Primeira Palavra: Testemunhar a morte de outra pessoa a uma distância segura é uma iguaria para um pecador. Anunciar uma execução pública hoje significa correr o risco de ser invadido pelas multidões ávidas por assistir e fotografar esse estranho espetáculo.
Jovem e inocente, sem pecado, mas ensanguentado pelos pecados de outros, com Seu nascimento reiniciando a história e dando-lhe um novo começo, Ele permaneceu na Cruz para a alegria indescritível de Seus inimigos e o horror igualmente indescritível daqueles que O amavam.
O sofrimento gera o clamor: “Por quê?!” Esse clamor é amplificado enormemente pelo sofrimento inocente. “Por que vocês o tratam assim? Ele ressuscitou os seus mortos e curou os leprosos! Vocês comeram o pão de Sua mão, e os demônios fugiram dos possessos à Sua palavra. Então, por que vocês O tratam assim?!”
O próprio Jesus poderia ter amaldiçoado o povo judeu e toda a humanidade ingrata da cruz. Mas, maravilhosamente! Quando Seus lábios ressecados se entreabriram, Ele disse: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem!” Uma lâmpada não é acesa para ser colocada debaixo de um alqueire, mas sim no candelabro, para que ilumine a todos os que estão na casa (Mateus 5:14). E Cristo não foi morto por mãos humanas em lugar secreto, mas crucificado entre o céu e a terra diante dos olhos da multidão, e ardeu como uma vela no fogo do sofrimento para que o mundo inteiro visse.
Chegará o dia em que todos O verão novamente, vindo para o Julgamento. As palavras se cumprirão: “Eis que Ele vem com as nuvens, e todo olho O verá, até mesmo aqueles que O traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão por causa d´Ele” (Ap 1,7). Ninguém perguntará naquele Dia: “Quem é Este?”, pois em toda a história da Terra houve apenas um Crucificado que amou tanto as pessoas que sofreu a morte por todas e até orou na Cruz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem!”
Segunda Palavra: Reconhecer Jesus como o Senhor não era fácil, mesmo durante os dias de Seu ministério. Apesar de todos os Seus milagres, Ele era tão simples que um olhar orgulhoso não reconheceria Sua dignidade divina. E no dia de Sua Paixão…
Ele estava pendurado na cruz entre dois criminosos crucificados, mas tinha uma aparência diferente da deles. Os ladrões, ao contrário de Cristo, não foram açoitados no Pretório. Cristo, no entanto, poderia ter morrido ali, já que o açoite em si é uma forma de execução. O flagelo romano era equipado com pesos para aumentar o sofrimento. Esses pesos podiam ser botões de cobre, pesos de chumbo ou fragmentos de osso. A vítima açoitada era chicoteada não apenas nas costas e nádegas, mas também, depois de ser virada de bruços, no peito, estômago, costelas… Isso era feito sem nenhuma piedade; pelo contrário, com prazer. E a pessoa inteira se transformava rapidamente em uma massa de carne ensanguentada e torturada.
Além disso, Jesus usava uma coroa de espinhos. Os espinhos que a terra produziu após o pecado de Adão (Gênesis 3:18) foram então zombeteiramente retorcidos à semelhança de uma coroa real e colocados na cabeça do Novo Adão. Cada espinho podia ser tão grosso quanto o dedo de um homem adulto e tão duro quanto um prego de aço. Os soldados batiam nessa coroa com um bastão…
Assim, o Senhor ficou pendurado entre dois ladrões. Eles O viram ao lado deles e puderam dizer, nas palavras de Isaías: “Nós O vimos, e não havia n`Ele nenhuma beleza que nos agradasse… Homem de dores e familiarizado com o sofrimento… Era desprezado, e nós não o tínhamos em consideração” (Isaías 53:2-3).
E não é nenhum milagre que um dos ladrões tenha dito: “Se Tu és o Cristo, salva-Te a Ti mesmo e a nós!” Mas o milagre é que o segundo ladrão acalmou seu companheiro e reconheceu seu próprio sofrimento justo. Em meio à multidão de pecadores que buscavam eternamente a auto-justificação, esse segundo ladrão era uma raridade notável, dizendo: “Nós, porém, fomos justamente condenados, pois recebemos o que nos foi devido pelos nossos atos” (Lucas 23:42).
E por essa humildade, seus olhos se abriram. No homem açoitado e coroado de espinhos, o humilde condenado reconheceu o Senhor! E sua oração ao Senhor foi breve: “Lembra-te de mim”, isto é, “lembra-Te de mim”, ó Senhor, quando entrares no Teu Reino!
E tão breve quanto, porém maravilhosa, foi a resposta: “Em verdade te digo que hoje estarás co´Migo no Paraíso” (Lucas 23:43).
Assim, o paraíso celestial se abriu. Assim, o ladrão nele entrou primeiro, antes de todo mundo.
Terceira Palavra: Certo dia, perto da cidade de Naim, Cristo ressuscitou um jovem morto. Ele era o único filho de sua mãe, que também era viúva (Lucas 7:12). Conhecendo seu destino de antemão, talvez Jesus Cristo tenha visto sua própria Mãe naquela mulher inconsolável.
Pois ali estava Ela, aos pés da Cruz, e não havia ninguém no mundo que sofresse mais do que Ela. José já havia morrido há muito tempo. Aos olhos dos homens, Maria era viúva. E Seu único Filho, Aquele de quem Gabriel disse: “O Seu Reino não terá fim” (Lucas 1:33), estava pendurado na Cruz entre dois criminosos crucificados. “Ele salvou outros, mas não pode salvar a Si Mesmo” (Marcos 15:31), diziam os que passavam.
E agora fica tão claro o que o ancião Simeão disse certa vez no templo: “Uma espada traspassará a Tua própria alma, para que se manifestem os pensamentos de muitos corações” (Lucas 1:35).
Uma espada realmente traspassou a Sua alma. E por um tempo, a vida perdeu todo o sentido. O único desejo de Maria era morrer ali, naquele instante, unir-Se ao Seu Filho em Seu sofrimento e, como Ele, nunca mais ver o sol.
Mas o que é isto? Ele fala com Ela! Ele pensa n´Ela e, da Cruz, demonstra preocupação por Sua Mãe!
Em público, Ele nunca havia demonstrado qualquer ternura especial por Sua Mãe. Quando Lhe disseram: “Eis que Tua mãe e Teus irmãos Te procuram”, Sua resposta foi severa e distante: “Quem é Minha mãe? E quem são Meus irmãos?… Todo aquele que faz a vontade de Meu Pai que está nos céus, esse é Meu irmão, Minha irmã e Minha mãe” (Mateus 12:50).
Ninguém poderia acusá-Lo de considerar as leis da carne e do sangue, os laços de parentesco físico, mais importantes do que as leis do Espírito e o parentesco espiritual. Mas agora não há ninguém mais desafortunado na Terra do que a Virgem Maria, e o Filho deve cuidar d´Ela.
Ele confia Sua Mãe ao Seu amado discípulo, João. João jamais trairá. João não vacilará nem fugirá. Ele é jovem, mas firme como um diamante. E agora, ele é o único da hoste apostólica ali presente — no Gólgota. Os outros foram vencidos pelo medo e fugiram.
Portanto, vendo Sua Mãe e o discípulo ali presentes, a quem Ele amava, Jesus diz à Mãe: “Mulher, eis aí o Teu filho!” E depois diz ao discípulo: “Eis aí a tua mãe!” (João 19:25-27)
A partir desse momento, o Apóstolo do Amor e a Mãe da Luz tornam-se inseparáveis na consciência da Igreja.
Quarta Palavra: O sofrimento de Cristo foi tema de muitas profecias. Uma das mais marcantes é o Salmo 22 do Rei David. Mil anos antes do nascimento de Cristo, David descreve os eventos do Gólgota com tantos detalhes, como se ele próprio estivesse ao pé daquela montanha, contemplando o Mistério da nossa salvação.
Ali ele ouve os gritos blasfemos dos inimigos de Jesus: “Ele confiou no Senhor; que O livre, que O salve, se Lhe aprouver.”
Ele vê a Mãe do Messias por perto, e Ela está incluída em suas orações: “Desde o ventre materno fui entregue a Ti; desde o ventre de minha mãe Tu és o meu Deus.”
David parece experimentar a própria exaustão mortal de Cristo: “Minha força secou como um caco de barro; minha língua se gruda no céu da boca, e tu me reduziste ao pó da morte.”
E aqui estão as palavras, ditas em primeira pessoa, nas quais a voz do próprio Messias é ouvida: “Cães me cercaram, uma multidão de perversos me rodeou; traspassaram minhas mãos e meus pés. Um só poderia contar todos os meus ossos; mas eles me olham e fazem de mim um espetáculo; repartem entre si as minhas vestes e lançam sortes sobre a minha túnica.”
Cristo é o Filho de David. Este é um de seus títulos messiânicos. E não apenas os laços de sangue, mas também a voz das orações que proferem conecta Jesus e Seu distante ancestral real.
Nos momentos mais cruciais, Cristo fala com palavras predestinadas, profetizadas muito antes dos eventos do Evangelho. Essas palavras são o grito mais terrível do mundo! Um grito que abarca tudo! O desespero e tudo mais! A dor do universo: “Meu Deus, Meu Deus! Por que Me abandonaste?” (Mateus 27:46).
Essas palavras também foram preditas. O já mencionado Salmo 22 de David começa com elas. E Cristo não hesitou em cumprir o que estava escrito sobre Si mesmo. Como um bom músico executando uma partitura, Ele pronunciou a palavra certa, predeterminada, no momento certo. Até mesmo ao ponto de um grito terrível que não tem igual.
Arcipreste Andrey Tkachev
tradução de monja Rebeca (Pereira)







