Caros leitores, a Grande Quaresma é um tempo de árduo combate espiritual conosco mesmos (menos sono, menos alimentação, menos conforto e preocupação com coisas que gostamos de fazer, maior participação nos Serviços e orações, e assim por diante). Não sei, porém, se realmente percebemos a extensão em que outro objetivo fundamental é a caridade para com os outros. Além do princípio geral expresso no Sermão da Montanha (‘Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia’, Mt 5, 7), o objetivo do jejum é que gastemos menos conosco mesmos, em termos de qualidade e quantidade, em comparação com outras épocas do ano; e que qualquer excedente seja dado aos outros como caridade. Entre outras coisas, é isso que o Evangelho do Juízo Final nos diz no terceiro domingo preparatório do Triodio: que devemos servir às necessidades dos outros, porque Cristo toma isso como um dom para si mesmo.

É verdade que, no primeiro domingo do Triodio, aprendemos que, de acordo com a lei de Moisés, o fariseu deu o dízimo de seus bens à sinagoga e, por extensão, a outras pessoas. Ele o fez, porém, no contexto de um dever, não secretamente e de bom coração. Tratava-se de uma questão de autoengrandecimento: ele se vangloriava de suas ações e é por isso que, no fim, sua oração não foi atendida por Deus. Ele pensava que, por causa de suas boas práticas religiosas, Deus seria obrigado a salvá-lo, abençoá-lo e prover-lhe tudo de bom na vida. Mas o jejum e a oração estão ligados à humildade (que o publicano possuía e por isso sua oração foi ouvida).

Em um artigo sobre este assunto, o Metropolita Atanásios de Limassol afirma o seguinte: “A esmola contribui muito para a oração. Se você quer orar, precisa se tornar uma pessoa caridosa. Caridosa em todos os sentidos da palavra.” Quando você dirige uma palavra gentil a outra pessoa, oferece algo ou dá esmola, isso move a alma à oração. Está comprovado que, quando pessoas caridosas se colocam em oração, sua prece chega a Deus, que a aceita. Abba Isaac disse: “Um asceta sem caridade é uma árvore estéril”. Em outras palavras, não importa quais lutas ascéticas você empreenda, em termos de oração, jejum e vigílias, se o seu coração não for caridoso, ele não se estende aos outros com amor, não sente pelos outros a mesma afeição que Deus sente; nesse caso, é como uma árvore que não dá frutos. Os padres dizem que a esmola por si só é suficiente para salvar as pessoas. Pessoas caridosas são como Deus. O que dizemos na liturgia divina? “Pois tu és compassivo e amas a humanidade”. Deus é compassivo. Aqueles que são caridosos são como Deus e Ele não pode negar-lhes a Sua graça.

Deus ama os caridosos que dão de bom grado, com semblante alegre e por livre e espontânea vontade. A esmola dada com relutância ou por obrigação é inaceitável e execrável. A raiz da caridade está no coração. Começa no coração e termina em nossas mãos. A caridade se aquece quando há a chama do amor. Dar esmola sem amor é frio e desinteressante. É um corpo morto sem luz ou sol. É uma flor sem beleza ou perfume. Quando você dá sem amor, você insulta. Porque qual o valor do presente mais maravilhoso e caro se ele for oferecido sem um sorriso?

Em sua décima terceira homilia sobre a Segunda Epístola aos Coríntios, São João Crisóstomo afirma que dar esmola significa não apenas dar dinheiro, mas também dar com um sentimento de afeto cristão. Devemos fazer o bem, prestar auxílio e dedicar tempo de bom grado, deliberadamente, de coração, com respeito e amor sincero pelos pobres. Não devemos nutrir nenhum sentimento de condescendência, frustração, raiva ou mau humor. “Cada um dê conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria” (2 Coríntios 9:7). “Parti o pão com o faminto e acolha em sua casa o pobre e o desabrigado”, diz o profeta Isaías (30:7). E tudo isso deve ser feito de todo o coração, como nos ensina São Gregório, o Teólogo. São Paulo nos ensina como agir nessas circunstâncias: “Quem encoraja, encoraje; quem dá, faça-o com liberalidade; quem lidera, com diligência; quem pratica a caridade, com alegria” (Romanos 12:8). Se você agir assim, sua disposição dobrará o valor da sua boa ação. Mas se essa boa ação for realizada com relutância ou por necessidade, não poderá trazer alegria.

Portanto, por mais penitencial e melancólica que a Quaresma possa parecer inicialmente, em essência, trata-se de uma busca pela alegria que advém da caridade para com qualquer pessoa que sofra, no mesmo espírito de São Nicolau, que providenciou um dote para cada uma das filhas de um homem que pensava em introduzi-las a um estilo de vida ruim para arrecadar dinheiro. São Nicolau jogou o dinheiro pela janela para que ninguém soubesse quem havia praticado a boa ação e, assim, não fosse louvado por ela. Não permitamos que esta Quaresma seja unidimensional e infrutífera, mas sejamos caridosos, para que possamos alcançar a misericórdia do Senhor, o Juiz justo. Amém.


Protopresbítero Antonios Christou
tradução de monja Rebeca (Pereira)

Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

7 visualizações

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recentes