AS FRONTEIRAS ENTRE A ORTODOXIA E A HERESIA – SÃO GREGÓRIO PALAMAS (III)

‘Comunhão da deificação’ significa uma sociedade de pessoas que prepara e produz deuses, deuses pela graça. Este era, em todo caso, o plano pré-eterno de Deus para nós, como fica claro pelo fato de termos sido feitos ‘à Sua imagem e semelhança’. Deveríamos nos tornar como Ele e participar da graça do Deus Trino. A implementação deste plano, contudo, requer nosso consentimento e cooperação. Deus nos dotou de liberdade e não nos impõe nada à força. É por isso que o propósito de Deus para nós só é alcançado por meio de nossa cooperação voluntária. Uma vez que nos tornamos distorcidos por nossa apostasia de Deus, precisamos nos esforçar, pela graça de Deus, para reencontrar nosso verdadeiro eu e prosseguir com o Seu plano para nós. Este é o esforço ao qual a Igreja nos chama durante o tempo da Grande Quaresma.

São Gregório Palamas é um guia excepcional para a conclusão bem-sucedida desta luta. Acima de tudo, este grande teólogo da nossa Igreja ensina a importância de recuperarmos o nosso verdadeiro eu, de o apresentarmos a Deus e de estarmos preparados para receber o grande dom da salvação que Deus nos oferece. Ele ensina-nos a importância de olharmos profundamente para o nosso interior, de trazermos o nosso nous desordenado de volta ao coração e de ouvirmos o convite de Cristo: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a Minha voz e abrir a porta, entrarei na sua casa e ceiarei com ele, e ele co´Migo”. Foram estas verdades e este modo de vida que São Gregório Palamas defendeu contra Barlaão. Foram estas verdades e este modo de vida que foram postos em causa e atacados por Barlaão e por pensadores com ideias semelhantes.

Poderíamos dizer que, com o ensinamento de Barlaão, não tivemos apenas uma heresia comum, mas uma completa ruptura e rejeição do dom da divina providência. São Gregório usa as palavras de São Simeão, o Novo Teólogo, a respeito de um fenômeno semelhante da época deste último. Ele diz que é um ensinamento que: “rompe toda a providência de nosso Deus e Senhor, Jesus Cristo, e nega claramente a renovação da imagem depravada…”.

São Gregório Palamas defendeu a autêntica tradição da Igreja, que, inicialmente, era comum tanto ao Oriente quanto ao Ocidente. Ele se esforçou para eliminar as divergências que surgiram como resultado do cisma. Combateu o ensinamento de Barlaão de que a energia ou graça de Deus é criada e enfatizou que, por meio de Sua graça incriada, Deus entra em contato pessoal conosco, une-Se a nós e nos deifica. Dessa forma, promoveu o Cristianismo sem deturpação, apoiou a Ortodoxia e manteve aberto o caminho para a nossa deificação.

A ruptura entre a vida cristã e a Igreja, ocorrida nos tempos modernos, distorceu o Cristianismo e favoreceu a secularização. E como a secularização surgiu e se consolidou no Ocidente, após ser importada para o Oriente, não é difícil compreender o papel preponderante que os ocidentais desempenham nessa situação. É por isso que as sociedades seculares do Oriente encontram-se naturalmente em desvantagem em relação às sociedades seculares do Ocidente e precisam segui-las constantemente, aceitando-se como formas de encurralamento. Desprezamos nossas próprias raízes autênticas; negamos nossas riquezas espirituais; esquecemos nosso objetivo transcendente; e preferimos modernizar, caminhando descalços sobre os espinhos da secularização.

Num momento crucial da história, através de sua vida e ensinamentos, São Gregório Palamas trouxe enormes riquezas à nação grega e à Igreja, não apenas na época em que viveu, mas também durante o período sombrio do domínio turco que se seguiu. Hoje, também, sua pessoa e seus ensinamentos são um capítulo valiosíssimo que se oferece para nosso apoio e progresso criativo no futuro. Para o nosso progresso na história, para o nosso diálogo com o mundo cristão e não cristão de nossa sociedade globalizada e corrompida.

Em conclusão, gostaria de fazer duas observações que são particularmente importantes e pertinentes hoje. Uma diz respeito à vida de São Gregório, a outra aos seus ensinamentos.

Quando Palamas foi consagrado Arcebispo de Tessalônica em Constantinopla, ele foi à cidade para assumir seu cargo, mas foi recebido por uma revolta dos zelotes, que o impediram de entrar. Palamas retirou-se pacificamente para o Monte Athos, onde viveu como monge por cerca de um ano. Devido aos conflitos civis em curso e à rebelião dos zelotes, o rei dos sérvios, Estêvão Dušan, aproveitou a oportunidade para expandir sua autoridade sobre grande parte da Macedônia. Em visita ao Monte Athos, tentou conquistar o apoio do arcebispo que havia sido excluído de seu trono. Fez-lhe promessas lisonjeiras de poder político, vastas jurisdições e muito dinheiro. Ao que o hierarca, sem recursos, deu a seguinte resposta nobre:

“Não preciso de poderes, jurisdições e muito dinheiro. Se você pegar uma esponja que absorve um copo d’água e jogá-la no Mar Egeu, ela jamais absorverá o oceano infinito, mas apenas um copo d’água; ou seja, sua capacidade natural. O resto será ignorado. Há muito aprendi, e agora se tornou natural para mim, viver com pouco e apenas com o necessário. Mesmo que me dessem todo o ouro da Terra e tudo o que há debaixo dela, mesmo que me levassem e me banhassem nas águas do mítico Rio Paktalos, eu não aceitaria mais do que meu alimento diário e o necessário. Portanto, não preciso nem me interesso por discussões sobre seus grandes presentes e provisões monetárias.”

A outra observação, como dissemos, tem a ver com seus ensinamentos. Como “pregador da graça”, São Gregório enfatizou que a energia de Deus, sua graça, por meio da qual somos salvos, não é criada. Em outras palavras, Deus não nos salva por meio de algum mecanismo criado que se interpõe entre Ele e nós, mas sim entra em contato pessoal e união direta conosco. Da mesma forma, precisamos nos aproximar de Deus direta e pessoalmente. É por isso que a oração, que estava no centro do conflito entre Palamas e Barlaão, não é meramente uma lembrança de Deus ou um movimento da mente humana em direção a Ele, como Barlaão afirmava, mas sim uma união e comunhão pessoal com Ele, culminando na Santa Ceia.

Oração significa dirigir-se a uma pessoa. Quando oramos, sentimos verdadeiramente a presença da pessoa a quem dirigimos nossa oração. Especialmente a Oração de Jesus – “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim” – que Palamas afirmava que deveria estar permanentemente nos lábios de todos os fiéis. Para os nossos dias, é a sua principal exortação e conselho para a nossa retificação e a restauração da nossa comunhão com Deus e com os outros.


Georges Mantzaridis
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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