Encontramos na Tradição a história de um Ancião que vivia no deserto, a muitas milhas da água. Um homem idoso, cansado, repetindo diariamente um caminho longo e difícil apenas para encher um cântaro. Em um momento de fraqueza, surge o pensamento que todos nós conhecemos: “Para que tanto esforço?”. A solução parece lógica, até razoável: morar mais perto da água, facilitar a vida, reduzir o peso do caminho.
Mas é exatamente nesse instante que o invisível se torna visível. Um anjo aparece, mas não para repreendê-lo. Ele apareceu ali não para medir o cansaço do Ancião, ou a água carregada, mas para contar os seus passos. Cada metro percorrido no silêncio do deserto. Cada esforço que ninguém via, exceto Deus.
Na tradição espiritual da Igreja Ortodoxa, nada do que é feito por amor a Deus é pequeno ou inútil. Os Padres do deserto insistem nisso: Deus não mede resultados, mede fidelidade. Não mede a facilidade do caminho, mas a perseverança do coração. O anjo não diz ao Ancião que ele será recompensado pela água, mas pelo caminho.
Essa história fala diretamente à nossa vida eclesial hoje. Muitos dizem: “A igreja é longe”, “a Divina Liturgia é longa demais”, “as orações tomam tempo”, “o cansaço é grande”, “a vida é corrida”. São pensamentos humanos, compreensíveis. Mas perigosos quando se tornam desculpas para diminuir o nosso compromisso com Deus.
Na experiência da Igreja Ortodoxa, a distância nunca foi obstáculo. Pelo contrário, muitas vezes ela foi parte do sacrifício. Quantos fiéis, ao longo dos séculos, caminharam horas para participar da Divina Liturgia? Quantos monges atravessaram desertos, montanhas e noites frias para estar no lugar da oração? Eles sabiam algo que nós facilmente esquecemos: o caminho até a igreja já é oração.
Cada passo dado em direção à Liturgia, cada esforço para estar presente, cada sacrifício feito para rezar, confessar-se, comungar e permanecer na vida da Igreja, tudo isso é contado por Deus. Nada se perde. Nada é ignorado. Mesmo quando chegamos cansados, distraídos ou sem palavras, o simples fato de termos vindo já é um ato de fé.
O ancião, ao saber que seus passos eram contados, não encurtou o caminho. Ele o alongou. Não por orgulho, mas por amor. Ele passou a entender o seu esforço como uma oferta a Deus, não como um castigo. Assim também nós somos chamados a transformar a distância, o cansaço e as dificuldades em um dom oferecido a Deus.
A Divina Liturgia não começa quando o sacerdote diz “Bendito é o Reino”. Ela começa quando decidimos sair de casa. Quando vencemos a preguiça. Quando escolhemos Deus acima do conforto. O deserto do ancião pode ser hoje o trânsito, o horário difícil, o calor, a chuva, a rotina pesada. Mas o anjo continua contando os passos.
Na lógica do mundo, buscamos sempre o caminho mais curto. Na lógica do Reino, buscamos o caminho fiel. Desse modo, descobrimos que cada passo dado com amor nos aproximou não apenas da igreja, mas do próprio Deus.
Que nunca nos esqueçamos que diante do Senhor, nenhum passo é em vão. Nenhuma distância é longa demais quando o coração caminha na direção certa.
22.12.2025
+ Βispo Theodore El Ghandour








