A SILENCIOSA SANTIDADE DA VIDA COTIDIANA
Como praticar o ascetismo cristão quando não se tem forças para grandes realizações, e por que a “teologia das pequenas ações” é salutar para o leigo moderno.
Há um episódio surpreendentemente profundo no Evangelho de Lucas. É uma tarde quente, e Jesus está a caminho para curar a filha de Jairo. Uma multidão densa e barulhenta o cerca. As pessoas se aglomeram ao Seu redor: algumas por curiosidade, outras por acaso, outras ainda querendo testemunhar um milagre.
E em meio a esse caos, uma mulher que sofria de hemorragia há 12 anos abre caminho. Fisicamente exausta e rejeitada pela sociedade, ela não ousa pedir ao Senhor em voz alta. Uma fé silenciosa habita seu coração, e ela “chegou por trás d´Ele e tocou na orla de Suas vestes; e imediatamente cessou o fluxo de sangue” (Lucas 8:44).
Ela estende a mão, toca a orla de Suas vestes e é instantaneamente curada. Cristo faz uma pausa: “Quem Me tocou?” O apóstolo Pedro fica perplexo: a multidão está pressionando o Senhor, como podem fazer tal pergunta? Mas o Salvador sabe a diferença entre a pressão mecânica da multidão e um toque tímido, porém cheio de fé, de graça.
Nosso Esgotamento Espiritual
Esta passagem do Evangelho é uma metáfora perfeita para a vida de um cristão moderno. Nosso mundo atual é essa multidão barulhenta, opressiva e interminável. A correria, o ruído da informação, os prazos de trabalho e as preocupações com o futuro nos pressionam literalmente por todos os lados.
Muitas vezes, as pessoas modernas (até mesmo os frequentadores de igrejas) se sentem como aquela mulher: sofremos de um “sangramento” espiritual. Nossa força, amor e paciência estão escorrendo por entre nossos dedos. Parece que o verdadeiro Cristianismo— este é o destino dos poucos escolhidos, enquanto nós estamos condenados à tibieza espiritual. Mas é precisamente aqui, no ponto da nossa impotência, que o Evangelho nos oferece uma saída: basta agarrarmo-nos à orla da túnica de Cristo.
O que significa a “orla da túnica” em nosso dia a dia?
Segurar a orla da túnica hoje significa permanecer fiel a Cristo nas pequenas coisas. Este é o Cristianismo sem “efeitos especiais”, mas repleto de significado profundo.
Nossa força, amor e paciência estão nos escapando por entre os dedos. Parece que o verdadeiro Cristianismo é privilégio de poucos escolhidos, enquanto nós estamos condenados à tibieza espiritual.
O Arquimandrita Ioann (Krestyankin), em suas instruções, frequentemente defendia o caminho das “pequenas boas ações”, baseando-se nos profundos pensamentos do arcebispo Ioann (Shakhovsky):
“Não acredite que apenas grandes feitos agradam a Deus… Pratique pequenos atos de amor cristão se os grandes estiverem além das suas forças.”[1]
Como esse toque secreto de graça se manifesta na correria do dia a dia?
Em vez de discutir, fique em silêncio. Quando o cansaço nos obriga a descarregar nossas frustrações em nossos entes queridos, não seria esse um pequeno e acessível gesto de comunhão com Cristo que todos podemos compartilhar?
Uma gota de paciência. Sorria para um caixa cansado, dê passagem a um motorista agressivo, ouça a história de um parente idoso pela décima vez, desligue o telefone e dê a essa pessoa a coisa mais preciosa que temos: nossa atenção plena e um olhar atento.
Um pequeno gesto de gentileza: ajude a carregar uma sacola, faça parte do trabalho de um colega se ele estiver doente.
Ninguém erguerá um monumento para uma afronta não proferida. É uma façanha invisível ao mundo. Mas talvez seja precisamente assim que nós, exaustos pela vaidade, tocamos em Cristo.
Lições dos Novos Mártires: Fidelidade nas Pequenas Coisas
O exemplo da santa mártir Tatiana Grimblit é notável. Ela não era monja, mas uma leiga que trabalhava como enfermeira e dedicava todo o seu salário, toda a sua energia e tempo a ajudar os prisioneiros. Sua santidade surgiu literalmente de seus atos simples e cotidianos de devoção a Cristo. Ela deu tudo aos seus vizinhos.[2] No caso dela, esse “tudo” consistiu, por muitos anos, em pacotes de alimentos comuns, roupas quentes e cartas de consolo para aqueles esquecidos por todos.
“Um pequeno ato de bondade é como uma gota de água que desgasta uma pedra. Não negligencie as gotas! O oceano é feito de gotas”, lembra-nos o Arcebispo Ioann (Shakhovskoy).[3]
Um milagre ao alcance de todos
Pequenas ações têm outra qualidade: são imunes ao orgulho. Lavar a louça depois de sua esposa cansada é algo impossível de se orgulhar. É insignificante demais para a vaidade, mas infinitamente precioso para Deus.
Não precisamos esperar até nos tornarmos “perfeitos”. A verdadeira fé reside em cozinhas comuns, vagões de metrô e escritórios. O Senhor precisa de nós — de nossas mãos cansadas, estendendo-se para Ele. E quando fazemos esse pequeno gesto de amor, tocamos a orla de Suas vestes.
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1. Ioann (Shakhovskoy), Arcebispo. Hino à Pequena Bondade.
2. Damaskin (Orlovsky), Abade. A Vida da Santa Mártir Tatiana Grimblit.
3. Ioann (Shakhovskoy), Arcebispo. Hino à Pequena Bondade.
Alexey Tereshchenko
tradução de monja Rebeca (Pereira)








