ARREPENDIMENTO, CONFISSÃO E JEJUM – PARTE 1

ARREPENDIMENTO É A CONSCIÊNCIA DE QUE A COMUNHÃO SE PERDEU

O arrependimento é o início de uma nova vida cristã, ou uma nova existência cristã — existência em Cristo.

Assim, o Evangelho começa com as palavras de São João Batista: Arrependei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo. E a pregação de Cristo após o Seu Batismo foi: Arrependam-se e creiam no Evangelho.

Mas, em nossos tempos, as pessoas perguntam por que é necessário se arrepender. Do ponto de vista social, é inadequado falar em arrependimento. Há, é claro, alguma aparência de arrependimento, especialmente em países de regimes totalitários orientais, quando alguém se desvia da linha do partido, e então o “arrependimento” é exigido dele, ou quando os próprios líderes do partido se desviam do seu plano inicial — só que não se chama arrependimento, mas algum tipo de “reforma” ou “realinhamento”.¹

Aqui não há verdadeiro arrependimento. Quantos de vocês já viram o filme “Arrependimento”, de Abuladze? Nele, fala-se sobre falso arrependimento, e somente no final do filme se percebe o que é o verdadeiro arrependimento. O filme expõe o falso arrependimento como uma espécie de mudança no “ideal” ou “estilo” de poder, que permanece essencialmente o mesmo. E, de fato, esse “arrependimento” nada tem a ver com o verdadeiro arrependimento.

No texto grego das Sagradas Escrituras, existem duas expressões diferentes para arrependimento. Uma é metanoia e a outra é metamelia. Às vezes, essa segunda expressão é traduzida não como “arrependimento”, mas como “lamento”. Por exemplo, pensei em ir a Frankfurt, mas “me arrependi”, ou seja, mudei de ideia: não irei. Nas Sagradas Escrituras, isso se chama metamelia. É apenas uma mudança de intenção. Não tem significado espiritual. Existe também algo como “lamento” em um sentido social ou psicológico, isto é, alterações. No campo da psicologia, existe a “reestruturação” do caráter, da neurose. Na psicologia profunda de Adler, Freud ou mesmo Jung, não existe o conceito de arrependimento.

O arrependimento é um conceito religioso. É preciso arrepender-se perante alguém. Não significa apenas mudar o estilo de vida, os sentimentos ou as experiências, como acontece, por exemplo, nas religiões e culturas orientais. Essas religiões falam sobre como o homem deve adquirir experiência própria, conhecer a si mesmo, realizar-se para que a luz da sua consciência desperte. Mas Deus não é necessário para essa mudança. No entanto, o arrependimento cristão definitivamente deve ser feito perante alguém.

Eis um exemplo: um dos nossos sérvios — ele já tem sessenta anos — foi comunista na juventude e, como todos eles, fez muito mal ao povo. Mas então ele se converteu à fé, a Deus, à Igreja, e quando lhe ofereceram a Comunhão, ele disse: “Não, eu fiz muito mal”. “Então vá se confessar”. “Não, não”, disse ele, “vou me confessar a um padre, mas pequei perante o povo e preciso me confessar publicamente perante o povo”.

Esta é uma expressão da plena consciência do que é o arrependimento. Aqui vemos a Igreja, o cristão antigo, e a percepção verdadeiramente bíblica de que o homem nunca está sozinho no mundo. Acima de tudo, ele se apresenta diante de Deus, mas também diante dos homens. Portanto, na Bíblia, o pecado do homem diante de Deus está sempre relacionado ao seu próximo, o que significa que possui dimensões e consequências sociais e comunitárias. Isso é sentido tanto em nosso povo quanto nos grandes escritores russos. Os ortodoxos têm a sensação de que um ladrão, um tirano ou alguém que pratica o mal contra o próximo é o mesmo que um ateu. Mesmo que acredite em Deus, tudo é em vão — ele está, na verdade, blasfemando contra Deus, já que sua vida está em desacordo com a fé.

Daí a compreensão holística do arrependimento como uma postura adequada diante de Deus e diante dos homens. O arrependimento não pode ser medido apenas por escalas sociais ou psicológicas, mas é sempre um conceito cristão, bíblico e divinamente revelado.

Cristo inicia o Seu Evangelho, a Sua boa nova, o Seu ensinamento para a humanidade com o arrependimento. São Marcos, o Asceta, discípulo de São João Crisóstomo, que viveu como eremita entre os séculos IV e V na Ásia Menor, ensina que o nosso Senhor Jesus Cristo, poder e sabedoria de Deus, ao contemplar a salvação para todos, de todos os Seus diversos dogmas e mandamentos, deixou uma única lei: a lei da liberdade. Mas também que chegamos a essa lei da liberdade somente através do arrependimento. Cristo ordenou aos apóstolos: “Preguem o arrependimento a todas as nações, porque o Reino dos Céus está próximo”. E com isso, o Senhor quis dizer que o poder do arrependimento contém o poder do Reino dos Céus, assim como o fermento contém o pão ou o grão contém toda a planta. Portanto, o arrependimento é o princípio do Reino dos Céus. Recordemos a Epístola do Santo Apóstolo Paulo aos Hebreus: “Os que se arrependeram experimentaram o poder do Reino dos Céus, o poder da era vindoura”. Mas assim que se entregaram ao pecado, perderam esse poder, e foi necessário renovar o arrependimento.

Assim, o arrependimento não é apenas uma habilidade social ou psicológica para conviver com os outros sem conflitos. O arrependimento é ontológico, ou seja, uma categoria existencial do Cristianismo. Quando Cristo iniciou o Evangelho com o arrependimento, Ele se referia à realidade ontológica do homem. Digamos, nas palavras de São Gregório Palamas: O mandamento do arrependimento e os demais mandamentos dados pelo Senhor correspondem plenamente à própria natureza humana, pois no princípio Ele criou essa natureza humana. Ele sabia que viria Ele mesmo e daria os mandamentos, e por isso criou a natureza de acordo com os mandamentos que seriam dados. E, ao contrário, o Senhor deu mandamentos que correspondiam à natureza que Ele criou no princípio. Portanto, a palavra de Cristo sobre o arrependimento não é uma calúnia contra a natureza humana, não é uma “imposição” de algo estranho à natureza humana, mas sim a coisa mais natural e normal, correspondente à natureza humana. A única questão é que a natureza humana é decaída e, portanto, encontra-se agora em um estado antinatural. Mas é precisamente o arrependimento que serve de alavanca para que o homem corrija sua natureza e a devolva ao seu estado normal. Portanto, o Salvador disse: “Metanoite” — isto é, “mude de ideia” ou “arrependa-se”.

A questão é que nossos pensamentos se afastaram de Deus, de nós mesmos e dos outros. E esse é o estado doentio e patológico do homem que chamamos de “paixão” — em grego: pathos (patologia). É simplesmente uma doença, uma perversão, mas ainda não destruição, pois a doença não é a destruição de um organismo, mas simplesmente uma corrupção. O estado pecaminoso do homem é uma corrupção de sua natureza, mas o homem pode se recuperar e aceitar a correção; portanto, o arrependimento vem como saúde para um lugar doente, para a natureza humana doente. E como o Salvador disse que devemos nos arrepender, mesmo que não sintamos a necessidade de nos arrepender, devemos crer n´Ele — que realmente precisamos nos arrepender. E, de fato, quanto mais os grandes santos se aproximavam de Deus, mais fortemente sentiam a necessidade de arrependimento, na medida em que sentiam a profundidade da queda do homem.

Outro exemplo dos tempos modernos: certo escritor peruano, Carlos Castaneda, já escreveu oito livros sobre um sábio e mago indígena, um Dom Juan no México, que o ensinou a usar drogas para alcançar um estado de segunda realidade, especial, para penetrar nas profundezas do mundo criado e sentir sua espiritualidade, e para encontrar seres espirituais. Castaneda é antropólogo e despertou grande interesse entre os jovens.

Não há nada de novo no diagnóstico de Castaneda sobre Dom Juan. A humanidade encontra-se num estado trágico e anormal. Mas o que ele propõe para sair desse estado? Sentir outra realidade, libertar-se um pouco mais das nossas limitações. E o que acontece? Nada! O homem permanece um ser trágico, nem redimido, nem mesmo resgatado. Ele não pode, como o Barão de Munchausen, erguer-se do pântano pelos cabelos. O apóstolo Paulo observa: nem outro céu, nem outra criação, nem o mundo espiritual, nem o sétimo céu podem salvar o homem, pois o homem não é um ser impessoal que necessita apenas de paz e tranquilidade. Ele é uma pessoa viva e busca uma comunhão viva com Deus.

Um camponês comunista sérvio disse de forma bastante rude: “Ora, onde está Deus, para que eu possa agarrá-Lo pelo pescoço?”. Ele é ateu? Não, ele não é ateu, mas sente Deus intensamente e questiona-o, como Jacob. Claro, é um ultraje da parte desse sérvio falar assim, mas ele pressente uma vida vibrante. E pensar que a salvação reside em uma serena felicidade, no nirvana, na paz interior da concentração e da meditação não leva o homem a lugar nenhum. Isso, inclusive, fecha a possibilidade de sua salvação, porque o homem é um ser criado da não existência para a existência e convidado à comunhão.

No Cântico dos Cânticos ou nos Salmos, vemos um diálogo existencial entre Deus e o homem. Ambos sofrem. Deus sente pena do homem, e o homem sente pena. Dostoiévski, em particular, mostrou com clareza que, quando o homem se afasta de Deus, perde algo grandioso e precioso. Tal erro, a falha em encontrar-se com Deus, é sempre uma tragédia. A tragédia reside na consciência de perder aquilo que poderíamos ter alcançado. Quando o homem perde o amor, quando se afasta de Deus, sente isso tragicamente, pois foi criado para amar. O arrependimento nos reconduz a esse estado normal, ou, pelo menos, ao início do caminho normal. O arrependimento, como disse o Padre Justino (Popovich), é como um terremoto que destrói tudo o que parecia estável, mas que se revela falso, e então é necessário mudar tudo o que existia. Começa então a genuína e constante criação de uma personalidade, um novo homem.

O arrependimento é impossível sem o encontro com Deus. Portanto, Deus vai ao encontro do homem. Se o arrependimento fosse simplesmente um exame, uma contrição ou um uso diferente da nossa energia, seria um realinhamento, mas não uma mudança na essência. Um homem doente, diz São Cirilo de Alexandria, não pode se curar sozinho, mas precisa de Deus para curá-lo. E qual é a sua doença? A corrupção do amor. Não deveria haver amor unilateral. O amor deveria ser, no mínimo, recíproco. Mas para a plenitude do amor, na verdade, são necessários três: Deus, o outro e eu. Eu, Deus e o outro. O outro, Deus e eu. É a pericorese, a interpenetração do amor, o ciclo do amor. Esta é a vida eterna.

No arrependimento, o homem sente que está doente e busca a Deus. Portanto, o arrependimento sempre possui um poder regenerador em si mesmo. O arrependimento não é apenas sentir pena de nós mesmos, ou depressão, ou complexo de inferioridade, mas sempre a consciência e o sentimento de que a comunhão se perdeu, e imediatamente a busca e até mesmo o início da restauração dessa comunhão. O Filho Pródigo caiu em si e disse: “Que situação difícil em que me encontro! Mas eu tenho um Pai, e irei para Ele!”

Se ele simplesmente tivesse percebido que estava perdido, não teria sido um arrependimento cristão. Mas ele foi ao encontro do pai! Segundo as Sagradas Escrituras, podemos supor que o pai já havia saído ao seu encontro, que o pai havia dado o primeiro passo, e isso se reflete no impulso do filho de retornar. Claro, não é necessário analisar o que vem primeiro ou o que vem depois: o encontro pode ser duplo. No arrependimento, tanto Deus quanto o homem entram na atividade do amor. O amor busca a comunhão. O arrependimento é o pesar pelo amor perdido.

Somente quando o próprio arrependimento começa é que o homem sente a necessidade dele. Poderíamos pensar que o homem primeiro precisaria sentir que precisa de arrependimento, que este é a sua salvação. Mas, paradoxalmente, acontece que quando o homem já experimenta o arrependimento, então ele sente a necessidade dele. Isso significa que o inconsciente do coração é mais profundo do que a consciência que Deus dá àqueles que a desejam. Cristo disse: “Quem puder recebê-la, que a receba”. São Gregório, o Teólogo, pergunta quem pode recebê-lo. E ele responde: Quem o quiser.

É claro que a vontade não é apenas uma decisão consciente, mas algo muito mais profundo. Dostoiévski também a sentiu, e o ascetismo ortodoxo reconhece que a vontade é muito mais profunda do que a mente humana; ela está enraizada no âmago do homem, que é chamado de coração ou espírito. Como no Salmo 50 (51): “Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova dentro de mim um espírito reto”. Trata-se de um paralelismo: um coração puro — um espírito reto; cria — renova; em mim — dentro de mim; ou seja, apenas confirma o que já foi dito na primeira parte, usando outras palavras. O coração ou o espírito — é a essência do homem, a profundidade da personalidade divina do homem. Pode-se até dizer que o amor e a liberdade estão contidos no próprio centro, no âmago do homem. O amor de Deus chamou o homem da inexistência. O chamado de Deus foi atendido e recebeu sua resposta. Mas essa resposta é pessoal! Ou seja, o homem é a resposta ao chamado divino.

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1 Este discurso foi proferido em 1988, antes da queda do comunismo na antiga Iugoslávia. – NdT.


Vladika Atanasije (Jevtich)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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