ANSIANDO POR VER O SENHOR

Todos esses domingos que antecedem a Grande Quaresma nos iniciam na sabedoria do arrependimento e cada domingo nos dá constantes, princípios que devemos manter durante todo este período para nossa renovação. Todas as lições que recebemos agora têm o propósito de nos ajudar a realizar a maior tarefa de nossa vida, a de descobrir nosso coração e nos tornarmos verdadeiras imagens de Deus, capazes de conversar com Ele face a Face.

O Domingo de Zaqueu tem dois temas principais. O primeiro é o significado da vergonha voluntária para nos purificarmos da vergonha do pecado que acumulamos nesta vida. O segundo tema é o desejo de Deus. Se nossos trabalhos ascéticos durante a Grande Quaresma forem perfeitos, precisamos que o desejo de Deus prevaleça sobre todas as coisas, pois é esse desejo que volta todo o coração para Deus. Santo Antão não media seu progresso espiritual pelo número de anos que passou no deserto, mas pela quantidade de desejo piedoso que tinha em seu coração cada vez que se apresentava diante de Deus. O desejo por Deus supera todos os outros desejos apaixonados deste mundo, e então Deus vem reinar em nosso coração como Rei. Quando o homem se volta para Deus como Zaqueu, ele é ensinado por Deus e profere palavras de valor eterno. É Deus Quem fala por meio dele, Quem o justifica e renova sua vida.

Pergunta: Zaqueu estava em estado de graça para ter esse desejo de ver Cristo?

Arq. Zacarias: A graça começou a operar em Zaqueu no momento em que ele deixou de considerar sua própria honra e priorizou seu desejo de ver a Face de Cristo. Ele ignorou a boa opinião da multidão e se concentrou apenas em contemplar a Face do Senhor. Nossa alma se sacia quando somos considerados dignos de ver Sua Face: “Quanto a mim, contemplarei a Tua face em justiça; ao acordar, ficarei satisfeito com a Tua semelhança” (Salmo 17:15). Então, o propósito da vinda do homem a este mundo se cumpre.

Pergunta: Como um homem pode adquirir o desejo por Deus? Nascemos com ele?

Arq. Zacarias: Todos nós nascemos com uma certa possibilidade inata de adquirir o desejo por Deus. Para receber a graça, devemos aprender a nos humilhar, porque Deus dá graça aos humildes e resiste aos orgulhosos. A humildade atrai a graça de Deus, que se torna inspiração e desejo de Deus em nós. A humildade e o temor a Deus tornam o homem corajoso. Quando o homem teme a Deus e é humilde, não teme nada. Mesmo que o céu e a terra colidam, ele não será abalado. Ele teme apenas uma coisa: não pecar contra o amor de seu Redentor. Zaqueu não disse que corrigiria suas injustiças porque as multidões murmuravam, mas por causa da energia da presença de Cristo. Tais coisas não podem ser decididas e proferidas por meio do pensamento psicológico. Tais coisas vêm da graça que ferve no fundo do coração. Então o homem se torna como um leão em seu arrependimento, permanecendo diante de Deus e voltando toda flecha de acusação contra si mesmo com o único desejo de agradá-Lo.

Pergunta: Podemos encontrar um equilíbrio entre baixa autoestima e humildade?

Arq. Zacarias: Este é o contraste entre o nível psicológico e o espiritual da vida. Assim como o céu está muito acima da terra, a humildade está muito acima da baixa autoestima. A baixa autoestima pode ser uma forma de autopiedade ou de orgulho ferido por causa de nossa pobreza. Já a humildade é uma sensação dinâmica e um desejo de que a glória de Deus cresça mesmo através de nossa diminuição. São duas coisas que não podem ser comparadas. Não devemos esquecer que a humildade é um atributo da divindade. Toda a Sua manifestação na terra foi um ato de humildade e condescendência, um ato de descer ao encontro da ovelha perdida, deixando de lado toda a Sua glória, assumindo até mesmo a vergonha da Cruz para salvar o mundo. A baixa autoestima não tem nada a ver com a perspectiva da humildade, que é infinita, pois é uma virtude divina de Cristo, Que cobriu os céus (Habacuc 3:3).

Pergunta: Como podemos equilibrar o chamado de Deus com o mundo em que vivemos?

Arq. Zacarias: Uma das maiores tentações é dar demasiada importância e apreço aos padrões e valores deste mundo; tentar tornar o amor de Deus compatível com o amor deste mundo. Não é possível. A graça e a palavra de Deus são absolutas, e quando assimilamos a verdade da Sua palavra e a força da Sua graça, somos capacitados a discernir as coisas deste mundo e a saber que são relativas e insignificantes em comparação com as coisas de Deus. Esforçamo-nos continuamente para adquirir a luz da graça de Deus, e na Sua Luz veremos e avaliaremos todas as coisas: “Na Tua luz veremos a luz” (Salmo 36:9).

Pergunta: Cristo teria Se recusado a encontrar Zaqueu se tivesse agido apenas por curiosidade?

Arq. Zacarias: Se o Senhor tivesse previsto que ele seria impelido por Sua palavra a mudar de vida, Ele teria vindo ao seu encontro. Foi o que Ele fez com Nicodemos, que nada entendia sobre o novo nascimento espiritual no Espírito, e ainda assim o Senhor o acolheu e lhe explicou o ensinamento supremo sobre o novo nascimento vindo do alto. Quando entramos no mundo do Espírito e embarcamos numa aventura com Deus, não há regras, nem receitas: simplesmente seguimos o vento da graça.

Pergunta: Não estamos, de certa forma, sempre atrasados ​​para atender ao chamado do Senhor, diferentemente de Zaqueu?

Arq. Zacarias: Para essas coisas não há um programa. Não podemos dizer que é tarde demais ou cedo demais: nosso dever é responder. Quando Deus chama, obedeça. Só isso. Não existe tempo tardio, pois sabemos que o Senhor recompensa os que trabalham na última hora como aos que trabalham na primeira, porque Ele é bom e dá todas as coisas a todos.

Pergunta: Como discernir o chamado de Deus de quaisquer outras imagens falsas da nossa própria mente?

Arq. Zacharias: As pessoas costumam perguntar: “Como posso saber se o meu desejo de ser monge ou monja é a vontade de Deus?” Se a vontade de Deus está ativa em nós, ela é tão poderosa que não há outra vontade. Ela consome todo o ser do homem. Se o homem realmente recebe a inspiração e o chamado para a vida monástica, ele não pode fazer outra coisa, porque sente o valor absoluto da vida para a qual Deus o chama.

Pergunta: Podemos nós, como um casal vivendo no mundo, dedicar toda a nossa vida a Cristo e viver fora do acampamento deste mundo (Hb 13:13)?

Arq. Zacharias: Ninguém jamais disse que a vida cristã é fácil: os mandamentos de Deus não são exortações humanas, mas o modo como Ele próprio vive. Ele nos dá esses mandamentos para que nos tornemos semelhantes a Ele, e isso não é fácil. Contudo, na vida dos santos encontramos representantes de todas as categorias de pessoas, incluindo casais que agradaram a Deus e se tornaram santos. Se um casal no mundo vive em paz, amor e harmonia, e prioriza em sua vida agradar a Deus, certamente Deus lhes dará a graça e a humildade para andarem retamente, guardarem todos os mandamentos e ordenanças de Deus, tornando-se assim justos e santos.

Pergunta: Como superamos o sentimento de futilidade ao servir pessoas que não querem a Deus?

Arq.  Zacarias: Acumulando continuamente os vestígios da graça em nosso coração, reconhecendo que o verdadeiro destino do homem e sua verdadeira morada não estão neste mundo, mas no mundo vindouro. É somente pela graça que construímos nossa futura morada.

Pergunta: Deus fala conosco através da nossa consciência?

Arq. Zacarias: Sim, a nossa consciência é uma lei não escrita de Deus dentro de nós. Quanto mais lemos a palavra escrita de Deus e quanto mais essa palavra permanece em nós, mais poderosa ela se torna para guiar e inspirar a nossa vida. O mesmo acontece com a nossa consciência: quanto mais a purificamos e a obedecemos, mais aguçada ela se torna e, como diz Santo André de Creta, não há nada mais violento neste mundo do que a própria consciência do homem repreendendo-o pelo seu pecado e impelindo-o a corrigir a sua vida por amor a Deus.

Pergunta: Existe alguma ligação entre a loucura sobre a qual comentaste e o que São Sofrônio chama de “esvaziamento total de si”?

Arq. Zacarias: Sim. São Paulo descreve a loucura como não depositar nossa confiança em nossa mente limitada e dons naturais, mas n´Aquele Que é capaz até de ressuscitar os mortos (2 Coríntios 1:9). Esta é a verdadeira loucura, que tem valor diante de Deus. O esvaziamento total de si, por outro lado, refere-se ao esvaziamento único de nosso Senhor. Mesmo nos hinos da Semana Santa, Ele é chamado de “a extrema humildade”, “o extremo esvaziamento de si”. Este é um título absoluto que o Senhor merece. Quanto a nós, não chegamos a tal ponto, mas procuramos seguir diligentemente os passos de nosso Mestre.

Pergunta: Como podemos nos confessar quando as igrejas estão fechadas ou o padre está longe?

Arq. Zacarias: Se você tem um relacionamento de longa data com seu Pai Espiritual, a quem se confessou nos últimos anos de sua vida, agora, devido à necessidade e às dificuldades dos tempos, você pode fazê-lo por escrito. Você não entrou na Igreja ontem; você já está na Igreja há 30 ou 40 anos. Nas cartas de São Barsanúfio, o Grande, vemos que ele continuamente recebe a confissão dos monges de seu círculo e lhes dá uma palavra para beneficiar suas vidas, para ajudá-los a melhorar e se fortalecer em sua luta espiritual.

Pergunta: Alguns padres não lhe dão a Sagrada Comunhão, mesmo que você lhes diga que tem a bênção do seu Pai Espiritual para comungar sem se confessar todas as vezes.

Arq. Zacarias: Sei que em alguns lugares é necessário que a pessoa se confesse na própria paróquia para receber a Comunhão. Em nosso monastério, se nos dizem que alguém tem a bênção de seu Pai Espiritual, somos uma só família e honramos a palavra desse Pai Espiritual sem questionar: aquilo que um Pai Espiritual decide deve ser respeitado em todos os lugares. Em nosso monastério, alguém pode ter um pensamento ou uma tentação e confessá-lo a você no refeitório ou no caminho. O sacerdote não pode apresentar uma estola sacerdotal e ler uma oração naquele momento. É por isso que, antes da Liturgia, lemos a oração de absolvição para todos.

Pergunta: Como permanecer fiel à decisão de nos corrigirmos pelo resto da vida?

Arq. Zacarias: São Paulo foi elevado ao terceiro céu e, ainda assim, para preservar essa graça, foi ao encontro de Pedro, João e Tiago para ter um ponto de referência na Igreja. Eles reconheceram o dom de Deus nele e o confirmaram. Portanto, preservamos nossa inspiração e desejo por Deus se sempre nos unirmos à assembleia dos fiéis, à Igreja, onde todos têm o mesmo desejo. Então, nossa inspiração não diminuirá.

Pergunta: Como o arrependimento total de Zaqueu, um evento único na vida, se relaciona com o ensinamento dos Padres da Igreja: “Se caires, levanta-te”, que aponta para uma necessidade constante de arrependimento?

Arq. Zacarias: No século IV, no deserto do Egito, a oração constante de todos os ascetas era: “Senhor, dá-me o espírito de arrependimento”, porque sabiam que o arrependimento é como um círculo de fogo que impede o homem de cair em pecado. Há um momento de confissão radical, mas este é apenas o início da salvação, não a salvação em si. Os Santos Padres dizem que, se o homem quiser, da manhã à noite pode alcançar uma medida divina. No entanto, o Padre Sofrônio disse que isso deve acontecer todos os dias.

Pergunta: Que conselho daria a alguém que deseja se arrepender e luta para manter a graça de Deus?

Arq. Zacarias: Não é uma questão simples. Se nos voltarmos de todo o coração para Deus, se nos arrependermos e chorarmos diante d´Ele, Ele nos (pre)encherá com Sua consolação. Mas como preservar isso? Esse é o problema que todos nós enfrentamos. Bem, quando experimentamos a bondade do Senhor, fazemos disso um propósito: agradá-Lo dia após dia. Então, nos disciplinamos e essa se torna nossa principal tarefa na vida: viver sempre sob a sombra da Sua graça. É por isso que São Paulo diz: “Eu me disciplino, e mantenho o meu corpo em sujeição, para que, depois de ter pregado aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado” (1 Coríntios 9:27). Assim, aprendemos a preservar a graça cada vez mais. Não se surpreenda se a perder mil vezes. Continuamos a perder a graça, mas uma coisa permanece: nunca deixamos de buscá-la e de nos humilhar até que Deus Se agrade em nos conceder a graça. Numa oração de joelhos no Pentecostes, dizemos: “A Ti pecamos, ó Senhor, mas é a Ti que adoramos”. Nossa adoração deve se tornar cada vez mais forte para que possa absorver todos os nossos pecados.

Pergunta: Poderia dizer algo sobre a festa do Santo Encontro com o Senhor?

Arq. Zacarias: O justo Simeão tinha o mesmo desejo de ver o Cristo do Senhor (Lucas 2:26), e esse desejo o manteve vivo por muitos anos. Quando recebe o Senhor em seus braços, ele canta seu cântico triunfal: “Agora, Senhor, podes deixar o Teu servo ir em paz… porque os meus olhos já viram a Tua salvação” (Lucas 2:29-30). O DESEJO DE DEUS MANTÉM A ALMA VIVA. Até mesmo o seu desejo de partir desta vida e estar com Deus estava na perspectiva das palavras de São Paulo: “tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (Filipenses 1:23). Tal é o desejo do perfeito.


Arquimandrita Zacarias (Zacharou)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

12 visualizações

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recentes