Derrubando os Muros da Separação
Uma cidade fortificada, cercada por muralhas que impedem qualquer pessoa de entrar ou sair, é uma imagem impressionante da separação. Representa a própria negação do Amor sem limites.
Toda separação causada pela falta de amor é pecaminosa, qualquer que seja a sua forma. Todo pecado é separação. A separação, de fato, é o pecado supremo.
Separar-se, tornar-se e permanecer um estranho para os outros, vai contra a própria direção da evolução da vida. Os animais primitivos isolaram-se em espessas capas protetoras. Refugiaram-se atrás de suas poderosas armas de defesa. Gradualmente, porém cada vez mais, perderam esses meios de defesa à medida que seus sistemas nervosos se desenvolviam. Isso lhes permitiu ampliar o alcance de seus contatos. Os seres humanos são os menos protegidos de todos os seres vivos e, ao mesmo tempo, os mais abertos à comunicação. Tal foi a vontade criativa do Senhor do Amor.
Às vezes, uma pessoa ou grupo de pessoas pode assumir a forma de uma cidade fechada. Gostaríamos de nos aproximar deles e estabelecer com eles um relacionamento genuinamente amoroso. Mas a cidade fechou seus portões para nós.
O que podemos fazer então? Montar um ataque contra as muralhas? Certamente que não. Precisamos, em vez disso, circundar os muros da fortaleza várias vezes, sete vezes, até setenta e sete vezes, e fazê-lo em silêncio. Precisamos circundar esses muros com uma atitude tranquila e respeitosa, sem nos preocuparmos com as pedras e os insultos que possam nos ser lançados. Acima de tudo, ao fazer esse movimento, precisamos carregar conosco a Arca da Aliança, o sinal da nossa relação de aliança com o Senhor do Amor. Ou seja, precisamos carregar e oferecer tudo o que há de mais sagrado e generoso em nós.
Precisamos fazer isso até o momento em que o Senhor do Amor nos diga: “Agora Eu coloquei esta pessoa em suas mãos. Eu derrubei o muro da separação. Eu entrego esta pessoa a você, assim como Eu entrego você àquela pessoa.”
Pode ser que cheguemos ao fim da nossa vida sem nunca ver a outra pessoa corresponder ao nosso amor. No entanto, em certo sentido, mesmo assim seremos vitoriosos. Pois, ao “atacar” aqueles que se isolam voluntariamente, e ao fazê-lo com Amor, fazemos com que nossos próprios muros ruam em ruínas.
Não me barrico contra o Amor? A fortaleza hostil sou, antes de tudo, eu mesmo!
Os muros de uma cidade fechada não foram construídos em um dia. Levaram anos para serem construídos. Dia após dia, adicionei pedra sobre pedra, a fim de construir um muro cada vez mais alto de egocentrismo. Isolei-me por um duplo muro de proteção. Primeiro, pelo muro das minhas palavras e atos destrutivos, visível a todos. Depois, há a muralha invisível, muito mais insidiosa, que consiste nos meus pensamentos compulsivamente focados em mim mesmo.
As fortalezas que construímos, no entanto, foram atacadas. Quem assaltou a cidade fechada que existe dentro de cada um de nós? Foram os outros. Foi o Amor.
Não é fácil para nós derrubar os muros que construímos dentro de nós mesmos. Não podemos simplesmente remover as pedras, uma a uma. No entanto, o Senhor do Amor nos cerca constantemente, pacientemente, fazendo o que mãos humanas são incapazes de fazer. Simples ajustes não são suficientes. Ser libertado requer uma transformação profunda. Remover a pedra que fecha a entrada do túmulo requer um verdadeiro terremoto. Nossos muros só são derrubados quando são abalados em seus próprios alicerces.
“Ó Senhor do Amor, abala-me até esses alicerces! Ao bater uma pedra contra a outra, podemos fazer faíscas voarem. Que o choque produzido pelo desmoronamento dos muros da separação acenda em mim o fogo da saudade, permitindo-me ser consumido pela Sarça Ardente! Que todas as barreiras miseráveis em minha vida sejam quebradas pelo assalto às minhas profundezas de Amor sem limites!”
Arquimandrita Lev (Gillet)
tradução de monja Rebeca (Pereira)







