A aquisição de pensamentos corretos é acompanhada pela derrubada dos pensamentos falsos de seus pedestais. Tal derrubada equivale à destruição de ídolos.
Ao nutrir um pensamento falso, uma visão distorcida da vida, uma pessoa corre o risco de viver toda a sua existência como idólatra. Ou, no mínimo, de não alcançar todo o seu potencial.
Eis Antônio, este habitante do deserto, a quem, em resposta ao seu pedido, Moisés até apareceu para explicar passagens obscuras das Escrituras; este homem, “abraçado por Deus e iniciado nos mistérios”, ouve uma voz. E a voz lhe diz que ele, Antônio, ainda não foi medido por um certo sapateiro que vive em Alexandria. Antônio deixa o deserto e, guiado por Deus, chega a um formigueiro de verdade, onde encontra uma das formigas que tem os pensamentos certos no coração.
Alexandria é uma das criações de Alexandre, o Grande, o primeiro verdadeiro globalista que sonhou com um império mundial. Centenas de navios atracam no porto de Alexandria. Pessoas chegam aqui por terra e por mar para comprar e vender mercadorias. Pessoas vêm aqui para ouvir pregadores e filósofos famosos. Aqui você encontrará muitos que desperdiçam suas vidas em prazeres, gastando o que herdaram ou ganharam. Aqui, estrangeiros se escondem da punição por crimes cometidos em seus países de origem. Aqui você pode encontrar de tudo, ver de tudo e aprender de tudo. Um monge não deveria vir aqui, exceto talvez em ocasiões muito especiais.
Então Antônio bate à porta para a qual Deus o conduziu. Ele bate e ouve permissão para entrar.
O Ancião pede ao anfitrião que revele um segredo: “Como você agrada a Deus? Qual é o seu trabalho, esse trabalho secreto do coração que não é visível a ninguém além de Deus?”
O sapateiro está aterrorizado e perplexo. Ele não tem nenhuma aspiração espiritual. O monge o confundiu com outra pessoa. Ele simplesmente trabalha. Senta-se à janela, ocasionalmente olha para a rua e trabalha. Só isso.
“Não tenho nenhum problema”, diz Antônio. “Imploro-lhe, revele-me o seu trabalho.”
Então o sapateiro, na simplicidade do seu coração, conta o que preenche a sua alma.
Enquanto trabalha, ele não para de olhar para a rua, por onde passam multidões de pessoas de todos os tipos. São pessoas de ambos os sexos e de todas as idades, vestidas com requinte e cobertas apenas por trapos, moradores locais e visitantes, passeando ociosamente e apressando-se a negócios. São muitas, e todas parecem boas ao sapateiro. O sapateiro os considera superiores a si mesmo. Ele acredita que o Senhor os ama. Enquanto se dedica ao trabalho, repete para si mesmo que todas essas pessoas serão salvas, pois são boas e Deus as ama. “Aparentemente, só eu perecerei por meus pecados”, pensa ele, e, orando, continua a trabalhar.
Após essas palavras, Antônio se curva até o chão diante de seu mestre e retorna. Ele ouviu o que viera buscar. Verdadeiramente, sua visita não fora em vão. Navios carregados com diversas mercadorias partem do porto de Alexandria. O monge também deixa a cidade, levando em seu coração um verdadeiro tesouro — um pensamento nascido do Espírito Santo, um pensamento que conduz à salvação. “Todos são melhores do que eu. Todos serão salvos; somente eu sou digno da morte pelos meus pecados.”
“Todos perecerão. Eu serei salvo”, diz a mentira orgulhosa.
“Todos serão salvos. Eu perecerei”, diz a consciência, iluminada pelo Espírito.
Essa é a lição da história, e se as histórias são contadas, é apenas pelo significado que elas extraem.
Mas eu tenho uma pergunta.
Ou duas perguntas.
Ou cem perguntas.
Em todo caso, este é um ensinamento muito incompreensível, embora minha alma sinta que ele tocou a verdade. Tocou a verdade paradoxal de Deus e imediatamente recuou, assustada com o seu toque.
Primeiro, como você pode dizer “Eu perecerei”? Que “todos sejam salvos”, concordo. Mas eu? Por que eu perecerei? E como não desesperar?
Além disso, as pessoas não escolhem sua religião com base na sua veracidade? Não se orgulham da sua escolha e não buscam constantemente provar a todos a correção de sua religião? “Eu estou certo e você está errado” — essa é a primeira jogada nesse jogo de xadrez chamado debate religioso.
E nós buscamos a religião, buscamos com dificuldade, e escolhemos precisamente ser salvos, não perecer. Então, o que é isso, eu pergunto? É possível permanecer firme na verdade e estar pronto para morrer por ela, considerando todas as pessoas praticamente anjos, e a si mesmo, em todo o mundo, o único digno de destruição?
Descobri que essa é a única maneira de se manter firme na Verdade. Talvez um cérebro computacional não entenda isso, mas a alma humana tem a obrigação de compreender tais paradoxos abençoados.
Não conheço outras almas; só sei que são misteriosas e insondáveis. E sei também que Deus as ama.
De todas as almas do mundo, conheço apenas a minha, e mesmo assim, apenas parcialmente. Mas o que sei de mim mesmo basta para dizer: “Sou um filho da perdição”.
Como um escravo colocado à venda e comprado por um novo senhor, pertenço à catástrofe da Queda. Nenhum esforço da minha parte pode me libertar. Já tentei mais de uma vez. A conclusão é aterradora: estou marcado e acorrentado.
Cristo veio para me resgatar. Ele ordenou que meus grilhões fossem desatados e, como pagamento, permitiu que Suas mãos, estendidas sobre as bordas da Cruz, fossem perfuradas por pregos.
Sou capaz de raciocinar sobre os pecados dos outros e questionar quem é mais pecador do que quem quando as marcas deixadas pelos grilhões ainda estão em minhas mãos, e o próprio Senhor é retratado diante dos meus olhos, como se crucificado entre nós (ver Gálatas 3:1)?
Este é o sinal de pertencer à verdade: a indisposição para pensar nos pecados dos outros, a recusa em ponderar, comparar e avaliar seus pecados. Eu pereço — Deus me cura; eu caio em escravidão — um resgate é pago por mim.
A fé é a imersão na própria dor e o luto como se estivesse morto. E se lágrimas são derramadas por esses mortos, então os olhos, purificados pelas lágrimas, são capazes de ver o mundo segundo o que diz: “Para os puros, todas as coisas são puras; mas para os impuros e para os incrédulos, nada é puro; antes, tanto a sua mente como a sua consciência estão contaminadas” (Tito 1:15).
E a alma só pode evitar a condenação quando expõe a sua própria fraqueza diante de si e reconhece a cada instante que não tem nada de que se orgulhar.
E se a alma não julga os outros, ela mesma não será julgada. É isso que significa: “Ele não entra em julgamento, mas passou da morte para a vida” (João 5:24).
Mas como evitar o desespero com essa mentalidade? Como evitar o enfraquecimento, a depressão e a angústia que consomem a alma?
Bem, vamos falar sobre isso também.
É o nosso orgulho que grita, reclama, se contorce e se recusa a morrer. É o orgulho que dá origem à melancolia assassina e à tristeza sem esperanças.
Mas o mesmo Espírito que revela a nossa corrupção interior, o mesmo Espírito, eu digo, sussurra consolo, pois Ele é o Consolador.
Àqueles escolhidos, capazes de conter a Sua palavra, o Espírito dirige palavras breves e concede grande força. Assim, em meio a grandes lutas, sofrimentos e provações, Siluan, o Athonita, ouviu: “Mantem tua mente no inferno e não desespere”. Essas palavras e a força que as acompanha são necessárias a todos que, por vezes, se sentem mergulhando no inferno do desespero e da falta de esperança.
Portanto, a experiência de ascetas e eremitas demonstra-se relevante e útil; aliás, “útil” — salvífica para muitos que vivem no mundo.
Os eremitas conseguem obter essa experiência dos leigos, assim como Antônio obteve de um sapateiro, porque Deus não olha para os rostos, mas para o coração. E ali, no coração, em suas profundezas terríveis, que o Espírito anseia preencher, tudo o que distingue as pessoas na vida terrena se desvanece.
Uma pessoa que está em comunhão com Deus não se orgulha de nada.
Uma pessoa que está em comunhão com Deus não quer condenar ninguém, para não roubar o poder d´Aquele que é Deus.
Este homem ora humildemente e recorda com gratidão a Paixão e Ressurreição de Cristo.
“Tenham entre vós o mesmo modo de pensar que Cristo Jesus teve” (Filipenses 2:5), dizem as Escrituras.
E o que Jesus sentiu ao caminhar para a Sua morte expiatória? Podemos nos aproximar do Seu modo de pensar?
Essas palavras significam que um dia devemos crescer a ponto de estarmos dispostos a ser crucificados pelo nosso próximo, contanto que ele seja salvo! E somente isso constitui a verdadeira santidade e o seguimento dos passos de Jesus. Se isso não existe e não está à vista, então do que nos orgulhamos? Não há nada, e ainda assim nos orgulhamos, e como!
Isso não significa também que devemos crescer até a oração de Moisés, que certa vez pediu para ser apagado do Livro da Vida, contanto que Deus não destruísse o povo?
Em todo caso, as palavras citadas acima nos levam à questão do sacrifício. Não o tipo de sacrifício exigido para si mesmo e por si próprio, mas o tipo oferecido pelos outros. E um dos Padres do Deserto, possuído pelo Espírito de Cristo, disse que, se pudesse, trocaria de pele com qualquer leproso de bom grado.
Assim é a Ortodoxia, nessas alturas transcendentais onde é difícil respirar!
Carregue a sua cruz e não espere elogios; persevere e tenha compaixão dos outros sem esperar clemência. Não foi assim que Cristo, o Autor da Fé, agiu?
Devemos ao menos estar cientes dessas conquistas extraordinárias, para não julgarmos ninguém nem nos orgulharmos de nós mesmos. Afinal, aqueles que (aparentemente) se despojaram de suas paixões grosseiras, começaram a orar regularmente e começaram a reconhecer e (aparentemente) compreender algo sagrado, precisam especialmente ser lembrados da necessidade de humildade. Essas pessoas são especialmente capazes (devido à sua auto-admiração) de transformar o Cristianismo em uma paródia monstruosa, uma zombaria da santidade e uma zombaria do próximo.
São precisamente essas pessoas que tendem a pensar que todos perecerão, mas elas serão salvas.
Enquanto, na realidade, o oposto pode acontecer.
Arcipreste Andrey Tkachev
tradução de monja Rebeca (Pereira)







