ÀS MARGENS DOS RIOS DA BABILÔNIA: COMENTÁRIO SOBRE O SALMO 136

O último domingo foi o Domingo do Filho Pródigo, a segunda semana preparatória para a Grande Quaresma. Na véspera, durante a Vigília Noturna, canta-se o Salmo 136 (LXX) – Salmo 137 (texto masorético), “Às margens dos rios da Babilônia”. Eis um comentário teológico-filológico sobre tal hino.

A Grande Quaresma é precedida por quatro semanas preparatórias. Nesse período, o Triódio da Quaresma oferece diversos textos litúrgicos que nos preparam para a Grande Quaresma. Assim, nas Matinas do Domingo do Filho Pródigo e, posteriormente, nos Domingos da Festa do Carnaval (Apokreo) e da Festa do Queijo (Tirofagia), após o canto dos Salmos de Polyeleos (134 e 135 – segundo os LXX), “Louvai o Nome do Senhor” e “Dei Graças ao Senhor”, canta-se também o Salmo 136 — “Junto aos Rios da Babilônia”.

Em suas instruções para as Matinas do Domingo do Filho Pródigo, o Typikon prescreve que aos dois salmos de Polyeleos se acrescente um terceiro: “Junto aos Rios da Babilônia”, com o belo Aleluia. Podemos observar que, ao prescrever que este salmo seja cantado desta maneira, o Typikon o distingue dos dois salmos precedentes.

O Salmo 136 é composto por nove versículos. Na Bíblia em eslavo eclesiástico, seu título é: “A David, obra de Jeremias”. Na Bíblia Hebraica, não há inscrição do nome do autor, e nas Bíblias Latina e Grega consta apenas o nome de David.

Existem diversas opiniões sobre a autoria do Salmo 136. O forte sentimento de saudade de casa, vividamente expresso no texto (vv. 5-6), sugere que o autor estava entre os cativos que, após o decreto do rei persa Ciro, em 538 a.C., retornaram à Jerusalém destruída.

O texto do Salmo 136 é o seguinte (traduzido do inglês):

A David, obra de Jeremias

Junto aos rios da Babilônia, ali nos assentamos e choramos, lembrando-nos de Sião. Penduramos as nossas harpas nos salgueiros que ali havia. Pois ali os que nos levaram cativos nos pediam canções, e os que nos destruíam, alegria, dizendo: Cantai-nos um dos cânticos de Sião. Como cantaremos o cântico do Senhor em terra estranha? Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que a minha mão direita se esqueça da sua destreza. Se eu não me lembrar de ti, que a minha língua se apegue ao meu paladar; Se eu não preferir Jerusalém à minha maior alegria. Lembra-te, ó Senhor, dos filhos de Edom no dia de Jerusalém, que disseram: Arrasai-a, arrasai-a, até aos seus alicerces. Miserável filha da Babilônia! Bem-aventurado aquele que te recompensar como tu nos recompensaste. Bem-aventurado aquele que tomar os teus filhos e os despedaçar contra as pedras.

O cativeiro babilônico

Às margens dos rios da Babilônia — o uso do plural em “às margens dos rios” refere-se às diversas áreas ao longo do Tigre e do Eufrates, com seus afluentes e canais artificiais construídos pelos babilônios para irrigar seus campos, onde viviam as famílias judias cativas.

O plural dos verbos “nós nos sentamos”, “sim, nós choramos” refere-se à comunhão entre os cativos. Eles choram juntos e se solidarizam uns com os outros, lembrando-se de Sião — neste caso, a palavra está associada a Jerusalém ou ao Templo.

Nossas harpas — aqui, no texto grego, está a palavra ὄργανα (órgão). Ela foi incorporada ao texto eslavo eclesiástico sem tradução. Em russo, é traduzida como “instrumentos”, e, ao lermos a Tradução Sinodal (baseada no hebraico), entendemos que se refere a instrumentos musicais: Penduramos nossas harpas. Instrumentos musicais pendurados em árvores significam que os judeus haviam deixado a alegria de lado.

Desde seus primeiros versos, o hino “Às Margens dos Rios da Babilônia” revela todo o significado da Grande Quaresma. Estamos cativos ao pecado — “às margens dos rios da Babilônia”. Assim como os judeus, precisamos deixar a alegria de lado, refletir sobre nossos pecados e lembrar de Sião — o Reino Celestial, ou a Jerusalém Celestial.

Cânticos de Sião

Exigido — os captores babilônicos exigiram que os judeus lhes recitassem alguns versos dos hinos e louvores divinos que cantavam em Jerusalém.

“Como cantaremos o cântico do Senhor em terra estranha?” — “Por que não lhes era permitido cantar em terra estranha? Porque ouvidos impuros não devem ouvir esses hinos místicos”, comenta São João Crisóstomo sobre este versículo (Comentário sobre os Salmos).

Uma terra estranha não é apenas um país distante da cidade santa — é uma terra pagã impura (cf. Ezequiel 4:13-14) que dava “pão impuro”.

São João Crisóstomo nos chama a vigiar com especial cuidado e a construir uma vida verdadeira na qual não nos tornemos cativos, estrangeiros na cidade de nosso pai e separados dela. “Que ouçamos tudo isso e aprendamos com isso. Assim como eles começaram a buscar a sua cidade quando foram privados dela, muitos de nós também experimentaremos a cidade quando formos privados da Jerusalém celestial naquele dia”, comenta São João sobre o Salmo 136 (Comentário sobre os Salmos).

Jerusalém — a maior alegria

Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que a minha mão direita se esqueça da sua destreza. Se eu não me lembrar de ti, que a minha língua se apegue ao meu paladar; se eu não preferir Jerusalém à minha maior alegria — os versículos cinco e seis são construídos sobre o princípio de um juramento: “Se eu me esquecer, que a minha mão direita se esqueça de mim; se eu não me lembrar, que a minha língua se apegue ao meu palato”. O autor do salmo está pronto para ser punido por violar seus votos, isto é, se ele não fizer de Jerusalém a sua maior alegria, que o Senhor o prive da capacidade de tocar harpa com a mão direita e proíba a sua língua de cantar os cânticos de Sião.

O canto deste salmo no período de preparação para a Grande Quaresma nos convida a fazer de Jerusalém — o Reino dos Céus — a maior de nossa alegria.

Os filhos de Edom

Voltando-se para Deus, o Salmista suplica ao Senhor que Se lembre das más ações dos edomitas, cometidas durante a destruição de Jerusalém em 587 a.C. (cf. Obadias 1:10-15): Lembra-Te, Senhor, dos filhos de Edom no dia de Jerusalém, que disseram: Arrasai-a, arrasai-a, até aos seus alicerces.

Os edomitas eram um povo aparentado aos judeus — sempre foram hostis aos seus irmãos e sempre participaram ativamente e de forma maligna em todos os eventos dolorosos de suas vidas (cf. Amós 1:11).

E o dia de Jerusalém — o dia em que Jerusalém foi arrasada até aos seus alicerces, a cidade foi despojada de suas muralhas e torres defensivas, ficando como que nua (cf. Isaías 3:17).

Filha da Babilônia

Miserável filha da Babilônia! Bendito seja aquele que te recompensar como tu nos recompensaste! — Na tradução russa do salmo, a filha da Babilônia é chamada de “devastadora”. O texto grego a chama de “infeliz” (ταλαίπωρος), daí a palavra “miserável” ou “amaldiçoada” — infeliz, lamentável.

A expressão desagradável, “Bendito seja aquele que pegar os teus filhos e os despedaçar contra as pedras”, segundo alguns comentários sobre o Saltério, indica os aspectos rudes e desumanos da religião israelita. Seja qual for a nossa interpretação dessas palavras do salmo, o salmista provavelmente não deseja a morte de todos os filhos inocentes da Babilônia, mas suplica ao Senhor que lembre aos destruidores específicos o que fizeram a Sião.

Muitas coisas podem ser comparadas a crianças na vida espiritual — é uma imagem do início de pequenas indulgências e descontentamentos que podem se transformar em paixões e vícios profundos e ineradicáveis. Agora, elas parecem tão pequenas e indefesas que até mesmo resistir a elas parece uma tarefa árdua. Mas é justamente nesse estágio inicial que é necessário combatê-las — Bem-aventurado aquele que tomar os teus filhos e os despedaçar contra as pedras.

***

O Salmo 136, cantado apenas três vezes por ano durante a Vigília Noturna nas semanas preparatórias para a Grande Quaresma, mostra-nos a grande decepção do povo judeu por ter perdido seu lugar sagrado — Jerusalém. O texto também nos convida a contemplar o valor das grandes dádivas que o Senhor nos concede.

Sem dúvida alguma, a tristeza e as lágrimas dos cativos hebreus devem nos inspirar a valorizar todos os dons que Deus nos envia.


Professora Larisa Marsheva, Peter Gramatik
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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