CATEQUESES DO METROPOLITA HILARION (ALFEYEV) – PARTE 11

A UNIDADE DAS NATUREZAS

Em meados do século V, uma nova onda de debates cristológicos foi associada aos nomes de Eutíco, um arquimandrita de Constantinopla, e seu apoiador Dióscoro, sucessor de São Cirilo ao trono episcopal de Alexandria. Eutíco falava em termos da completa “fusão” da divindade com a humanidade em uma “única natureza encarnada de Deus, o Verbo”. “Confesso que nosso Senhor consistia em duas naturezas antes da união, mas depois da união confesso uma só natureza”, afirma Eutíco.

O Quarto Concílio Ecumênico, convocado em 451 em Calcedônia, condenou o monofisismo euticiano e proclamou o dogma de “uma única hipóstase de Deus, o Verbo, em duas naturezas, divina e humana”. De acordo com os ensinamentos do Concílio, cada natureza de Cristo preserva a plenitude de suas propriedades, mas Cristo não está dividido em duas pessoas; Ele permanece a única hipóstase de Deus, o Verbo. Esta crença foi expressa na definição dogmática do Concílio: “…Confessamos um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito em Divindade, perfeito em humanidade, verdadeiramente Deus, verdadeiramente homem, com alma e corpo racionais, consubstancial ao Pai em Sua Divindade e consubstancial a nós em Sua humanidade… um só e mesmo Cristo, o Filho, o Senhor Unigênito, discernido em duas naturezas sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação”.

Essas fórmulas claramente definidas demonstram o refinamento e a perspicácia que o pensamento teológico alcançou na Igreja Cristã no século V. Ao mesmo tempo, demonstram a cautela com que os Padres da Igreja usaram diferentes termos e fórmulas ao tentar “expressar o inexprimível”. Quatro termos foram usados ​​para transmitir a união das duas naturezas (“sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação”), e cada um era estritamente apofático. A união das naturezas divina e humana em Cristo é um mistério que transcende o intelecto e nenhum termo é capaz de descrevê-lo. O que é dito com precisão é como as naturezas não estão unidas: isso é para evitar heresias que poderiam confundir, mudar e dividir as naturezas. No entanto, como as naturezas estão unidas permanece oculto ao intelecto humano.

DUAS AÇÕES E DUAS VONTADES

No século VI, alguns teólogos, embora confessassem as duas naturezas de Cristo, falavam d´Ele como tendo uma única “ação” divino-humana, uma única energia. Daí o nome da heresia chamada Monoenergismo. Novamente, no início do século VII, surgiu outro movimento, o Monotelismo, que reconhecia em Cristo apenas a vontade divina, afirmando que Sua vontade humana era completamente absorvida pela divina. Além de perseguir objetivos puramente teológicos, os Monotelistas esperavam reconciliar os Ortodoxos com os Monofisistas por meio de um acordo.

Havia dois principais oponentes do Monotelismo em meados do século VII: São Máximo, o Confessor, um monge de Constantinopla, e São Martinho, o papa de Roma. São Máximo ensinava que havia duas energias e duas vontades em Cristo: “Cristo, sendo Deus por natureza, fez uso de uma vontade que era naturalmente divina e paterna, pois Ele tinha apenas uma vontade com Seu Pai; Sendo Ele próprio homem por natureza, Ele também fez uso de uma vontade naturalmente humana que não se opunha de forma alguma à vontade do Pai. A presença da vontade humana em Cristo é especialmente evidente em Sua oração no jardim do Getsêmani: “Meu Pai, se for possível, afasta de Mim este cálice; todavia, não seja como Eu quero, mas como Tu queres” (Mt 26:39). Esta oração teria sido impossível se a vontade humana de Cristo tivesse sido totalmente absorvida pela vontade divina.

Por sua determinação em confessar o Cristo dos Evangelhos, São Máximo foi submetido a um castigo cruel: sua língua foi cortada e sua mão direita amputada. Como São Martinho, ele morreu no exílio. No entanto, o Sexto Concílio Ecumênico de Constantinopla, 680-681, confirmou integralmente o ensinamento de São Máximo: “Pregamos que n´Ele (Cristo) existem duas vontades e desejos naturais, e duas energias naturais sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação. Essas duas vontades naturais não se opõem… mas Sua vontade humana se submete à vontade divina e onipotente”. Como pessoa plenamente humana, Cristo possuía livre-arbítrio, mas essa liberdade não significava a escolha entre o bem e o mal. A vontade humana de Cristo escolhe livremente apenas o bem: não pode haver conflito entre Sua vontade humana e divina.

Dessa forma, o mistério da pessoa divino-humana de Cristo, o Novo Adão e Salvador do mundo, manifestou-se na experiência teológica da Igreja.


Metropolita Hilarion (Alfeyev)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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