ARREPENDIMENTO, CONFISSÃO E JEJUM – PARTE 2

EXISTE UM SALVADOR!

São Basílio, o Grande diz (e isso está incluído no ofício aos Santos Arcanjos) que todos os poderes angélicos se esforçam por Cristo com amor incondicional. Mesmo sendo anjos, grandes seres espirituais, quase deuses, eles são vazios sem Cristo, sem Deus. Em “O Adolescente”, Dostoiévski coloca na boca de Versilov a imagem de que a humanidade realizou a verdade social, o amor, a solidariedade, o altruísmo, mas baniu da Terra a grande ideia de Deus e da imortalidade. E quando Cristo aparecer em Sua Segunda Vinda, então, de repente, todos — todas aquelas pessoas felizes que realizaram o reino na Terra, o “Paraíso na Terra” — sentirão que havia um vazio em suas almas, o vazio da ausência de Deus. E isso significa que não havia amor. E Dostoiévski disse com razão que o amor ao próximo é impossível sem o amor a Deus.

Os dois mandamentos do amor estão unidos: o amor a Deus, completamente, com todo o seu ser, e o amor ao próximo, completamente, como se ama a si mesmo. Eles não podem existir um sem o outro, e juntos criam uma cruz cristã: vertical e horizontal. Se você tira um deles, não obtém mais da cruz, e não obtém Cristianismo. O amor a Deus não basta, e o amor ao próximo também não.

O arrependimento desperta imediatamente no homem o amor a Deus e ao próximo.

Em “O Caminho da Salvação”, São Teófano, o Recluso, afirma (mas essa também é a experiência de todos os Padres da Igreja) que, quando o homem desperta para o arrependimento, sente imediatamente que ama o seu próximo. Ele deixa de ser orgulhoso, deixa de se considerar grandioso. Ele deseja a salvação para todos. Este é um sinal da verdadeira vida cristã. Isso significa que o arrependimento nos revela, em um estado anormal, em um estado pecaminoso e alienado, o caminho, a conversão para a normalidade, a conversão para Deus e a retificação diante d´Ele. Revela a verdade completa sobre a condição humana. E o arrependimento se transforma imediatamente em confissão.

A Confissão é a revelação do verdadeiro homem. Às vezes, até nós, cristãos ortodoxos, temos a impressão de que o arrependimento é um certo “dever” que “devemos cumprir”. Mas não, essa é uma compreensão muito superficial do arrependimento. A Confissão é como o que uma senhora russa idosa que cuidava do neto me contou. Ele aprontou alguma travessura e ela lhe deu um tapa na mão. Ele foi para um canto e começou a chorar, ressentido. Ela não lhe deu mais atenção e continuou trabalhando. Mas, finalmente, o neto se aproximou dela: “Vovó, eu apanhei aqui, e dói.” Sua avó ficou tão comovida com esse apelo que também começou a chorar. Essa abordagem infantil conquistou sua avó.

Ele se abriu para ela. Assim, a confissão-arrependimento é uma espécie de revelação de si mesmo diante de Deus. Daí as palavras do Salmo, que também foram incluídas no Irmos: “Derramarei diante dele a minha súplica” — como quem tem um cântaro de água suja e simplesmente o derrama diante de Deus. “E contarei a ele as minhas angústias, porque a minha alma está cheia de maldade e a minha vida chegou ao fundo do inferno.” Ele simplesmente sente que afundou nas profundezas do inferno, como Jonas na baleia, e agora se revela diante de Deus.

Com o verdadeiro arrependimento, tudo se revela e os pecados se tornam claros. Um eremita que vivia nos penhascos do Monte Athos, onde não há nada, desceu ao monastério para se confessar, e quando seu Confessor lhe perguntou o que queria confessar, ele respondeu: “Tenho um grande pecado na minha alma. Guardo torradas em uma jarra, mas um rato vem e as come. Reclamo muito disso.” Então, ele se calou e acrescentou: “Esse rato me magoa muito, mas estou mais zangado com ele do que ele comigo.”

A Confissão, como continuação do arrependimento, é a verdadeira autorrevelação do homem. Sim, somos pecadores, e é por isso que revelamos nossas feridas, doenças e pecados. O homem se vê em uma situação desesperadora e sem esperança. Mas o que é verdade é que ele não olha apenas para si mesmo, mas, como disse Santo Antão: Coloque seu pecado diante de si mesmo e olhe para Deus do outro lado de seus pecados. Olhe para Deus através de seus pecados! Então o pecado não resistirá ao confronto com Deus. Deus tudo vence: O que é o pecado? Nada! É um absurdo diante de Deus. Mas, diante de Deus, ele existe! Porém, em si mesmo, é para mim um abismo, uma perdição, um inferno. Como disse o salmista David: Das profundezas clamei a Ti, Senhor! Levanta a minha vida do abismo. Nossa alma anseia por Deus, como um cervo no deserto anseia por água corrente.

Como disse Santo Agostinho: O coração do homem não repousa em lugar algum senão em Deus. Assim como quando algo acontece a uma criança, ela corre e procura por sua mãe, e por mais ninguém, e não deseja nada além de sua mãe, e assim que cai em seus braços, se acalma.

Portanto, o Evangelho é um livro de relações fundamentais: fala de crianças, pais, filhos, lares, famílias. O Evangelho não é uma teoria, nem filosofia, mas uma expressão de relações existenciais — nossas relações uns com os outros e com Deus.

Assim, a Confissão é a revelação da verdade sobre si mesmo. Não é preciso se caluniar, se repreendendo mais do que o pecado cometido, mas também não se deve escondê-lo. Se o escondermos, demonstramos que não temos amor sincero por Deus. A Bíblia é um relato de uma experiência vivida, extraída da realidade. A Bíblia mostra muito. Há muitos pecados, incluindo a apostasia e a luta contra Deus, mas há uma coisa que você não encontrará em tudo isso: a falta de sinceridade. Não há esfera da vida onde Deus não esteja presente. É preciso saber, como o Padre Justin (Popovich), como os santos profetas sabiam, que há muito mal no homem e que o mundo está perdido no mal, mas que há salvação para um mundo assim e para um homem assim. Esta é a nossa alegria! Há uma chance de salvação e há um Salvador verdadeiro.

O Padre Justin demonstrou isso certa vez com um exemplo como este (ele realmente amava o profeta Elias e São João Batista!). Segundo ele, o Precursor era o homem mais miserável do mundo, pois quando criança foi para o deserto com sua mãe, e quando ela morreu, ele permaneceu lá, e Deus o protegeu com Seus anjos. Assim, ele viveu no deserto puro, com um céu puro, pedras puras, chuva pura, e não conheceu o pecado, mas viveu como um anjo de Deus em forma humana. Então, quando completou trinta anos, Deus lhe disse: “Vai ao Jordão e batiza as pessoas.” E então as pessoas vieram até ele e começaram a confessar. Derramaram seus pecados sobre o Precursor, e esses pecados se tornaram uma colina… uma montanha… O Precursor não conseguiu suportar esses pecados. Vocês sabem que tipo de pecados as pessoas carregam dentro de si! E o Precursor começou a se desesperar: “Senhor, este é o homem que Tu criaste? Este é o fruto das Tuas mãos?” O Precursor começou a afundar. E as multidões vieram confessar — ​​quantos pecados mais devem ser acumulados? E quando o Precursor não aguentou mais, Deus de repente lhe disse: “Eis o Cordeiro de Deus, um dentre estes pecadores, que tira o pecado de todas estas pessoas e do mundo inteiro.” E então o homem mais infeliz se tornou o mais feliz. Glória a Ti, Senhor! Isso significa que há salvação para estes e todos os pecados.

Há um Salvador! Padre Justin expressa, a partir de sua própria experiência, é claro, que tipo de arrependimento o Precursor experimentou ali. E, de fato, vou contar-lhes a partir da minha pequena experiência com o Padre Justin. Ele era um homem que vivia como o Precursor: puro, um grande asceta, e tinha compaixão, como o Metropolita Antônio (Khrapovitsky). Ele tinha compaixão pelos pecadores, tinha compaixão por todos os homens, por toda a criação, e Deus lhe deu o grande dom das lágrimas para expressar essa compaixão. E isso não lhe era estranho. As lágrimas humanas estão sempre próximas de todos nós. Perto de um homem que se arrepende sinceramente, podemos sentir que nós também precisamos de arrependimento, que as lágrimas são água natural, preciosa, como o sangue; é o novo sangue cristão, é um novo Batismo, como disseram os Padres. Através das lágrimas, renovamos a água batismal, que se torna cheia de graça.

E a esse arrependimento se junta o jejum.

Em sua obra “Minha Vida em Cristo”, São João de Kronstadt escreve que, quando o homem odeia, seu olhar impede o outro até mesmo de caminhar. Não é apenas o homem que sofre com o pecado, mas tudo ao seu redor sofre, inclusive a natureza, e quando o homem começa a se arrepender e jejuar, isso se reflete em tudo ao seu redor.

Permitam-me um pequeno parêntese: se a humanidade moderna jejuasse mais, não haveria tantos problemas ecológicos. A atitude do homem em relação à natureza não é de jejum, nem de ascetismo. É brutal, violenta. O homem é um explorador, um ocupante. Foi isso que Marx ensinou: basta atacar a natureza e usá-la, dominar suas leis e reproduzir-se. Essa será “a história”, e assim por diante. Essa atitude é diferente, simplesmente não é humana, não é humanitária.

Os Santos Padres ascetas diziam que não somos assassinos da carne, mas assassinos das paixões. O jejum não é uma batalha contra a carne, tal como criada por Deus. Cristo é carne, e a Sua Comunhão também é carne. Mas a batalha deve ser contra a depravação da carne. Todos podemos perceber e sentir que, se o homem não se controla, não controla o seu corpo, torna-se escravo da comida, da bebida ou de outros prazeres. A matéria passa a possuir o homem, e não o homem a matéria.

A queda de Adão foi a sua falta de autocontrole: ao comer o fruto, ele não recebeu nada de novo. O mandamento não era proibi-lo de comer o fruto como se houvesse algo perigoso nele, mas sim ensiná-lo a se disciplinar, a trilhar o caminho do podvig (esforço ascético) — um podvig de liberdade e um podvig de amor. Ninguém além do homem poderia fazer isso, e por isso ele é chamado a fazê-lo. Para participar da liberdade e do amor de Deus, o homem precisa ser um asceta.

Por exemplo, um atleta, um jogador de futebol, precisa ser um asceta. Ele não pode simplesmente comer, beber e fazer o que quiser e ainda ser um bom atleta. Não pode. Isso é óbvio.

Com muito mais razão um cristão deve domar o seu corpo para que ele sirva (“liturgize”, em grego), isto é, para que esteja presente na “liturgia”. E “liturgia” significa uma função comum, normal e completa, uma atividade comum. Quando falamos da Divina Liturgia, estamos falando do serviço do povo a Deus, mas o significado geral da palavra é o funcionamento normal de tudo o que é dado ao homem.

Portanto, um cristão no caminho do arrependimento também pratica o jejum. É por isso que devemos jejuar, não apenas para cumprir algum dever ou mesmo, como alguns pensam, para ganhar uma recompensa, uma coroa de Deus. Nenhum sacrifício que busca uma recompensa é um sacrifício, mas apenas um trabalho à espera de pagamento. Mercenários podem pensar assim, mas não os filhos. Quando foi sacrificado por nós, Cristo não buscou uma recompensa de Deus Pai por isso, mas sim por amor. Como diz o Metropolita Filareto, o Filho foi crucificado por amor a Deus Pai; Por amor a nós, o Filho foi crucificado, e pelo amor do Espírito Santo, venceu a morte por meio da crucificação. Só o amor pode compreender isso.

Em uma família ou em uma amizade, quando há amor, é muito fácil abrir mão de algum prazer em prol do outro. É um desejo natural compartilhar com o outro.

Essa é a compreensão correta do jejum.

Além disso, o jejum nos ajuda a corrigir nossa natureza humana corrompida, a restaurar a ordem necessária que Deus nos deu. É alimentar-se primeiro da palavra de Deus e depois do pão. O pão, claro, é necessário. Não podemos viver sem pão. Mas o pão vem em segundo lugar. Como Cristo respondeu ao diabo, que o tentou no deserto: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4:4). Pela palavra de Deus — isso significa comunhão com Deus.


Vladika Atanasije (Jevitch)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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