O ANÚNCIO VIOLENTO
O Amor Infinito invade os portões da nossa vida. Pode ser que eu já tenha alcançado uma espécie de coexistência pacífica com Deus. Talvez eu tenha conseguido me convencer de que estou mais ou menos “em ordem” com a minha alma e, portanto, mais ou menos à vontade comigo mesmo. Talvez eu até tenha previsto um final feliz e tranquilo para a minha vida terrena.
Então, de repente, todas essas garantias são viradas de cabeça para baixo por um chamado divino. Deus exige de mim algo que eu nunca esperava. É quase como receber a notícia de um filho indesejado.
Devo atender a esse pedido urgente? Devo tomar uma decisão que me custará caro? Por que eu faria isso? Tudo parecia estar indo tão bem. É realmente necessário aceitar essas incertezas, essas novas ansiedades? Preciso mesmo trilhar novamente o caminho tortuoso daquele primeiro chamado, aquele que veio há tanto tempo? Preciso mesmo deixar minha terra natal, sem saber para onde Deus está me levando?
Nunca disse essas coisas a Deus, mas certamente as pensei. É claro que nunca disse “não” ao Senhor, mas certamente Lhe dei uma resposta que equivale a uma recusa respeitosa: “Por favor, permita-me viver em Tua presença tal como sou!”
“Tal como sou…” Essa pessoa que sou eu, eu mesmo, representa um estado atual de ser, uma vida vivida em uma situação bem definida, com um conjunto de coisas às quais me apeguei profundamente. Isso inclui meu relacionamento com Deus, que parece perfeitamente adequado. O que mais eu poderia querer?
O amor sem limites busca invadir minha vida. Ele agita as águas calmas da minha existência diária. Ele destrói tudo o que parece estável, a fim de abrir diante de mim novos horizontes que eu nunca antes imaginei.
Recusarei? Fugirei deste anúncio, desta ordem, que Deus acaba de me dar? Se eu recusar, posso não estar necessariamente afastado de qualquer outra forma de amor. Mas o amor que finalmente abraçar será relativo e limitado. Equivalerá a uma rejeição do Amor absoluto, com todas as suas exigências audaciosas. Será a quietude de um lago estagnado, em vez do tumulto do alto mar.
Senhor do Amor, rompe os laços que me prendem! Nunca mais retornarei àquele lugar de complacência familiar. Ó Senhor do Amor, que eu viva diante de Ti como a pessoa que me tornarei!
Quebrando os limites
“Meu filho”, responde Deus, “nunca te deixarei em paz. Quero te ensinar a superar a ti mesmo, a encontrar algo mais, algo maior.”
É bom que você se satisfaça com qualquer forma de beleza harmoniosa. No entanto, você precisa descobrir o doloroso afastamento de si mesmo que lhe permitirá contemplar o que é verdadeiramente sublime.
Isso não significa que você deva desprezar sua inteligência. Afinal, Eu sou a origem e o ápice de todo pensamento. Só não quero que você fique para sempre preso às lentas deliberações da reflexão humana. Quero lhe dar visão!
Seja obediente e piedoso — virtudes das quais tantas pessoas zombam hoje em dia. Mas não quero que você durma em alguma moralidade ou piedade confortável. Quero inspirar em você um senso de sacrifício!
Você conhece muito bem a distância que o separa do seu Deus. Apenas tome cuidado para não medir essa distância para se manter nela, dormindo em uma atitude de complacência, de mínimo esforço.
“Meu filho, quero revelar-te a cada dia a verdade e a realidade de Deus feito homem, teu Senhor de Amor que Se fez carne, a tua carne. Pois é assumindo a natureza humana, sem mistura nem confusão, tornando-se pessoa humana, que o Amor sem limites rompe todos os limites, da maneira mais sublime possível.”
Arquimandrita Lev (Gillet)
tradução de monja Rebeca (Pereira)







