A preparação para o Batismo na Igreja primitiva frequentemente durava até três anos. Um ponto de grande importância é que, durante todo esse período, muitas doutrinas fundamentais não eram exploradas. A “catequese mistagógica” (instrução aos mistérios sacramentais da Igreja) só começava depois do Batismo. Podemos nos perguntar: o que eles faziam durante esses três primeiros anos, e com base em quê tomavam decisões de conversão para a vida toda? Se você ler um conjunto clássico de instruções catequéticas, como as de São Cirilo de Jerusalém, irá descobrir que o objetivo de quase todas as instruções que antecediam ao batismo era moral: o objetivo era o arrependimento dos pecados e o cumprimento dos Mandamentos de Cristo.
A conversão de C.S. Lewis representa um exemplo contemporâneo do caminho ancestral. Suas perguntas eram relativamente simples: Existe um Deus e, se sim, Jesus Cristo é verdadeiramente Deus Encarnado? A história de sua conversão, na autobiografia “Surpreendido pela Alegria”, relata em detalhes como ocorre interiormente e exteriormente essas questões. No entanto, uma vez respondidas essas perguntas para Lewis, ele voltou-se para o assunto em questão: “Agora que sou cristão, no que os cristãos acreditam?” Ele nunca tratou a fé cristã como algo a ser formado e moldado de acordo com sua própria opinião pessoal, nem a ser avaliado e medido por sua avaliação pessoal de valor. Ele descreveu o que chamou de “Cristianismo Puro e Simples”, ou seja, aquelas coisas universalmente acreditadas pelos cristãos ao longo da história. Seu instinto para isso estava correto. Vale ressaltar também que Lewis não se propôs a escrever e explicar o Cristianismo Puro e Simples até alguns anos após sua conversão.
O que causa estranheza é o quão contraintuitivo isso parece para a nossa cultura de consumo de informação. Partimos do pressuposto de que a maneira correta de fazer qualquer coisa é coletar informações, estudá-las, ponderá-las e, a partir dai, tomar uma decisão racional. No entanto, esse modelo contém diversas premissas falsas.
O primeiro pressuposto falso é que os seres humanos seriam, de certo modo, observadores e julgadores imparciais de fatos. Nesse processo, não há espaço para o papel do caráter. Por exemplo, se eu dissesse a alguém, digamos, a um interessado pelo Cristianismo, que essa pessoa não tem competência moral para ter uma opinião cristã válida sobre certos tipos de assuntos, ela certamente se sentiria ofendida e iria embora. Mas isso, em geral, é o que acontece com a maioria das pessoas: falta-nos o caráter necessário para conhecer o propósito. Com relação às crianças, nós entendemos isso perfeitamente: existem aspectos que estão além da capacidade de entendimento moral e intelectual delas. A Igreja primitiva considerava isso algo evidente. Iniciou-se então um processo de ensino e formação moral precisamente porque os candidatos ao Batismo não eram capazes de dizer sim a Deus de maneira adequada.
Uma segunda premissa falsa é que tomar decisões é, em grande parte, uma atividade intelectual. Imagine que eu coloque duas porções de comida à sua frente. Você não tem permissão para provar ou cheirar nenhuma delas. Mas lhe dizem que você deve escolher uma ou outra, e que a sua escolha será a sua alimentação durante o próximo mês. A verdade é que você não pode tomar uma decisão competente. Você pode fazer uma suposição, mas, na realidade, estão apenas lhe pedindo para jogar os dados e arriscar. Informação e decisões são, na verdade, responsabilidade da pessoa como um todo.
Fui abordado (ou, melhor dizendo, repreendido) mais de uma vez sobre a questão da Ordenação apenas de homens ao sacerdócio na Igreja Ortodoxa. Para quem está de fora, essa questão parece clara, e a igreja aparenta ser intolerante, patriarcal e inflexível. Na maioria das vezes, explico que nem sequer posso discutir o assunto com eles se não forem ortodoxos, porque lhes falta a experiência necessária para compreender o que estamos fazendo. Certamente não estamos fazendo o que eles pensam que estamos fazendo, mas eles não possuem base para que eu lhes explique isso. Por exemplo, acredito que, a menos que se tenha uma longa experiência prática com a veneração da Theotokos e dos outros Santos da Igreja, não se pode começar a compreender a natureza do Sacerdócio e o papel que homens e mulheres desempenham dentro da Igreja.
A maioria das pessoas em nossa cultura teve suas mentes e seu caráter formados e moldados pelas práticas do moderno estado de consumo. Entende-se que o papel do ser humano se resume à produção e ao consumo. Atribui-se também um valor excessivo à ilusão de liberdade de escolha e a uma vida “boa” entendida como autorrealização — ou seja, a satisfação pessoal pelas próprias decisões. Em nosso mundo, somos ensinados a perguntar: “O que eu quero ser quando crescer?”. Mas a pergunta mais apropriada para um cristão é: “Que tipo de pessoa eu quero ser quando crescer?” e “Como isso é possível?”.
Um dos principais benefícios do catecumenato primitivo era a humildade. Se era dito que seria preciso três anos de formação antes do Batismo, a mensagem era clara: você não está pronto! O que não está pronto não pode ser apressado. Na Ortodoxia, o modo mais importante de aprender é fazendo. Aprender a orar não é um exercício intelectual, e pensar que assim seja, mostra o quanto ainda não compreendemos a oração. A oração se forma no coração, e o coração se forma no crisol da ação.
As grandes experiências no deserto, presentes na Tradição, apontam para essa formação. Moisés teve que deixar o Egito e encontrar Deus no deserto. Os filhos de Israel foram levados a vagar por quarenta anos no Sinai. O próprio Cristo simbolicamente passou quarenta dias jejuando no deserto (e só podemos imaginar se essa foi a primeira ou a única vez). Acredita-se que São Paulo, após sua conversão, passou anos no deserto (Gálatas 1:17). A Igreja nos convida a um jejum de quarenta dias duas vezes por ano (de Natal e Grande Quaresma). A percepção de que não apenas não sei algo, mas ainda não sou capaz de saber, é uma forma de humildade raramente encontrada no mundo contemporâneo. Se eu não sei, então é simplesmente porque ainda não encontrei o livro certo.
É estranho que nossa cultura reconheça que nossa experiência interior molda nossa percepção do mundo exterior, mas depois passe a supor que somos capazes de saber e decidir tudo em nossas vidas. Curiosamente, essa ideia é compartilhada por um grande número de cristãos contemporâneos. A ideia de “competência da alma” sustenta que toda alma é capaz de ler as Escrituras e compreendê-las por meio do Espírito Santo. Isso é uma noção fundamental por trás de muitos sistemas de Sola Scriptura. O caos resultante no pensamento cristão é uma prova clara de que isso é evidentemente falso.
Não estou aqui defendendo um retorno ao catecumenato de três anos da antiguidade – nossa cultura não suporta tamanha humildade. Mas aprender a aprender deveria ser um aspecto fundamental da vida espiritual. Notei recentemente uma queixa de que o Santo e Grande Concílio, que se reunirá no Pentecostes deste ano, precisa da “voz das mulheres” para realizar tal trabalho. É o clamor da modernidade. Pressupõe uma espécie de “competência inata”, muito semelhante às ideias modernas dentro de nossas democracias. O que os Concílios realmente precisam são das “vozes dos santos”, independentemente de qualquer coisa. A Torre de Babel é a versão terrena do Pentecostes. No entanto, no Pentecostes, aqueles que falaram o fizeram pelo Espírito Santo, não em virtude de sua biologia.
Ser moldado à imagem de Cristo não é primordialmente produto de escolha ou decisão. É obra do Espírito Santo à medida que guardamos os Mandamentos. Ser formado à imagem de Cristo não é o mesmo que formar uma opinião. A Ortodoxia não é apenas algo em que você pensa, é principalmente algo que você faz. Você reza […] Aprendemos a usar nossos corpos. Colocamo-nos às disciplinas do jejum, das vigílias e do autocontrole. Damos esmolas. Aprendemos a não ser consumidores, mas sim a dar graças. “É pela vossa constância que alcançareis a vossa salvação” (Lucas 21:19).
E isso leva algum tempo.
Sacerdote Stephen Freeman
tradução de Frank Pereira








