossas relações com todos. Os obstáculos à Comunhão são pecados graves cometidos por uma pessoa, dos quais ela deve se arrepender na confissão.

A contrição que advém do sentimento da própria pecaminosidade é uma condição necessária para a Comunhão. Isso, contudo, não impede o cristão de receber a Eucaristia como uma celebração de alegria e ação de graças. Por sua própria natureza, a Eucaristia é uma solene ação de graças, fundamental para a qual é o louvor a Deus. Aqui reside o paradoxo e o mistério da Eucaristia: ela deve ser abordada com arrependimento e alegria. Com arrependimento pelo sentimento de indignidade, e com alegria pelo fato de que o Senhor na Eucaristia purifica, santifica e diviniza a pessoa humana, tornando-a digna apesar de sua indignidade. Na Eucaristia, não apenas o pão e o vinho são transformados no Corpo e Sangue de Cristo, mas também o próprio comungante é transformado de uma pessoa velha em uma nova; ele é libertado do fardo do pecado e iluminado pela luz divina.

A PENITÊNCIA

“Arrependei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 3,2). Com estas palavras, proferidas pela primeira vez por São João Batista, Jesus Cristo iniciou a Sua missão (Mt 4,17). O Cristianismo foi, desde o início, um apelo ao arrependimento, à conversão, a uma “mudança de mentalidade” (metanoia). Uma transformação radical de todo o modo de vida e pensamento, uma renovação da mente e dos sentidos, uma rejeição de atos e pensamentos pecaminosos, uma transfiguração da pessoa humana: estes são os principais elementos da mensagem de Cristo.

O modelo para o arrependimento é estabelecido por Jesus Cristo em Sua Parábola do Filho Pródigo (ver Lc 15,11-24). Tendo vivido uma vida pecaminosa “numa terra distante”, isto é, longe de Deus, o filho pródigo, após muitas tribulações, volta a si e decide regressar ao Pai. O arrependimento começa com a conversão (‘caiu em si’), que se transforma em determinação de retorno (‘Levantar-me-ei e irei’), e termina com o retorno a Deus (‘levantou-se e veio’). Segue-se a confissão (‘Pai, pequei contra o céu e perante ti’), que resulta em perdão (‘Trazei depressa a melhor túnica’), adoção (‘este é meu filho’) e ressurreição espiritual (‘estava morto e reviveu’). O arrependimento é, portanto, um processo dinâmico, um caminho em direção a Deus, e não um mero ato de reconhecimento dos próprios pecados.

Todo cristão tem todos os seus pecados perdoados no Sacramento do Batismo. No entanto, “não há homem que viva sem pecar”. Os pecados cometidos após o Batismo privam a pessoa humana da plenitude da vida em Deus. Daí a necessidade do “segundo Batismo”, a expressão usada pelos Padres da Igreja para o arrependimento, enfatizando sua energia purificadora, renovadora e santificante.

O Sacramento da Penitência é uma cura espiritual para a alma. Cada pecado, dependendo de sua gravidade, é para a alma uma pequena lesão, uma ferida profunda, às vezes uma doença grave ou talvez até mesmo uma enfermidade fatal. Para ser espiritualmente saudável, a pessoa humana deve visitar regularmente seu pai-confessor, um médico espiritual: “Você pecou? Vá à igreja e arrependa-se do seu pecado… Aqui está um médico, não um juiz. Aqui ninguém é condenado, mas todos recebem o perdão dos pecados”, diz São João Crisóstomo.

Desde o início do Cristianismo, era dever dos apóstolos, e depois dos bispos e presbíteros, ouvir as confissões e dar a absolvição. Cristo disse aos Seus apóstolos: “Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu” (Mt 18,18). O poder de “ligar e desligar”, que foi dado aos apóstolos e, por meio deles, aos bispos e sacerdotes, manifesta-se na absolvição que o sacerdote concede àquele que se arrepende em Nome de Deus.

Mas por que é necessário confessar os pecados a um sacerdote, a um semelhante? Não basta contar tudo a Deus e receber a absolvição d´Ele? Para responder a essa pergunta, deve-se lembrar que, na Igreja Cristã, um sacerdote é apenas uma “testemunha” da presença e da ação de Deus: não é o sacerdote que atua nas Celebrações Litúrgicas e nos Sacramentos, mas o próprio Deus. A confissão dos pecados é sempre dirigida a Deus, e o perdão também é recebido d´Ele. Ao promover a ideia da confissão perante um sacerdote, a Igreja sempre levou em consideração um fator psicológico: uma pessoa pode não se sentir tão envergonhada diante de Deus pelos seus pecados, mas é sempre constrangedor revelar os seus pecados diante de um semelhante. Além disso, o padre também é um diretor espiritual, um conselheiro que pode oferecer conselhos sobre como evitar pecados específicos no futuro. O Sacramento da Penitência não se limita à mera confissão de pecados. Também pressupõe recomendações, ou às vezes epitimia (penalidades) por parte do padre. É principalmente no Sacramento da Penitência que o padre atua em sua qualidade de pai espiritual.

Se o penitente ocultar deliberadamente algum dos seus pecados, seja por vergonha ou por qualquer outro motivo, o Sacramento não será considerado válido. Assim, antes do início do rito, o sacerdote adverte que a confissão deve ser sincera e completa: “Não te envergonhes, nem temas, e não me escondas nada… Mas se me esconderes alguma coisa, terás pecado maior”. O perdão dos pecados concedido após a confissão também é completo e abrangente. É um erro acreditar que apenas os pecados enumerados durante a confissão são perdoados. Há pecados que não vemos em nós mesmos, e há alguns, ou muitos, que simplesmente esquecemos. Todos esses pecados também são purificados por Deus, desde que a nossa confissão seja sincera. Caso contrário, o perdão total nunca seria possível para ninguém, pois não é possível ao ser humano conhecer todos os seus pecados ou ser um juiz perfeito de si mesmo.

A importância da confissão frequente pode ser ilustrada pelo fato de que aqueles que se confessam muito raramente geralmente não conseguem enxergar seus pecados e transgressões com clareza. Alguns que vão a um padre dizem coisas como: “Eu vivo como todo mundo”; “Eu não fiz nada de especial”; “Eu não matei ninguém”; “Há aqueles que são piores do que eu”; e até mesmo “Eu não tenho pecados”. Pelo contrário, aqueles que se confessam regularmente encontram sempre muitas falhas em si mesmos. Reconhecem os seus pecados e procuram libertar-se deles. Há uma explicação muito simples para este fenômeno. Assim como o pó e a sujeira só são visíveis onde há luz, mas não na escuridão, assim também alguém só percebe os seus pecados quando se aproxima de Deus, a Luz inacessível. Quanto mais próximo alguém está de Deus, mais claramente vê os seus pecados. Enquanto a alma de alguém continua a ser uma câmara escura, os seus pecados permanecem não reconhecidos e, consequentemente, não curados.

OS SANTOS ÓLEOS

A pessoa humana foi criada com um corpo incorruptível e imortal. Após a Queda, perdeu essas qualidades e tornou-se corruptível e mortal. Segundo São Gregório, o Teólogo, a pessoa humana “vestiu-se com a vestimenta do pecado, que é a nossa carne grosseira, e tornou-se portadora de um corpo”. A doença e a enfermidade tornaram-se parte da vida humana. A raiz de toda enfermidade, segundo o ensinamento da Igreja, é a pecaminosidade humana: o pecado entrou na pessoa humana de tal forma que poluiu não apenas sua alma e intelecto, mas também seu corpo.

Se a morte é consequência do pecado (cf. Tiago 1:15), uma doença pode ser vista como uma situação entre o pecado e a morte: ela segue o pecado e precede a morte. Não é, evidentemente, que todo pecado específico resulte em uma doença específica. A verdadeira questão diz respeito à raiz de todas as doenças, a saber, a corruptibilidade humana. Como observa São Simeão, o Novo Teólogo, “os médicos curam corpos humanos… mas nunca podem curar a doença básica da natureza humana, sua corruptibilidade. Por essa razão, quando tentam diferentes meios para curar uma doença específica, o corpo então se torna vítima de outra doença”. A natureza humana, segundo São Simeão, precisa de um médico que possa curá-la de sua corruptibilidade, e esse médico é o próprio Jesus Cristo.

Durante Sua vida terrena, Cristo curou muitas pessoas. Antes de curar alguém, Ele frequentemente lhe perguntava sobre sua fé: “Você crê que Eu sou capaz de fazer isso?” (Mateus 9:28). Além de curar o corpo, Cristo também curou a alma humana de sua doença mais grave, a incredulidade. Ele também apontou o Diabo como a origem de todas as doenças: da mulher curvada, Ele disse que ela estava “presa por Satanás” (ver Lucas 13:16).

A Igreja sempre considerou sua própria missão como a continuação em todos os aspectos do ministério de Jesus Cristo, incluindo a cura. Assim, desde os tempos apostólicos, existia uma ação sacramental que mais tarde receberia o nome de Unção com óleo. Ela se encontra no Novo Testamento: “Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros (literalmente, presbíteros) da Igreja, e estes orem sobre ele, ungindo-o com óleo em Nome do Senhor. E a oração da fé salvará o doente, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados” (Tiago 4:15-16). É claro que a questão aqui não é de uma unção normal com óleo, que antigamente era usada para fins médicos, mas de uma ação sacramental especial. As qualidades de cura são atribuídas aqui não ao óleo, mas à “oração da fé”; e o médico não é um presbítero, mas “o Senhor”.

Na prática moderna da Igreja Ortodoxa, o sacramento da Unção preservou todos os elementos originais descritos por São Tiago: é conduzido por sete sacerdotes (na prática, frequentemente, por três ou dois), orações e passagens do Novo Testamento são lidas, e o doente é ungido sete vezes com óleo bento. A oração de absolvição é lida por um dos presbíteros ao final do Sacramento. A Igreja acredita que, de acordo com as palavras de São Tiago, os pecados daquele que recebe a Unção são perdoados. Isso, no entanto, de forma alguma implica que a Unção possa ser considerada um substituto para a confissão. Infundada também é a opinião de alguns fiéis ortodoxos de que na Sagrada Unção todos os pecados esquecidos, isto é, aqueles não mencionados na Confissão, são perdoados. O sacramento da Confissão, como dissemos acima, resulta no perdão de todos os pecados. A intenção por trás do sacramento da Unção com Óleo não é complementar a Confissão, mas sim renovar as forças dos enfermos com orações pela cura do corpo e da alma.

Ainda mais enganosa é a interpretação da Unção como a “última unção” antes da morte. Essa era a compreensão do Sacramento na Igreja Católica Romana antes do Vaticano II, e ainda encontra seu lugar entre os fiéis ortodoxos. Esta é uma interpretação errônea simplesmente porque a Unção não garante que a pessoa que a recebeu será necessariamente curada. Em vez disso, pode-se dizer que a Sagrada Unção faz com que aquele que a recebe participe dos sofrimentos de Cristo, torna sua doença corporal salvífica e curativa, libertando-o da doença espiritual e da morte.

De acordo com o ensinamento da Igreja, Deus é capaz de transformar todo o mal em algo bom. Neste caso particular, a doença, que por si só é má e consequência da corrupção, torna-se para o ser humano uma fonte de benefícios espirituais. Por meio dela, ele participa dos sofrimentos de Cristo e ressuscita com Cristo para uma nova vida. Há muitos casos em que a doença leva as pessoas à morte, obrigando-as a mudar de vida e a embarcar no caminho do arrependimento que conduz a Deus.

Metropolita Hilarion (Alfeyev)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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