AVALIANDO NOSSA QUARESMA

Primeiro. Olhe para dentro e livre-se da bagunça.

Durante a Quaresma, impomos conscientemente restrições a nós mesmos em áreas da vida que não são pecaminosas em si mesmas, mas não são vitais: não morreremos se comermos menos e de forma mais simples, dormirmos menos ou aumentarmos a atividade física. Normalmente, no dia a dia, não temos motivação para nos limitarmos e nos concentrarmos no que realmente importa. A Grande Quaresma é perfeita para isso: temos o tempo e a oportunidade de olhar para dentro de nós mesmos — a própria estrutura da vida da igreja nos encoraja a fazê-lo.

Para mim, pessoalmente, o mais importante na Quaresma são os Serviços Divinos. Eles estabelecem o tom certo para este período especial da vida. Participar dos Serviços, da Sonfissão e receber a Comunhão nos encoraja a dedicar mais atenção à comunicação conosco mesmos.

Gradualmente, começamos a descer ao poço profundo de nossas almas. Essa descida requer trabalho, cautela e atenção. Idealmente, deveríamos descer cada vez mais fundo a cada ano — é lá, nas profundezas, que reside a maldade que nos impede de encontrar Deus. Através de nossas más ações diárias, lançamos inconscientemente no poço — por mais duro que isso possa parecer — os resultados de nossas atividades. E nossa tarefa durante a Quaresma é abrir a tampa do poço e começar a limpar o que se acumulou ali. Assim que começarmos a fazer isso, sentiremos imediatamente o surgimento de uma luz interior — sem precisar esperar pela Páscoa.

Nesse sentido, eu compararia a Quaresma a um inventário. Muitas vezes, guardamos em casa coisas de que não precisamos, mas que temos pena de jogar fora. Essas pilhas de tralha podem ser tão grandes que não há espaço para elas no sótão. E se algum dia quisermos acolher um ente querido em casa, simplesmente não haverá espaço. Então, facilmente nos desfazemos da maioria das coisas que antes considerávamos necessárias. Porque amamos mais as pessoas do que as coisas.

É muito parecido com a alma: a tralha são as nossas paixões, as forças pervertidas da alma que se tornaram prisioneiras do nosso ego. Nosso ego é um ímã para o pecado. Os pecados se acumulam, se emaranham, impedindo que a luz divina penetre na alma. O propósito da Quaresma é desembaraçar esses emaranhados, livrar-nos deles — limpar os detritos da alma para estarmos prontos para encontrar Cristo.

Segundo. Liberte-se dos apegos e desejos.

O jejum ensina a pessoa a afrouxar o controle que usa para agarrar e se apegar constantemente a algo. Jejuar é uma experiência de desapego.

Uma pessoa oscila constantemente entre dois extremos: ter e ser. Quanto mais ela tem, mais se concentra em se apegar a isso — seja dinheiro, poder ou relacionamentos humanos. Isso dissipa energia e fragmenta o coração.

E então surge o desejo de ser — de juntar os pedaços do coração, de escapar da fragmentação, de se desintegrar e de se tornar inteiro novamente.

A medida áurea é quando uma pessoa valoriza tudo o que lhe foi dado. Quando ela olha para algo significativo e o vê não como algo a ser guardado a todo custo, mas como um espelho que reflete a Glória de Deus. Então, ela se alegra não com a coisa em si, mas com o fato de que, por meio dela, aprende a reconhecer a Deus. Não há apego a essa posse — mesmo que a coisa seja perdida, a fonte de alegria permanece.

Mas se uma pessoa se apega a uma coisa, ela começa a servi-la como um ídolo. O jejum nos convida a renunciar aos ídolos e a tentar discernir o reflexo da Glória divina no mundo material.

O dinheiro muitas vezes se torna um ídolo, um vício. Quando os bens materiais se tornam um fim em si mesmos e são percebidos como propriedade, como algo que nos pertence por direito, devemos nos lembrar de que, em primeiro lugar, Deus nos deu esses bens e, em segundo lugar, Ele os deu a nós temporariamente, para que os guardássemos, e agora Ele observa como os usamos. O principal é investir todos os nossos recursos em Sua glorificação, reconhecendo a beleza, a alegria e a iluminação — e, por meio disso, construir nosso relacionamento com Ele.

Se uma pessoa tem paixão pela gula e o hormônio da alegria e da felicidade só é produzido durante as refeições, essa paixão ficará especialmente evidente durante a Quaresma. Privar-se dos alimentos favoritos pode inicialmente causar desânimo, mas logo se perceberá que, sem comida nas quantidades habituais, é possível viver muito mais do que o esperado — a chave é distrair-se e ocupar-se com algo. É assim que se alcança a libertação das paixões, que preenchem o espaço na alma reservado para a luz Divina.

Terceiro. Sinta a alegria do espaço recém-aberto.

Agora você precisa preservar a sensação de amplitude que se abriu após limpar sua alma da desordem, não a perder e não deixar que a correria do dia a dia tome conta de você novamente. Respire fundo, aprecie esses momentos e saboreie-os. Você não precisa necessariamente fazer nada: simplesmente caminhar e não pensar em nada já é um resultado positivo do jejum.

Simplesmente não se esforce demais, trocando a agitação dos tempos normais pela agitação da Quaresma. Não tente se sobrecarregar. Sentir-se “à beira de um colapso nervoso” é um mau sinal: significa que o jejum não está indo bem. Significa que você assumiu obrigações desproporcionais às suas capacidades. Se você não mantiver um equilíbrio entre a tensão e o relaxamento necessário para se recuperar, poderá cometer erros e se machucar — seja mental ou fisicamente.

Portanto, embora o jejum, por um lado, nos limite, criando tensão excessiva na alma, por outro, ele amplia a perspectiva, mostrando-nos para onde direcionar as energias da nossa alma e como pavimentar o caminho para Deus.

Lembre-se: Deus age e ajuda, mas nossos esforços desempenham o papel mais importante — sem o desejo e a disposição de uma pessoa em resolver conflitos internos e se libertar de vícios, nada funcionará. Deus não pode nos forçar a sermos santos, mas Ele sempre iluminará nossas almas com a Sua luz.


Protopresbítero Pavel Velikanov
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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